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Berg Nordestino: Será que ele é?

Candidato a vereador no Rio que o PSOL expulsou nega ter envolvimento com o crime. Apesar de banido do partido, ele mantém o apoio a Marcelo Freixo

Por Cecília Ritto - 6 set 2012, 19h56

“Agora, corro risco pela milícia e pelo bandido. Se sou informante da milícia, como diz a mídia, estou favorecendo miliciano e prejudicando bandido. Se eu for à comunidade do bandido, ele vai dizer: ‘Vamos pegar esse ‘paraíba’ aí porque ele está querendo informação para a milícia’. Se eu for a um local de milícia, vão achar que sou olheiro do tráfico”

Pivô das acusações sobre a ligação de milicianos com candidatos a prefeito do Rio, Rosenberg Alves do Nascimento, o Berg Nordestino, nega ter envolvimento com o crime. Na tarde desta quinta-feira, o candidato afirmou ao site de VEJA que está decepcionado. “Não tenho ligação nenhuma com milicianos. Sou um homem honesto, trabalhador, presidente e fundador da Associação dos Nordestinos do Brasil”, disse. Independentemente do que se prove ou não contra ele, já foi punido. O PSOL informa ter expulsado o candidato, que é citado no relatório final da CPI das Milícias, presidida pelo deputado estadual Marcelo Freixo, candidato a prefeito pelo partido.

O PSOL pediu formalmente, na noite de quarta-feira, uma investigação sobre Berg à secretaria de Segurança. O motivo foram denúncias que chegaram a Freixo, há uma semana, sobre a relação próxima que Berg teria com um miliciano que ameaçou o deputado – o ex-vereador do PR Luís André Ferreira da Silva, o Deco, que responde por homicídio.

Antes do pedido, o PSOL já levantava, informalmente, informações sobre o passado e o presente de Berg. O resultado da pesquisa e da investigação será, necessariamente, um constrangimento. Caso Berg seja a partir de agora responsabilizado por algum crime, o PSOL terá errado, por ter aceitado alguém com ligação a práticas que o partido abomina. Importante: ser citado é diferente de ser indiciado, como lembrou Freixo no debate da RedeTV. A atuação decisiva contra as milícias impulsionou a carreira política de Freixo, rendendo a ele, inclusive, um personagem no campeão de bilheteria ‘Tropa de Elite 2’. O deputado Fraga, do filme, é inspirado em Freixo.

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O mais grave para o partido será o contrário. Caso nada se prove contra Berg, ele passa à condição de vítima. Freixo e o PSOL, nesse caso, ficam encalacrados. Primeiro por terem citado como suspeito de crime, no relatório de 2009, um inocente. Depois, por terem expulsado desnecessariamente um candidato legítimo – com afirmações contundentes contra ele na TV. Acuado por Paes, Freixo disse suspeitar que Berg pudesse ser um “infiltrado” da milícia.

Nesta quinta-feira, ao sair do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) para saber sobre a situação de sua candidatura, Berg recebeu a reportagem do site de VEJA, sentado em uma praça no centro do Rio. Sentia-se sufocado pelas acusações. Berg é cearense, tem 43 anos. Está no Rio há 25 trabalhando, segundo ele, como pedreiro. Frequentou a escola até o ensino fundamental, o que explica o atropelo do português na conversa.

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Deco em depoimento na CPI das Milícias, no ano de 2009
Deco em depoimento na CPI das Milícias, no ano de 2009 VEJA

Apesar de sua situação e da decisão do partido de expulsá-lo, ele mantém o apoio ao deputado e ao PSOL. “As colocações do candidato a prefeito do PSOL me fazem crer que ele seja o melhor para o Rio. Eu e mais oito voluntários que trabalham comigo distribuímos muito material do candidato (Freixo) na zona oeste e várias vezes fomos hostilizados. Falavam para nós: ‘Vocês não tem medo de morrer”, conta Berg, que disse não se assustar com essas ameaças.

O cearense de Ipu concorre pela primeira vez a um cargo no legislativo. O incentivo a entrar na vida pública foi a defesa dos nordestinos. A escolha pelo PSOL, mesmo tendo sido citado no relatório da CPI elaborado pelo principal político do partido no Rio, foi uma escolha do que chama de “movimento nordestino”. “Queriam que eu saísse candidato a vereador pelo PSOL porque foi fundado pela Heloísa Helena, uma guerreira nordestina”, explicou.

