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Arqueólogo decapitado pelo EI era um dos mais importantes do Oriente Médio

Kaled Al-Assaad, de 82 anos, era um dos pioneiros da arqueologia síria, comparado a Howard Carter, que descobriu a tumba do faraó Tutancâmon, no Egito

Terroristas Estado Islâmico (EI) decapitaram e penduraram nesta terça-feira (18) um dos pioneiros da arqueologia síria, figura fundamental para a preservação de Palmira, cidade romana de 2 000 anos, considerada patrimônio da Humanidade pela Unesco e um dos mais espetaculares sítios arqueológicos do Ocidente. Kaled al-Asaad, de 82 anos, descobriu diversos túmulos antigos, cavernas e um impressionante cemitério datado da época da civilização bizantina (entre os séculos V e XV), que fica no jardim do Museu de Palmira. Por seu trabalho, é conhecido como o Howard Carter da Síria, em referência ao arqueólogo britânico que descobriu o túmulo do faraó Tutancâmon, no Egito.

“Kaled al-Asaad era um dos mais importantes pioneiros da arqueologia síria no século XX”, disse Maamoun Abdulkarim, chefe do departamento de antiguidades e museus em Damasco. De acordo com Abdulkarim, o EI capturou al-Asaad há três semanas e tentou fazer com que dissesse onde estavam alguns dos tesouros históricos de Palmira, que alguns arqueólogos esconderam dos terroristas com o intuito de preservá-los.

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Cientista reconhecido – O experiente arqueólogo, formado em história e educação pela Universidade de Damasco, foi, durante quatro décadas, o cientista responsável pelas relíquias da cidade. Após sua aposentadoria, em 2003, trabalhava no departamento de antiguidades e museus de Palmira, cidade que funcionava como um importante entreposto comercial da antiga Rota da Seda, que passava pelo noroeste de Damasco. Era uma dos cientistas mais importantes do Oriente Médio e, em sua carreira, escreveu livros essenciais para a compreensão de aspectos da história da cidade e do Império Romano, como As esculturas de Palmira ou Zenobia, a Rainha de Palmira e do Oriente, além de diversos artigos em publicações científicas internacionais.

“Não é possível escrever a história de Palmira ou qualquer coisa relacionada à cidade sem mencionar o Kaled al-Asaad”, disse ao jornal britânico The Guardian Amr al-Azm, cientista que trabalhou no departamento de antiguidades de Palmira e conhecia o arqueólogo. “É como falar de egiptologia sem fazer alusão a Howard Carter.”

De acordo com Azm, o arqueólogo decapitado trabalhou nas primeiras escavações de Palmira e na restauração de diversas áreas do sítio histórico. Com outros cientistas, tirou do principal museu da cidade algumas relíquias consideradas importantes, antes que o EI tomasse a região.

Os terroristas, que dizem se basear na sharia, a interpretação radical do Corão, acreditam que relíquias históricas promovem a idolatria. Dizem que a destruição de monumentos e peças arqueológicas tem o objetivo de “purgar” o paganismo. Foi o que motivou a destruição de mesquitas e igrejas no Iraque e na Síria e motiva as atrocidades contra monumentos e figuras importantes para a história de Palmira.

Entre as cinco acusações contra o arqueólogo, lidas antes da decapitação, estavam ser “diretor de ídolos”, representante da Síria em “conferências infiéis” e ter visitado o Irã.

“Asaad era um grande reservatório de conhecimento sobre Palmira e isso está perdido. Ele conhecia cada canto e rachadura da cidade. Esse tipo de conhecimento é insubstituível, não é possível comprar em um livro. E está perdido para sempre”, afirmou Amr al-Azm.

Asaad deixou seis filhos e cinco filhas. Os extremistas do EI tomaram o controle de Palmira em maio, mas não há informações sobre possíveis danos às ruínas do Império Romano, embora o grupo já tenha destruído antiguidades no Iraque por considerar blasfêmia qualquer manifestação de culturas pré-islâmicas.

Em junho, os radicais sunitas divulgaram imagens da demolição de dois santuários na região, mas que não integravam o principal conjunto de ruínas.

(Da redação)