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Polícia Federal e Anvisa investigam suposta venda de CoronaVac no Rio

Produtor cultural afirmou que registrou a ‘vacina’ contra a Covid-19, que ainda não está disponível ou à venda, em foto que viralizou nas redes sociais

Por Marina Lang Atualizado em 23 dez 2020, 15h16 - Publicado em 22 dez 2020, 13h24

Era para ser um dia comum em Madureira, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, quando o produtor cultural Sérgio Oliveira, também conhecido como Jones MFjay, 58 anos, relatou que se deparou com uma gritaria ao cruzar a Passarela do Império na segunda-feira, 21.

“Galo! Galo!”, gritava um ambulante da região – galo é uma gíria que significa 50 reais. Ao se aproximar, Oliveira disse que registrou o motivo da balbúrdia em uma foto: uma caixa de uma suposta vacina contra a Covid-19 estava sendo vendida pelo camelô por esse valor.

A imagem da caixa, repleta de caracteres chineses, logo viralizou nas redes sociais. Ao explicar a transação da vacina falsificada, o ambulante ainda teria oferecido a aplicação por 10 reais em uma “farmácia ‘no coute’” – no coute é outra gíria, dessa vez para algo feito “no esquema”.

Além do relato do produtor cultural, a divulgação da série de mensagens em redes sociais sobre a suposta venda, relatada também por outros dois moradores da região, fez com que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Polícia Federal abrissem uma investigação para averiguar a situação na terça-feira, 22. Um relato sobre o caso também foi registrado pelo serviço Disque Denúncia, que recebe informações anônimas de cidadãos do Rio sobre possíveis atividades criminais.

Após a repercussão do caso, VEJA enviou uma série de perguntas à PF, que se manifestou por meio de uma nota divulgada no começo da tarde de quarta-feira, 23: “A Polícia Federal não divulga informações sobre diligências/investigações em andamento”.

Em nota divulgada na quarta-feira, 23, a Polícia Civil do Rio de Janeiro disse que fez diligências no bairro da Zona Norte, mas que não encontrou ambulantes vendendo a vacina.

As duas forças de segurança, no entanto, suspeitam que o relato seja uma comunicação falsa, ou fake news.

A vacina original ainda não foi disponibilizada, tampouco colocada à venda pelas autoridades. O governador paulista João Doria (PSDB) anunciou na segunda-feira, 21, que o estado de São Paulo terá 10,8 milhões de doses da CoronaVac até o dia 31 de dezembro. O próximo lote de entrega — com matéria-prima enviada da China ao Instituto Butantan pelo laboratório parceiro Sinovac Life Science — tem previsão de chegada na próxima quinta-feira, 24. Com ele será possível produzir 5,5 milhões de unidades do imunizante. Em São Paulo, o plano de vacinação deve começar apenas no dia 25 de janeiro.

Ontem, a fábrica da CoronaVac na China foi aprovada pela Anvisa, conforme VEJA mostrou.

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No último domingo, 20, O prefeito eleito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (DEM), divulgou um protocolo de entendimento com o governador de São Paulo em relação ao uso da CoronaVac. Paes informou ainda que apresentará um plano de combate à Covid-19 na cidade do Rio no próximo dia 28 de dezembro.

Sobre a venda da vacina falsa em Madureira, o produtor cultural que registrou a imagem disse que há outras regiões no Rio oferecendo o suposto remédio.

“É tão inacreditável que eu quase tenho certeza de que era brincadeira. Só no meu país Madureira esse tipo de coisa acontece”, diverte-se ele. “Depois que eu postei um amigo disse que lá em Bangu [bairro da Zona Oeste do Rio] também estão vendendo umas caixas estranhas”, declarou.

Ele se disse surpreso com a proporção que a imagem tomou nas redes sociais. “Aqui em Madureira se vende de tudo: salvação, terreno para o céu… Essa vacina é tão autêntica quanto a água mineral que vendem no sinal”, resumiu ele.

 

A Vigilância Sanitária do Rio de Janeiro se manifestou por meio de uma nota enviada na tarde de terça-feira, 22. “A Subsecretaria de Licenciamento, Fiscalização e Controle Urbano informa que descaminho, contrabando e venda de mercadorias sem nota fiscal são crimes que devem ser combatidos pelas forças policiais. O Instituto de Vigilância Sanitária reforça que, até este momento, não há vacina contra Covid-19 oficialmente liberada no Brasil. A Guarda Municipal não constatou a comercialização da falsa vacina no momento de seu patrulhamento de rotina em Madureira”, finalizou o texto.

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