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Documentário mostra drama da Covid-19 em navio que viu pandemia explodir

Feito com depoimentos gravados em celular por passageiros, 'O Último Cruzeiro' capta momento de janeiro de 2020 em que mundo mergulhou no pesadelo

Por Marcelo Marthe Atualizado em 5 abr 2021, 10h57 - Publicado em 5 abr 2021, 10h46

No dia 20 de janeiro de 2020, o portentoso navio Diamond Princess zarpou do porto japonês de Yokohama para um cruzeiro pelos mares do Sudeste Asiático. O passeio, com 3 711 pessoas a bordo, tinha tudo para ser uma festa. Como de praxe, os passageiros fartavam-se com drinques e refeições, divertiam-se em bailes cafonas e gastavam adrenalina em sessões coletivas de ginástica e dança. Um enorme contingente de tripulantes – havia exatos 1 045 funcionários no navio – trabalhava freneticamente para que a animação corresse solta. Todos se encantaram quando o Diamond Princess fez uma parada na deslumbrante baía de Hong Kong. Muitos desembarcaram para conhecer de perto a ex-colônia britânica que hoje pertence à China, outros se juntaram à viagem a partir daquele ponto. Enquanto sorviam as mil curtições possíveis, os passageiros nem davam atenção às notícias sobre uma nova e misteriosa doença que, àquela altura, assolava apenas a província chinesa de Wuhan. Mas eles logo descobririam – da pior maneira possível – o que era o tal coronavírus.

O documentário O Último Cruzeiro, que acaba de estrear na HBO Go, capta o exato momento da perda de inocência global. Os passageiros do Diamond Princess passaram da normalidade ao pesadelo da Covid-19 sem tempo nem para entender o que estava acontecendo, e sua sina resume o que estava ocorrendo no mundo. Ou melhor: o que viria a ocorrer logo adiante. O navio foi cenário do primeiro surto da Covid-19 fora da China. Em poucos dias, o vírus contaminou 712 pessoas dentro daquela bolha turística. Catorze morreram. A doença veio de um passageiro de Hong Kong, que dias antes tinha visitado a província chinesa de Guangdong.

O modo como O Último Cruzeiro foi produzido é espantoso. A cineasta Hannah Olson estava em sua casa em Nova York, semanas antes de a própria cidade americana ser atingida com fúria pelo coronavírus, e teve um estalo ao ver pela TV o drama daquelas pessoas obrigadas a permanecer confinadas num navio infestado por um agente biológico mortífero. Decidida a contar seu drama, ela percebeu que muitos dos passageiros não só continuavam postando textos e vídeos nas redes sociais enquanto estavam trancafiados no navio, como fizeram de seus perfis uma válvula de escape para as aflições diárias. A diretora contatou várias dessas pessoas, e passou a dirigi-las à distância. Com isso, obteve imagens íntimas dos personagens no olho do furacão.

  • Muitos deles ainda nem sabiam o tamanho da provação que os aguardava. Ao se confirmar o primeiro caso, a atmosfera alegre e aconchegante do Diamond Princess deu lugar ao pânico e à confusão. As pessoas foram mantidas trancadas em suas cabines, e eram monitoradas por agentes sanitários japoneses vestindo roupas de proteção contra o vírus. Casais tinham de se separar quando um dos dois ficava positivo, e era imediatamente removido para o hospital. Uma complexa operação de resgate para levar para casa os cerca de 400 turistas americanos presentes foi montada – e terminou num voo caótico em que as pessoas sem o vírus tinham de conviver com doentes separados apenas por uma divisória plástica. A pior situação, no entanto, era a dos tripulantes. Dormindo apertados em cabines coletivas, eles se tornaram presas fáceis do coronavírus. Boa parte era de origem indonésia, e só foi autorizada a deixar o navio quando o drama já adentrava o mês de março e o governo do país finalmente foi resgatá-los.

    A tragédia do Diamond Princess trouxe ao menos uma lição valiosa: ela abriu os olhos das autoridades de saúde para o que não se deve fazer na luta contra a Covid-19. A alta contaminação dentro do microcosmo do navio mostrou que o coronavírus se espalha pelo ar em aglomerações, e é multiplicada pela presença de pessoas assintomáticas que propagam o vírus de forma silenciosa. Assim, provou que o uso de máscaras, até então não recomendado pelos médicos americanos, era uma arma fundamental para controlar a propagação da doença. Em certo momento do documentário, uma senhora que manteve seu alto astral mesmo após pegar Covid, comenta: “Me perguntam se um dia voltarei a fazer cruzeiros. Claro que sim. Em maio já farei o próximo.” Ela sobreviveu, mas é claro que não fez nenhum outro cruzeiro em maio do conturbado 2020, ou qualquer outro mês desde então. Com ajuda da vacina, o mundo torce para que esse desejo possa se realizar em breve.

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