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Raphael Montes

O lugar do encontro

Apesar da imensa crise, as livrarias felizmente vão sobreviver

Por Raphael Montes - Atualizado em 10 jul 2020, 12h21 - Publicado em 10 jul 2020, 06h00

Na última semana, participei de uma live com Rui Campos, da rede de livrarias Travessa, e Ivana Jinkings, da editora Boitempo. Conversamos sobre o futuro do livro e do mercado literário, um dos que mais sofreram ultimamente, mesmo antes da pandemia, principalmente com o fechamento de diversas livrarias e com a recuperação judicial das redes Saraiva e Cultura.

Apesar de tudo, o livro sobrevive. Após uma queda brusca e um prenúncio de crise histórica, o mercado mostrou recente recuperação, ainda longe de ser ideal. Nos meses de maio e junho, um levantamento do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) confirmou uma rota de recuperação desde o início da pandemia, conforme noticiado no site PublishNews. Segundo o presidente do Snel, os próximos meses serão essenciais, com a reabertura das lojas físicas e a volta dos lançamentos, que movimentam o mercado e atraem o público.

Afinal, a pandemia exigiu replanejamento das editoras. Muitos lançamentos foram adiados, especialmente de autores estreantes. Apenas alguns nomes fortes seguiram no calendário — por exemplo, Fé no Inferno, de Santiago Nazarian, foi publicado recentemente pela Companhia das Letras já que o autor possui público cativo. Para ultrapassar a crise, Nazarian tem pessoalmente vendido exemplares autografados pelas redes sociais.

“A experiência de ler um livro físico é bem diferente daquela de ler um livro digital, com tela branca. Os dois coexistem”

A maioria das editoras garantiu vendas através do relançamento de clássicos, da criação de boxes e dos e-books. Sem dúvida, os livros digitais ganharam força nos últimos tempos. Quando eles chegaram ao mercado, muitos disseram que o livro físico seria coisa do passado, para colecionador, em comparação esdrúxula com o vinil. É claro que isso não aconteceu, nem vai acontecer: a experiência de ler um exemplar físico, com capa, textura e cheiro de papel, é bem diferente daquela de ler um digital, com a tela branca. Os dois coexistem — eu mesmo leio livros de estudo no e-reader, mas corro para o físico quando quero me distrair com uma boa ficção.

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O e-commerce cresceu no período, já que as lojas estavam fechadas por causa da quarentena. Ainda que a Amazon seja a mais forte nas vendas on-line, Rui Campos fez questão de destacar que não só a Travessa como a maioria das livrarias pequenas fazem vendas on-line com entregas em todo o Brasil. Mais ainda: nas cidades onde não há livrarias, a venda da Amazon cai. São as livrarias, com suas gôndolas expondo as novidades, que criam a demanda. É o diálogo com um bom livreiro que leva a conhecer um autor novo. Se você não vai à loja, nada disso acontece. Segundo Rui, a livraria é o lugar do encontro.

Foi essa frase que motivou este texto. Eu me assusto ao pensar nas dificuldades que as livrarias ainda vão enfrentar. Para ajudar, o projeto Retomada das Livrarias (www.projetoretomada.org.br) tem arrecadado fundos para os pequenos negócios do ramo, tão importantes para nós. São tantos encontros que as livrarias já me proporcionaram: com leitores, com amigos livreiros com quem troco referências, com autores que mudaram minha visão de mundo, com apaixonados por livros que se tornaram bons amigos. Vou fazer minha parte para que as livrarias voltem com a força de gerar mais e mais encontros.

Publicado em VEJA de 15 de julho de 2020, edição nº 2695

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