Clique e assine com até 92% de desconto

O mistério continua: Adriano foi ou não executado pela polícia?

Novo laudo não esclarece as dúvidas sobre a morte do ex-PM que foi homenageado pela família Bolsonaro e era acusado de chefiar milícia

Por Daniel Pereira Atualizado em 26 abr 2020, 10h31 - Publicado em 25 abr 2020, 19h59

A perícia da Polícia Civil do Rio de Janeiro no corpo de Adriano Magalhães da Nóbrega não esclarece a principal dúvida sobre o caso: se o ex-capitão do Bope morreu em confronto com forças policiais, como diz a versão oficial, ou se foi executado, como alega a sua família. Assinado pelos peritos Gabriela Suares Pinto e Ricardo Barcellos, o laudo de 27 páginas registra que Adriano foi atingido por dois disparos de armas de fogo, um de carabina e outro de fuzil.

Um deles entrou pelo tórax à esquerda e percorreu trajeto de baixo para cima, provocando uma lesão também no pescoço. O outro foi dado de cima para baixo, entrou pela clavícula direita e saiu pelas costas. Dizem os peritos: “Importante ressaltar que as direções descritas nos trajetos de projetis de arma de fogo no interior de um corpo não constituem informação suficiente para compreender as posições da vítima e do atirador no momento do disparo, devendo sempre, obrigatoriamente, haver a devida correlação com o laudo da perícia criminal no local do fato, buscando assim, elucidar com precisão a dinâmica do evento”.

  • As posições da vítima e dos atiradores são justamente as chaves do mistério. Segundo a versão oficial, policiais militares da Bahia, com a ajuda da equipe de inteligência da Polícia Civil do Rio, cercaram Adriano num sítio no município de Esplanada, na Bahia. Foragido há mais de um ano, o ex-capitão do Bope teria se recusado a se render.

    Os policiais que participaram da ação contaram que três deles invadiram a sede do sítio — um na frente com um escudo, e dois atrás com armas de fogo — e foram recebidos a bala por Adriano, que teria morrido no confronto. O fato de um dos disparos ter sido dado de cima para baixo inviabiliza a versão de que o confronto ocorreu frente a frente. “As lesões discutidas no laudo não são de pessoa que está de frente para os atirados”, afirma um dos peritos mais experientes do país, que pediu para não ser identificado.

    Para esse perito, as informações preliminares apontam para uma execução. O trajeto do que ele considera o segundo disparo, de cima para baixo, seria um indício disso. “O segundo disparo foi dado com ele caindo ou já caído. É o tiro de misericórdia.” Esse perito consultado por VEJA ainda lembrou que, segundo o laudo oficial da Polícia Civil do Rio, uma ferida encontrada na cabeça de Adriano ocorreu quando ele ainda estava vivo, num sinal claro de que o ex-capitão do Bope sofreu houve algum tipo de agressão quando estava rendido.

    NO PEITO – A queimadura pode ter sido provocada pelo cano de uma arma longa e de grosso calibre ./.

    Há três escoriações perto da ferida. Para a família, essa ferida foi produzida por uma coronhada, o que indicaria a realização de tortura. O corpo de Adriano também tinha uma queimadura no tórax. O Ministério Público da Bahia, que investiga o caso, perguntou aos peritos da Polícia Civil do Rio se essa queimadura foi produzida pelo contato do cano aquecido da arma de fogo na pele de Adriano. Os peritos disseram que a resposta estava “prejudicada” porque “desconhecem a dinâmica do evento”.

    A análise sobre a possibilidade de tortura em Adriano enfrentou uma série de obstáculos. Um deles foi o fato de as suas vísceras, que poderiam revelar lesões internas, terem sido retiradas de seu corpo antes da perícia. Outro, o estado de decomposição decorrente do tempo transcorrido entre a morte e o novo exame. “O estado de decomposição cadavérica, ainda que parcial, e a aplicação de técnicas de conservação cadavérica, em especial a retirada das vísceras, não permitem determinar as lesões que levaram ao êxito letal”, registram os peritos no laudo. “Entretanto, em decorrência das características das lesões cutâneas e ósseas observadas (…), é possível descrever trajetos em topografia de órgãos vitais, tais como coração e pulmões. Dentro desse cenário observado, as lesões têm alta letalidade e não se opõem os peritos que a causa da morte tenha se dado por lesões em tais órgãos, com consequente hemorragia e choque”.

