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Thomas Traumann Jornalista e consultor de comunicação, é autor de "O Pior Emprego do Mundo", sobre o trabalho dos ministros da Fazenda. Escreve sobre política e economia

O amor dos Faria Limers só é eterno enquanto lucra

Risco fiscal e desastre ambiental fazem investidores tirarem dinheiro do Brasil

Por Thomas Traumann - Atualizado em 29 set 2020, 12h05 - Publicado em 23 set 2020, 17h11

Um dos eixos de sustentação do governo Bolsonaro é a boa vontade da Faria Lima, a avenida de São Paulo onde estão alguns dos principais bancos e corretoras do continente. Desde que Paulo Guedes se apresentou com o fiador de Jair Bolsonaro no início de 2018, os “Faria Limers” se encantaram com o discurso de que bastaria uma prensa no Congresso para aprovar reformas e privatizações paradas há anos. Nem o fato dessas promessas não terem sido cumpridas, nem as ameaças de intervenção militar no STF ou os 150 mil mortos na pandemia de Covid-19 alteraram essa relação de cumplicidade entre o mercado e a dupla Bolsonaro-Guedes. Mas os ventos estão mudando, e rápido.

A tempestade está se formando lá fora. Entre janeiro e agosto, US$ 15,2 bilhões deixaram o país, o maior volume para o período desde que o Banco Central começou a compilar as estatísticas, em 1982. Os investidores estrangeiros retiraram R$ 87,3 bilhões da bolsa brasileira de janeiro a 17 de setembro de 2020, como relatou o jornal O Globo. Isso é quase o dobro do registrado em todo o ano passado, quando saíram R$ 44,5 bilhões.

No primeiro semestre, assustados com a pandemia, os investidores estrangeiros já haviam iniciado a abandonar o Brasil com mais pressa do que a outros países emergentes. Nos primeiros seis meses de 2020, os investimentos estrangeiros diretos somaram US$ 22,8 bilhões, 27% a menos que no mesmo período de 2019. Isso no período que o ministro Paulo Guedes dizia que o Brasil estava “decolando” e que havia “trilhões” de investimentos prontos para aportar no país.

Os fatores que explicam os ventos contrários são todos da alçada do presidente Jair Bolsonaro. O primeiro é o risco fiscal. O populismo de Bolsonaro indica que o teto de gastos será explodido em 2021 ou no máximo em 2022 não por uma imposição orçamentária, mas para ajudar o presidente na campanha da reeleição.

O reflexo direto da possibilidade de perda da âncora fiscal pode ser visto nos prêmio cobrados pelo mercado para comprar títulos públicos. Levantamento da Renascença mostrou que a diferença das Letras do Tesouro Nacional para janeiro de 2024 em relação ao DI de mesma maturação aumentou de 0,015 ponto percentual (1,5 ponto-base) em junho de 2019 para 0,245 ponto (24,5 pontos-base). É a maior diferença desde outubro de 2011. Dias atrás, a Secretaria do Tesouro ofertou no mercado 20 milhões de papéis com vencimento em janeiro de 2024, mas não conseguiu vender porque o mercado só comprava título brasileiro a um prêmio maior.

“A dívida com menos de um ano de vencimento quase dobrou desde julho do ano passado, chegando perto de R$ 1 trilhão. A expectativa de inflação implícita nos títulos da dívida pública começa a aumentar sensivelmente, passando de 4% ao ano a partir de 2022”, escreveu o economista Marcos Lisboa no BrazilJournal.

A política do governo Bolsonaro de incentivar o desmatamento da Amazônia e as queimadas no Pantanal pode ser a prioridade número 9.832 dos Faria Limers, mas afeta diretamente a imagem das empresas e do mercado acionário do Brasil. Investir em um país com um ministro de meio ambiente que confraterniza com garimpeiros ilegais gera um risco de reputação para as empresas estrangeiras que não existe em outros lugares.

O temor das empresas em colocar dinheiro em projetos no Brasil fitou tão grande que os três maiores bancos privados estão revendo seus empréstimos para assegurar que não ofereceram crédito a desmatadores e grandes frigoríficos e supermercados divulgaram compromissos públicos de que seus fornecedores não agridem o meio ambientes.

“Em um exemplo hipotético, o estrangeiro pode ficar receoso de investir em uma fábrica de alimentos no Brasil e, dali a certo tempo, algum produto agrícola brasileiro ser proibido no mercado internacional por causa de práticas contra a preservação ambiental”, disse Daniela da Costa-Bulthuis, gestora para o Brasil da holandesa Robeco Asset.

O Brasil vai se tornando, ao mesmo tempo, um pária ambiental, politicamente instável e fiscalmente arriscado. “Cobra-se ora mais caro do governo porque Bolsonaro não inspira confiança aos donos do dinheiro. Logo, alguém poderia dizer que a culpa não é de Guedes, mas do seu chefe, o que não melhoraria muito a situação do ministro. No entanto, o próprio Guedes é ator coadjuvante dessa desordem —“desordem” na opinião de “o mercado”, dos colegas dele. Nem está se discutindo se os motivos de “o mercado” são bons ou não. O fato é que a situação azedou”, escreveu Vinicius Torres Freire, na Folha.

O amor dos Faria Limers a Bolsonaro é eterno enquanto houver lucros. O cenário é turbulento:

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· Taxas de juros de médio e longo prazo subindo em níveis recordes

· Real entre as moedas mais desvalorizadas no ano

· Prioridade presidencial pela popularidade a qualquer custo

· Ameaça de desancoragem fiscal, com o fim do Teto de Gastos

· Enfraquecimento do ministro da Economia em favor de ministros gastadores

· Contaminação da imagem das empresas e bolsa brasileira com a política ambiental desastrosa

· Congresso votando criação de novos tribunais e reajustes para policiais

· STF limando as vendas das refinarias da Petrobras

· Falta de foco nas reformas, com os políticos mais preocupados com as eleições municipais e dos presidentes da Câmara e do Senado

· Pandemia de Covid-19 estacionada em índices de mais de 800 mortos por dia

O tempo passou na janela. E só Carolina, e o ministro Paulo Guedes, não viram.

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