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Covid-19: cientistas não têm verba para lançar app que avalia saúde mental

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina desenvolveram projeto para quem atua na linha de frente no combate ao coronavírus

Por Jennifer Ann Thomas 9 abr 2020, 15h46

Em meio à pandemia e ao enfrentamento ao coronavírus, o que mais se espera é o desenvolvimento rápido de uma vacina, uma cura definitiva para a doença. Pesquisadores costumam responder que a ciência precisa de tempo para avançar e apresentar resultados. Em momentos como o atual, fica evidente a importância do investimento na pesquisa, que precisa de um esforço robusto e contínuo. Há seis anos, não se imaginava que estudos sobre isolamento e confinamento na Antártica, continente de condições extremas de sobrevivência, seriam úteis à sociedade como um todo, que hoje vive diante da incerteza sobre a quarentena. Desde 2014, uma equipe de pesquisadores do Laboratório Fator Humano, vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina, estuda os efeitos do continente gelado sobre o corpo humano, principalmente na saúde mental.

Desde o agravamento da pandemia no Brasil, o grupo, coordenado pelo psicólogo Roberto Moraes Cruz, vem adaptando o conhecimento adquirido sobre as reações na Antártica às situações impostas pela quarentena, como o isolamento social e o confinamento dentro de casa. Contudo, para transformar a teoria em aplicação prática, faltam recursos. Confira, a seguir, o relato de Cruz sobre como o trabalho poderia contribuir com os esforços para minimizar os danos causados pela Covid-19.

O psicólogo Roberto Moraes Cruz em missão na Antártica
O psicólogo Roberto Moraes Cruz em missão na Antártica Acervo pessoal/Divulgação

Qual é o projeto de aplicativo que está pronto para sair do papel? Foi desenvolvida uma metodologia para os estudos na Antártica e a maquete de um aplicativo de apoio para a pesquisa. Estamos agora escrevendo o código do app em parceria com especialistas. Algumas variáveis sobre a saúde mental desenvolvidas para a Antártica são similares à situação da quarentena. Outras não, como a incidência de luz, que é diferente no continente gelado. Ao mesmo tempo, as pessoas confinadas, principalmente em prédios, estão se expondo menos ao sol, indispensável para a produção de vitamina D pelo organismo.

Como ele vai funcionar? Após a pessoa fazer o download e preencher os dados pessoais, ela vai receber as notificações para registrar o que está sentindo e pensando. Ao inserir as respostas, como qualidade de sono, sintomas, entre outros elementos, o aplicativo apresenta os padrões daquele indivíduo, cruzando com dados de outras pessoas para criar mapas de frequência, prevalência e preditores de sintomas de transtornos ou comprometimentos mentais. Essas informações permitem prevenir afastamentos por problemas de saúde mental e até fatalidades. Será possível separar o pessoal da linha de frente, do atendimento médico, que precisa de um suporte especializado.

O que mudaria, na prática? O indivíduo que estiver com problemas, com sintomas importantes, já iria para algum tratamento psicológico e não precisaria ser afastado, no caso de um comprometimento mental leve. Saberíamos quais foram os sintomas que mostraram que ele teria aquele sofrimento para antecipar quando outras pessoas podem ter o mesmo diagnóstico. O aplicativo permitiria uma análise preditiva de qual é a chance de o indivíduo entrar em fadiga ou não.

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Quais são as similaridades com a Antártica que permitiram aproveitar o estudo no momento atual? Isolamento e confinamento. Há o aumento de estressores como ansiedade, pensamento depressivo e catastrófico, temor pela vida e impulsividade, que é relacionada ao suicídio. Nas cidades e dentro de casa, é uma oportunidade para testar o aplicativo e ampliar a relevância desse produto. Quando teremos outra quarentena? É uma chance única de nos prepararmos, além de validar a tecnologia para outros contextos extremos, como em minas de carvão, plataformas de petróleo e até estações espaciais. Este é um momento para a pesquisa. A última vez que isso aconteceu foi em 1919 e não podemos esperar que aconteça de novo para agir.

  • Por que é tão difícil conseguir o financiamento? Temos uma cultura de pouco investimento em ciência, tanto em volume, quanto pela alocação dos recursos disponíveis. Cerca de 98% da produção de conhecimentos científicos é financiada com dinheiro público, e a pesquisa é predominantemente feita nas universidades. No Brasil, o baixo envolvimento do setor privado é notório, ao contrário de outros países. Por isso, pesquisadores disputam os editais de financiamento e bolsas. Temos centros e laboratórios de excelência e é difícil de mantê-los sem investimento contínuo. A crise da pandemia da Covid-19 tem revelado a importância do investimento em ciência e das parcerias público-privadas. Há propostas de fomentos para soluções, como a do aplicativo, especialmente para a saúde mental, que pode reduzir os impactos de uma pandemia de efeitos psicossociais negativos diante do cenário de calamidade.

    Como foram os últimos anos de expedições à Antártica? Durante os últimos sete anos, fomos o único grupo a fazer pesquisa de base e aplicada sobre fatores psicológicos associados a marcadores biológicos na Antártica. Fomos para lá “de pires na mão”. Até roupas tivemos que pedir emprestado. É como se recebêssemos uma parte do dinheiro somente para chegar ao Chile, de onde partem os navios e os aviões, mas não à Antártica. As Forças Armadas têm nos ajudado, pois a Marinha e a FAB participam da logística e reconhecem a relevância do projeto, voltado à saúde dos militares, mas os recursos são escassos. No ano passado, não participamos de uma etapa da pesquisa por falta de verba. Foi a primeira missão, desde 2014, sem coleta de dados. E sou professor bolsista produtividade pelo CNPq.

    O que poderia melhorar? O gerenciamento da pesquisa no Brasil e das fontes de investimento. Há excesso de hierarquia, burocracia e de atravessamentos políticos. Poderíamos estar em campo coletando dados para o aplicativo. Demora para que consigamos apresentar resultados consistentes e com volume de respostas rápido à sociedade, pois perdemos tempo ao buscar alternativas para trabalhar. O ideal seria destinar verbas aos centros e laboratórios de pesquisa, ao invés de depender excessivamente dos editais das agências de fomento.

    Como essa mudança auxiliaria na prática? Quem melhor sabe onde empregar o recurso é o pesquisador. Mudar a engrenagem aumentaria a velocidade de produção e daria maior segurança no trabalho dos pesquisadores. No nosso caso, nós não conseguimos concluir o nosso aplicativo por falta de recursos, mas continuamos realizando o nosso trabalho, de maneira autônoma e com muito esforço, com apoio de nossos estudantes e colaboradores, nacionais e internacionais. Há muito investimento pessoal na pesquisa, seja para se deslocar, para pedir ajuda a outros colegas especialistas, para participar de eventos científicos com os nossos alunos, para produzir artigos e livros, no Brasil ou em língua estrangeira. Parodiando Euclides da Cunha, o pesquisador brasileiro é, antes de tudo, um forte.

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