    Continua após a publicidade

    Por decisão da Justiça, dois peritos contratados pela família de Adriano participarão da fase final dos trabalhos. Um cuidará de uma “análise retrospectiva das circunstâncias da morte” — dará sua versão sobre o que  aconteceu, com base nos exames realizados. O outro fará um exame no local da morte, que será decisivo para que se conheça a distância entre os policiais e Adriano na hora dos tiros, o tipo de arma utilizada, a quantidade de disparos efetuados etc. Segundo a versão oficial da polícia, Adriano reagiu com disparos de pistola. Foram até apresentadas marcas no escudo que teria sido usado por um policial durante o confronto. Esse é outro ponto controverso. Uma pistola, depois de acionada, descarrega sem parar. Quando VEJA visitou o sítio, havia apenas três marcas de tiros nas paredes. “Terá de ser encontrado no local a quantidade de cápsulas que tinha na pistola. Caso contrário, será colocada em xeque a versão oficial”, diz o perito consultado por VEJA.

    Homenageado por Jair Bolsonaro na década passada, antes de ser expulso da polícia, Adriano Magalhães da Nóbrega era considerado uma testemunha importante sobre a relação entre milícias e autoridades públicas e também sobre o caso da rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Por isso, quando foi morto, a suspeita de que foi vítima de queima de arquivo ganhou as redes sociais e os discursos públicos. Há ainda muito a ser investigado.  

    Amizade com Queiroz

    O ex-capitão do Bope Adriano Magalhães da Nóbrega era amigo do policial aposentado Fabrício Queiroz, protagonista da investigação sobre o esquema de rachadinha no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, o filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro. Adriano e Queiroz trabalharam juntos no 18º Batalhão da Polícia Militar, na zona oeste do Rio de Janeiro, e participaram juntos de rondas que resultaram em mortes suspeitas, conforme matéria publicada por VEJA em junho de 2019.

    A parceria se estendeu à política. Em março de 2007, Queiroz foi contratado para trabalhar no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Seis meses depois, a ex-mulher de Adriano, Danielle Mendonça da Nóbrega, ganhou um emprego no mesmo gabinete, onde permaneceu durante onze anos. Nesse período, ela embolsou 776 343 reais em salários e transferiu 34 625 reais para Queiroz.

    O próprio Flávio Bolsonaro admitiu publicamente que Queiroz tinha carta-branca para contratar e demitir em seu nome. A ex-mulher de Adriano só foi demitida em novembro de 2018, após Bolsonaro ter sido eleito presidente. Na época, a primeira-família da República já sabia da existência de um relatório do órgão de inteligência financeira do governo, o antigo Coaf, sobre as movimentações financeiras milionárias de Queiroz — inclusive dos depósitos de 24 000 reais que ele fizera na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

  • Quando foi demitida do gabinete de Flávio, a ex-mulher de Adriano enviou uma mensagem de texto o ex-capitão do Bope: “O amigo disse que fui exonerada”, escreveu, referindo-se a Queiroz. Danielle contou que estava sem dinheiro e com boletos para pagar. Adriano respondeu, em mensagem de texto: “Contava com o que vinha do seu tmbm (sic)”.

    Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, também trabalhou no gabinete de Flávio. De 2016 a 2018, recebeu 252 699 reais da Alerj e sacou, em espécie, 186 538 reais — ou seja, 94,67% de toda a sua remuneração no período. Ao todo, Daniella e Raimunda receberam juntas 1 milhão de reais. De acordo com dados levantados pelo Ministério Público do Rio, Adriano transferiu cerca de 10% desse valor, 115 680 reais, para o seu amigo Queiroz.

    Em linha com a estratégia de blindagem contra a investigação, Adriano orientou a sua ex-mulher a não prestar depoimentos ao Ministério Público. “O amigo pediu pra vc não ir em lugar nenhum e tbm não assinar nada”, disse o ex-capitão do Bope, referindo-se a Queiroz. Daniella respondeu que tinha acabado de sair do “advogado indicado” e mandou a foto de um ofício do MP que ela assinara. “Vou passar pra ele”, informou Adriano. Poucos dias depois, o ex-capitão do Bope foi alvo de um pedido de prisão no âmbito da Operação Intocáveis, conduzida pelo MP do Rio. Acusado de fazer parte de um esquema de grilagem e extorsão, sumiu do mapa, até ser morto em fevereiro.

    Continua após a publicidade
    Publicidade