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Jordânia agitada: príncipes em conflito e briga feia na família real

O irmão rebelde recuou e jurou lealdade ao rei depois de ser acusado de tramar um golpe e ser colocado em prisão domiciliar

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 7 abr 2021, 09h49 - Publicado em 7 abr 2021, 08h11

Harry e Meghan talvez tenham ficado com inveja: seus desentendimentos com a família real britânica redundaram numa entrevista a Oprah Winfrey e outras provocações.

Na Jordânia, a briga foi muito mais pesada e ficou explícita quando o príncipe Hamzah acabou trancado em casa, com as comunicações cortadas, e dois de seus próximos detidos, num total de 14 prisões. 

Obviamente, a comparação é exagerada, inclusive porque os monarcas britânicos, com todo o aparato que os torna os mais conhecidos do mundo, não têm poder político. Na Jordânia, o rei não é, de jeito nenhum, um personagem figurativo. E sabe apertar os parafusos quando se sente ameaçado.

Foi por causa disso que o rei Abdullah desceu os tanques, simbolicamente, e manteve o meio-irmão em prisão domiciliar (ou palaciana), com acusações de conluio com “potências estrangeiras” para “ameaçar a segurança e a instabilidade da Jordânia”, até ele ceder e prometer ser bonzinho.

“À luz dos acontecimentos dos últimos dois dias, eu me coloco à disposição de sua majestade o rei”, disse Hamzah, depois do período em que esteve rebelado e denunciou o sistema de corrupção imperante no reinado do irmão.

“Continuarei fiel ao legado de meus antepassados e leal a seu caminho, a sua mensagem e à sua majestade”.

Ou seja, assinou a rendição. Em troca, Abdullah aceitou uma “mediação” familiar para desmontar o conflito. 

Que “potências estrangeiras” estariam interessadas em desestabilizar a Jordânia? Certamente nenhuma associada aos Estados Unidos ou a Israel ou a países do Golfo, pois só têm a perder se a pequena e pobre Jordânia, importante apenas pela posição estratégica e o relativo apelo entre os palestinos, desmontar o complicado equilíbrio de forças no Oriente Médio.

Como um dos presos, Bassem Awadallah, hoje é assessor econômico do poderoso príncipe herdeiro Mohammad bin Salman, houve uma certa nuvem de suspeitas sobre a Arábia Saudita. O reino do deserto, muito maior e mais rico, fez de tudo para cortar a boataria.

O príncipe Hamzah não demonstra simpatia pelo islamismo militante, o maior fator de ameaça potencial à Jordânia, por isso a briga parece ter origem no mais elementar dos ingredientes: o poder.

“No fundo, é só uma briga entre o filho de uma rainha britânica e o filho de uma rainha americana”, disse uma fonte jordaniana.

Os dois filhos do rei Hussein, que teve quatro esposas (uma depois da outra, não simultaneamente como ainda fazem os árabes mais ortodoxos), têm mães diferentes e um conflito de raiz.

Hamzah, o filho mais velho de Hussein com Lisa Haleby, americana descendente de sírios cristãos que se converteu quando casou com o rei jordaniano e assumiu o nome de rainha Noor, era o predileto do pai e deveria ser o primeiro na linha de sucessão.

Mas Abdullah, filho da inglesa Toni Gardner (princesa Muna na Jordânia), de quem herdou os olhos azuis, destituiu o meio-irmão da posição de príncipe herdeiro, colocando no lugar o próprio filho, Hussein. O herdeiro hoje tem 26 anos, mas na época era uma criança pequena, o que foi considerado um risco.

A sucessão lateral ou fraterna é sempre complicada. O emir, ou príncipe ou rei, governa sabendo que será substituído por um irmão e seus filhos acabarão escanteados. 

A alternativa de nomear um filho herdeiro – e não necessariamente o primogênito – implica em risco maior ainda: além dos tios inconformados, outros irmãos ou meio-irmãos podem se sentir caroneados.

Foi isso que aconteceu na Arábia Saudita, quando o rei Salman nomeou seu filho como herdeiro. O príncipe Mohammed bin Salman dificilmente tem uma noite de sono tranquila sabendo quantos interesses foram contrariados com sua consagração.

Durante um certo período do império otomano, o filho do sultão que assumia depois da morte do pai resolvia o problema mandando  escravos treinados enforcar os irmãos com cordões de seda.

