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Traficantes fazem homenagem ao dançarino DG

Muro pichado no Pavão-Pavãozinho usa nome de Douglas e sigla da facção Comando Vermelho. Em presídio, detentos lembram dançarino

Por Leslie Leitão e Pâmela Oliveira 25 abr 2014, 13h57

Vítima de um tiro, o dançarino Douglas Rafael da Silva, o DG, nunca teve envolvimento com o crime. Mas as homenagens que traficantes fizeram ao rapaz ao longo da semana mostram que, no mínimo, os bandidos interessados em retomar o controle do morro Pavão-Pavãozinho enxergam na morte do rapaz uma chance de ganhar algum poder. Uma pichação em um muro da favela junta o nome de Douglas ao símbolo da facção criminosa Comando Vermelho – com a tradicional referência ao fundador da quadrilha, Rogério Lembrguber (RL). A inscrição “C.V.R.L./R.C. Saudades D.G. 22” surgiu no dia seguinte à morte do dançarino. “R.C.” é uma referência ao bandido Robson Caveirinha, que já comandou o morro e fez fama na favela.

O “22” é uma referência a “maluco”, irreverente, extrovertido. Douglas havia deixado, em sua página no Facebook, uma homenagem ao traficante conhecido como Cachorrão, em janeiro. “PPG TA DE LUTO, E OS AMIGOS CHEIO DE ODIO NA VEIA, MAS TARDE O BICO VAI FAZER BARULHO…. #‎SAUDADES ETERNAS CACHORRAO !”

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O fato de ser famoso, nascido e criado em uma favela por muito tempo controlada por traficantes faz com que, inevitavelmente, DG e os bandidos fossem pelo menos conhecidos, e isso não é crime. Ter saudade de um bandido também não é crime. O problema é que, a partir da morte do dançarino, começou no Pavão-Pavãozinho um movimento que pede a saída dos policiais. Ou seja: há um grupo que prefere o morro controlado por bandidos.

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O tráfico percebeu que pode usar a indignação e a revolta a seu favor. Os bandidos, que matam sem piedade, estão agora preocupados com a morte de um inocente. Na manhã de quarta-feira, os presos do Instituto Penal Edgar Costa, em Niterói, fizeram, durante a oração, a “hora do luto” citando o “mano DG”.

Durante o enterro de Douglas, uma das homenagens ao dançarino foi feita com o funk Vivos Somos Traídos, cantado por MC Didô, que já foi preso por fazer apologia ao tráfico em suas canções em 2010 e, dois anos mais tarde, foi detido no Morro do Borel por policiais da UPP por posse de cocaína (respondeu como usuário). A letra é uma ode ao Comando Vermelho, e traz, em um trecho, o que seria o lamento de um detento: “Quem dera ser um marginal do céu”.

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