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Notre-Dame: entre dramas, atriz no lugar de Nossa Senhora

A igreja prodigiosa resistiu a tudo, até profanas celebrações à Razão e à Liberdade durante a Revolução Francesa, cujos inspiradores acabaram na guilhotina

Durante treze anos, tentaram fazer com que Notre-Dame não fosse Notre-Dame. Transformada em palco de apresentações militares e encenações teatrais, roubada, depredada, com estátuas decapitadas, transformada em abandonado depósito de vinho, Notre-Dame resistiu.

A montanha plantada no coração de Paris, a pedra  liquefeita na sublime beleza dos vitrais, os olhos elevados a Deus pela elegância das volutas, a matéria e o espírito, os mistérios “embutidos” por construtores anônimos, um lugar de penitência e  glória.

E tão avassaladoramente poderoso que até os reis prefeririam ser sagrados em Reims e enterrados em Saint-Denis – esta hoje em cerco constante de imigrantes que não a entendem nem respeitam, com vitrais e órgão depredado, quando não fezes espalhadas em seu interior.

No período revolucionário, a única visita real foi a de Luis XVI e Maria Antonieta em 10 de fevereiro de 1790. Assistiram uma missa simples na capela, ouviram o Dominum salvum cantado pelo coro dos meninos.

Na Terra, nada os salvaria. Três anos depois, reduzido a cidadão Luís Capeto, o rei  subia o cadafalso da guilhotina sob o som dos tambores rufantes impedindo que suas palavras fossem ouvidas (“Morro inocente de todos os crimes  de que fui acusado, perdoo os que ocasionaram minha morte, e rezo a Deus para o que o sangue que vão derramar nunca caia sobre a França”.) Nove meses depois, foi ela.

Ao contrário dos reis, um francês que chegou ao mundo como um ato divino (e passou sete anos em abstinência ao se casar) e uma branquíssima austríaca filha de imperadores enviada na adolescência como oferenda política, o arcebispo de Paris, Antoine de Juigné, entendia os acontecimentos políticos tectônicos.

Tentou contemporizar. Participava dos Estados Gerais, rezou um Veni Creator em 1789 em homenagem à abertura dos Estados Gerais, ofereceu o fabuloso lampadário de prata de Notre-Dame ao esforço patriótico. Acabou fugindo, com autorização do rei, e foi substituído por um “arcebispo constitucional”.

Cabia agora ao novo clero patriótico tentar salvar não só a mítica catedral como a própria religião, desprezada e odiada pelos anticlericais mais extremos e o impulso revolucionário da descristianização. Revolução e Igreja não podiam conviver no mesmo espaço.

Notre-Dame tinha se constituído no “motor de todo o movimento social, político, religioso da Revolução. Mais ainda que em outras épocas de nossa longa história, Notre-Dame reflete de maneira particularmente sugestiva as vicissitudes de nossa história nacional”.

Assim resumiu o religioso e historiador Jean Leflon a centralidade da catedral medieval, palco em 1792 de duas festas profanas, a da Liberdade e a da Razão.

Com cenários e artistas fornecidos pela Opéra, foi erguida na nave de Notre-Dame uma montanha cênica e, sobre ela, um templo com a inscrição “Filosofia”.

Uma bela artista (“Obra prima da natureza”) encarnava a Liberdade, vestida de branco, com manto azul e gorro vermelho que virou símbolo da Revolução.

Dali foram convidar, em procissão profana, os integrantes da Assembleia Nacional. Um capuchinho convertido à causa propôs que a igreja passasse a se chamar Templo da Razão, proposta aprovada por aclamação.

Notre-Dame deixou de ser um lugar de culto, como as outras igrejas, e virou cenário de saques, depredação, paródias com os paramentos religiosos. Tudo para fúria de Robespierre, já em pleno Terror.

Dedicado a brigar com a direita, a esquerda e o centro, num furor que só um revolucionário do seu calibre poderia peitar, ele achava que a descristianização servia para a propaganda dos inimigos monarquistas reunidos na frente liderada pela Áustria.

 Mandou decapitar todo mundo, inclusive o ardorosamente anticlerical Pierre-Gaspard Chaumette, da facção dos “exagerados”  – poderia existir nome melhor? –, por “tentar enfraquecer toda espécie de mora, apagar toda ideia de divindade e ancorar o governo francês sobre o ateísmo”.

Na rodada foi também “bispo constitucional” Jean-Baptiste Gobel. Num gesto radical, Gobel havia chegado a renunciar até ao cargo consentido, apresentando a cruz peitoral, o anel de bispo e a mitra numa sessão da Convenção. Recidivou ao subir o cadafalso, gritando “Viva Jesus Cristo”.

A centralidade de Notre-Dame, que chegou a ser transformada em depósito de vinho para a Guarda Nacional, foi rapidamente reconhecida por um certo oficial revolucionário chamado Napoleão Bonaparte.

Pela concordata que fez com o papa Pio VII, Notre-Dame voltou a ser em 1801 o que nunca tinha deixado de ter sido, uma catedral única até mesmo no país das catedrais. Mas sob controle do Estado e da nova realidade: o antecessor de Pio VII havia sido refém de Napoleão até a morte, em 1799.

Todo mundo sabe, principalmente pelo quadro de Jacques Louis David, que Napoleão foi coroado imperador em Notre-Dame. Um dominado Pio VII lhe passou a coroa que ele mesmo colocou sobre a própria cabeça.

Nenhum dos objetos litúrgicos sobreviveu à Revolução e o “tesouro” para o qual o genial arquiteto Eugène Violet-le-Duc construiu uma sala especial na residência episcopal queimada em outro surto revolucionário francês, remonta todo ao século 19.

Foi Violet-Le-Duc quem ergueu a agulha apontada para o céu, o clássico sinal exterior de união entre os mundos das catedrais, transformada na mais dolorosa imagem do grande incêndio de Notre-Dame.

“Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós”, cantaram espontaneamente católicos franceses que saíram às ruas de Paris para contemplar o desastre indizível.

Comovente, para fiéis ou não. Uma triste e doce despedida para a catedral imortal na sua hora mais difícil, talvez aquela em que deixará a terra e entrará no mundo dos mitos.

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