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Os bastidores da tentativa frustrada de salvar a casa de shows Unimed Hall

Empresa T4F, dona do tradicional espaço paulistano, tentou na Justiça reduzir o valor do aluguel do terreno em razão da pandemia - sem sucesso

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 1 abr 2021, 18h00 - Publicado em 1 abr 2021, 17h57

Bem antes de anunciar o encerramento das atividades do Unimed Hall, nesta quarta-feira, 31, a empresa T4F já vinha enfrentando um drama judicial com relação ao valor do aluguel pago aos proprietários do terreno onde a casa de shows funcionava. A reportagem de VEJA teve acesso a um processo, aberto em 2020, em que a T4F tentava na justiça uma redução de 90% do pagamento do valor do aluguel, usando como justificativa o impacto da Covid-19 – demanda que foi negada. Só de aluguel do terreno, a T4F pagava desde 2010 cerca de 190 000 reais mensais. Sem conseguir bancar as despesas, o CEO da T4F, Fernando Alterio, publicou um comunicado nos jornais anunciando que estava encerramento as atividades. “Fecham-se as cortinas de mais um palco no Brasil (…) No setor cultural o impacto é sem precedentes”, lamentou.

A crise de 2021 contrasta com a abundância que a casa de shows vivia antes da pandemia. Em 2019, quando o espaço completou 20 anos de inauguração, a T4F fechou um contrato para mudar o nome da casa. Com validade de cinco anos, o até então Credicard Hall passou a se chamar Unimed Hall, numa negociação estimada, segundo reportagem da Veja SP na época, em 25 milhões reais. Esse contrato milionário também foi rompido com o fechamento da casa. Procurada pela reportagem de VEJA, a Unimed comentou o ocorrido: “A Central Nacional Unimed lamenta o rompimento do contrato de naming rights pela Time For Fun – T4F -, o que, desde outubro de 2019, permitiu o uso da marca Unimed naquela casa de espetáculos, que passou a se chamar, então, Unimed Hall”. A empresa, no entanto, não quis comentar como se deu a negociação entre as partes.

Desde sua inauguração, em 1999, a casa se impôs como um dos mais importantes espaços de show de São Paulo, e também do Brasil, com capacidade para 7 000 pessoas. Nos últimos 23 anos, mais de 12 milhões de pessoas assistiram a mais de 3 500 apresentações em seu palco. Uma das mais memoráveis foi a de Caetano Veloso e João Gilberto, que inauguraram a casa. Na época, João, famoso por seu perfeccionismo, reclamou de tudo: ar-condicionado, eco, barulho da plateia. Chegou a mostrar a língua para o público, antes de deixar o palco. O fato só aumentou a fama do lugar. O fechamento da casa, portanto, escancara a imensa crise que o setor de shows e eventos está enfrentando na crise econômica e na pandemia. Alterio revelou ainda que o festival Lollapalooza, adiado no ano passado e remarcado para setembro deste ano, não vai acontecer novamente. Provavelmente, a empresa não fará nenhum espetáculo em 2021.

A VEJA, Fernando Alterio disse que o proprietário do terreno deverá criar um novo projeto de desenvolvimento imobiliário. “A T4F alugou, em 1998, um terreno rampado onde fizemos a construção da casa e o paisagismo, com recursos próprios. Há 22 anos operamos a casa de espetáculos. Agora devolvemos o imóvel ao proprietário. Tudo indica que, provavelmente, vai criar um projeto de desenvolvimento imobiliário.”

O terreno onde o Unimed Hall foi construído pertence à empresa Horácio Sabino Coimbra – Comércio e Participações Ltda e foi cedido à T4F em regime de outorga onerosa, ou seja, que permitia a construção de edificações no lugar. Na época, as duas partes fizeram um contrato de 12 anos, que venceu em 2010. Renovado por mais 12 anos, ele se estenderia até 2022, mas foi rompido pouco antes do fim. Em 2013, circularam notícias de que a Cyrela havia comprado parte do terreno que abriga a casa de shows. A ideia era construir um empreendimento imobiliário no entorno. Procurada pela reportagem de VEJA, a construtora se limitou a negar que seja proprietária de qualquer terreno no lugar.

 

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