Para Berg, o seu nome foi parar no relatório por ele morar perto de uma favela de milícia, chamada Chacrinha, em Jacarepaguá, na zona oeste. Integrantes do Grupo de Atuação Especializado no Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco) chegaram a ir à casa de Berg e de parentes dele na época da CPI das Milícias para investigá-lo. De acordo com ele, nada provaram. “Situações passadas por denuncias anônimas, vagas”, afirmou sobre os nomes citados no relatório de Freixo. No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o registro de candidatura de Berg foi deferido e não consta nenhuma certidão criminal contra o candidato. “Já vi subi, já vi descer. O nome foi falado na rua muitas vezes. Mas não tenho convívio com essas pessoas”, disse, sobre os milicianos que atuam na área onde mora.

Ele nega a hipótese levantada pelo PSOL de que é um infiltrado da milícia. “Quem anda infiltrado para fazer o mal não faz o que eu fiz. Eu fui o candidato que mais peguei material para distribuir em área de risco. Que infiltrado é esse que em vez de querer o mal para o candidato está fazendo a divulgação para ele ser prefeito da cidade?”, rebateu Berg. Ele também descartou qualquer relação com outro político, em especial do PMDB, partido de Eduardo Paes. “Nunca tive e nem tenho nada com nenhum político do PMDB, nem de vereador nem senador. Nunca procurei essas pessoas”.

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“Não tenho relação com nenhum político do Rio. Nem com os do meu partido. A única pessoa que conversei em caminhada, na abertura da campanha, foi com o senador Rodolfo Rodrigo (Randolfe Rodrigues), por ser nordestino também”, disse. Berg participou apenas de duas agendas ao lado de Freixo, para quem ele pediu que gravasse um vídeo de campanha. Freixo não aceitou, por suspeitar do envolvimento de Berg com a milícia. “Falei com Freixo: ‘Meu prefeito, gostaria que vossa excelência gravasse uma pequena mensagem ao povo nordestino que te adora’. Pedi isso no Chapéu Mangueira, há uma semana. A partir dessa data, percebi que havia algo diferente. E fiquei fazendo a pergunta a mim mesmo: ‘O que está acontecendo?'”.

Homenagem de miliciano – O que liga Berg ao miliciano Deco é uma homenagem em 2010 feita pela Associação dos Nordestinos do Brasil. “Por que só o nome do cidadão (Deco) aparece? Por que só falam da comenda dada a ele. Foram 24 pessoas homenageadas no mesmo dia”, conta Berg, citando nomes como o da deputada estadual Lilian Sá, do PR, também homenageada. Na ocasião, como lembra, Deco era um político que “não respondia a inquérito, lisura total quanto a sua conduta” – na verdade, Deco já havia sido indiciado por homicídio em 2009. O miliciano tornou-se merecedor da comenda por ter, como vereador, ajudado a pagar o enterro de um integrante de uma família nordestina que passava por dificuldades.

Segundo Berg, a associação teve dois projetos patrocinados pela Casa da Moeda do Brasil. “Recentemente, recebemos o título de utilidade pública como Oscip, instituição de interesse público social dado pelo Ministério da Justiça. Será que um miliciano iria sair do Rio de Janeiro para ir a uma reunião no Ministério da Justiça? Fui a Brasília 25 vezes para falar da ONG”, afirmou.

“Ontem, me senti reduzido ao pó. Há uma expectativa grande do povo nordestino em relação a minha pessoa. Quando vi aquela reportagem não acreditei no que estava ouvindo. Acabaram comigo. Estou muito triste e desapontado”, disse Berg. Com a voz embargada, afirmou que a partir de agora não poderá circular pelo Rio. “Agora, corro risco pela milícia e pelo bandido. Se sou informante da milícia, como diz a mídia, estou favorecendo miliciano e prejudicando bandido. Se eu for à comunidade do bandido, ele vai dizer: ‘Vamos pegar esse ‘paraíba’ aí porque ele está querendo informação para a milícia’. Se eu for a um local de milícia, vão achar que sou olheiro do tráfico. Acabaram com a minha vida”, disse, chorando.

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Até o momento, Berg arrecadou 5.300 reais para a campanha. Segundo ele, fez cheques pré-datados para investir na parte gráfica. Ele espera ser notificado pelo partido para, talvez, entrar na Justiça. “Mediante o acontecimento, nunca mais nos meus anos de vida quero disputar um pleito eleitoral pela decepção que estou passando”, afirmou.

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