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Me Engana que Eu Posto Por Coluna A verdade por trás de manchetes falsas que se espalham pela internet. Editado por João Pedroso de Campos.

Chefe da ONU ameaçou Brasil por confisco do passaporte de Lula?

Notícia falsa no Facebook diz que António Guterres, secretário-geral da ONU, ameaçou impor sanções ao país caso não devolva passaporte de 'líder mundial'

Por João Pedroso de Campos Atualizado em 29 jan 2018, 17h57 - Publicado em 29 jan 2018, 17h55

Desde que o juiz federal Ricardo Leite determinou a apreensão do passaporte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na última quinta-feira, e o levou a cancelar a viagem que faria à Etiópia para um evento da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), tem circulado nas redes sociais o boato de que o secretário-geral da ONU, António Guterres, protestou contra a decisão, classificou-a como “ato ditatorial” e ameaçou o Brasil com sanções caso o confisco do documento seja mantido.

A lorota ecoou, sobretudo, no Facebook. Uma das postagens mais populares com a notícia falsa na rede social foi compartilhada cerca de 33.000 vezes em três dias e gerou mais de 1.200 comentários.

Reprodução/Reprodução

Guterres não fez nenhum tipo de comentário sobre a decisão judicial, nem muito menos ameaçou punir o Brasil em função dela.

Caso o chefe da Organização das Nações Unidas tivesse mesmo feito qualquer crítica à apreensão do passaporte de Lula, por mais diplomática que fosse, não faltariam registros das declarações dele em veículos de informação profissionais do mundo todo. É de se imaginar, portanto, a repercussão que teria a tal ameaça de sanção ao Brasil. Não há, contudo, nenhuma linha sequer publicada, porque se trata de mais uma fake news.

Além disso, não caberia a Guterres, pessoalmente, como secretário-geral da entidade, impor punições ao Brasil. As aplicação de sanções é determinada pelo Conselho de Segurança da ONU, composto por quinze países (cinco permanentes, com direito a veto, e dez não-permanentes), a nações que ameacem a paz mundial. O secretário-geral pode, no máximo, recomendar ao Conselho que determinado país sofra sanções, sempre sob a ótica da preservação da segurança.

Embora António Guterres não tenha se manifestado sobre a apreensão do passaporte de Lula, houve, de fato, um membro da ONU a criticar a decisão do juiz Ricardo Leite. Foi o diretor de comunicação da entidade, Enrique Yeves, em um artigo publicado no jornal El País. O texto não representa a opinião da ONU.

No jornal espanhol, Yeves classificou como “ironia perversa” que Lula, “o arquiteto do maior sucesso internacional na luta contra a fome e a pobreza”, tenha sido impedido de ir à Etiópia para o evento da FAO. Sem falar em nome da ONU ou no de Guterres, ele também criticou o julgamento do ex-presidente no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), que condenou o petista em segunda instância pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Enrique Yeves escreveu ainda que, caso Lula consiga concorrer à Presidência em outubro, é “seguro” que ele vencerá a eleição.

Em sua conta no Twitter, ele também lamentou a ausência do ex-presidente na cúpula da FAO.

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Em suas opiniões pessoais expressas no texto, Yeves não classificou em momento algum a decisão de Ricardo Leite como “ditatorial”, como diz a notícia falsa.

O boato sobre António Guterres, a propósito, sequer foi baseado no texto do diretor de comunicação da ONU. Isso porque a lorota começou a circular no último dia 26 de janeiro, enquanto o artigo foi publicado no dia 27.

Então ficamos assim: o secretário-geral da ONU, António Guterres, não ameaçou impor sanções ao Brasil caso o passaporte de Lula não seja devolvido. Ele sequer se manifestou publicamente em relação à decisão judicial que determinou o confisco. Já o diretor de Comunicação da entidade criticou a decisão da Justiça brasileira em um artigo com sua opinião pessoal em um jornal.

 

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