O método, evidentemente, não vigora mais, mas as surpresas na sucessão ainda causam encrencas nas famílias reais. O próprio Abdullah foi uma dessas surpresas. 

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Apenas duas semanas antes de morrer de linfoma não-Hodgkins, o rei Hussein nomeou o filho mais velho como sucessor, tirando da fila seu irmão e tio do príncipe, Hassan.

Como nos serralhos dos antigos sultões, a influência das mães, ou da esposa preferida, conta nas maquinações de cada uma em favor dos próprios filhos. Noor, por exemplo, não deve ter ficado nada feliz quando o filho de outra escanteou seu Hamzah. Na crise da semana passada, ela tuitou que esperava ver justiça para as “vítimas inocentes de calúnias sórdidas”.

A Jordânia é um dos países artificiais do Oriente Médio, criado na época do mandato britânico e das feitiçarias políticas arquitetadas por Lawrence da Arábia. 

Os reis são da dinastia hashemita e se consideram descendentes em linha direta do profeta Maomé, com 41 gerações os separando de Fátima, a filha do profeta, e seu marido, o imã Ali. Antes de ganharem a pequena e complicada Jordânia, eram os guardiães – ou xerifes – dos lugares santos do Islã, Meca e Medina. Esta honraria hoje é exercida pela monarquia saudita.

Fazendo do limão uma limonada bem espremida, Hussein conseguiu, simultaneamente, fazer a guerra e a paz com Israel, que ganhou da Jordânia, em campanhas iniciadas pelos árabes, a metade maior de Jerusalém e o território chamado de Cisjordânia, cujos habitantes desenvolveram uma identidade nacional palestina.

Antes da recente aproximação com países do Golfo Pérsico, Israel só tinha acordos de paz e de relações diplomáticas com o Egito e a Jordânia.

A população da Jordânia é dividida meio a meio entre palestinos e beduínos, ou árabes tribais. Como em outros países da região, a maior ameaça de instabilidade vem de militantes muçulmanos fundamentalistas, que aproveitam a má fama de regimes corruptos para tentar cavar seu caminho para o poder.

Foi assim na época da Primavera Árabe, a onda de agitação que chegou a se disseminar pela Jordânia. Abdullah reforçou os laços tribais dos quais depende sua sobrevivência. Durante algum tempo, sua mulher, a linda e chique Rania, praticamente sumiu do mapa, com suas roupas caríssimas e costumes ocidentalizados, um anátema para os radicais.

Do ponto de vista dos fundamentalistas muçulmanos, Abdullah e toda sua família são traidores vendidos aos Estados Unidos e Israel. 

O rei tem que fazer muitos malabarismos para manter a imagem de defensor dos palestinos e parceiro nos interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel. 

Recentemente, foi cancelada no último minuto uma visita que faria à esplanada das mesquitas em Jerusalém por divergências com os israelenses sobre segurança. Nada surpreendentemente, suas relações com Benjamin Netanyahu são péssimas, mas as relações obrigatórias de segurança são mantidas via comandantes militares e até chefes do Mossad.

Detalhe que põe pimenta na história da semana: o israelense Roy Shaposhnik admitiu que entrou em contato com a esposa de Hamzah e ofereceu mandar um avião para tirar a princesa e seus filhos do país depois que o marido foi colocado em prisão domiciliar. 

Shaposhnik é radicado na Europa e nega de pés juntos que seja um ex-agente do Mossad, o que é considerado uma prova definitiva de que é. Ele disse que apenas tentou ajuda seu grande amigo, o ex-príncipe herdeiro.

Se fosse bem sucedido na rebelião gorada, o príncipe Hamzah dificilmente mudaria a equação equilibrista que mantém a Jordânia à tona.

Qualquer monarca jordaniano depende da ajuda dos Estados Unidos e dos primos do Golfo.

Além de administrar as ambições do meio-irmão, Abdullah tem que lidar com outro problema político-familiar: a ruptura muito pública do casamento da princesa Haya, sua meia-irmã, com o emir de Dubai, Mohammed bin Rashid Al Maktoum.

Haya fugiu de Dubai com o casal de filhos e abriu em Londres um escandaloso processo de divórcio, quando vieram à tona seu caso com um guarda-costas britânico e o comportamento violento de Maktoun, acusado de manter duas filhas em cárcere privado.

Relaxem, Harry e Meghan. Tem famílias bem mais complicadas do que a sua.

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