Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Rebolada e graciosa: Camarão ensopado com chuchu

Velhas marchinhas cantadas e puladas no Carnaval revivem a folia do tempo de Carmen Miranda, nossa maior intérprete desse gênero musical

Toda a vez que os foliões dos blocos de rua cantam e pulam “Mamãe eu Quero”, reverenciam Carmen Miranda (1909-1955). Outras marchinhas de Carnaval interpretadas por ela, entre as quais “Ta-hí” ou “Pra Você Gostar de Mim” e “Touradas em Madri”, fazem o mesmo resgate musical e sentimental. Carmen Miranda foi a primeira artista multimídia do Brasil. Além de cantora do rádio, do disco e da televisão, revelou-se dançarina, atriz e estrela do teatro, do palco dos cassinos e do cinema. “Mamãe eu Quero”, gravada em 1939 e composta dois anos antes por Vicente de Paiva e Jararaca, converteu-se na sua marchinha de maior sucesso.

Ela se encontrava nos Estados Unidos, para onde viajou a trabalho em 1939, levando o vivaz e afinado conjunto vocal e instrumental Bando da Lua. Ao longo da carreira, também cantou sambas, sambas-choros e batuques dos melhores compositores de uma época na qual os brasileiros aprenderam a ser brasileiros, no dizer do cantor, compositor e ator Eduardo Dussek, autor do ótimo livro “Carmem Miranda” (Irmãos Vitale Editores, São Paulo, 2000).

A marchinha de Carnaval foi um gênero de música popular que atiçou os foliões brasileiros entre as décadas de 1920 e 1960, até a hegemonia das escolas de samba, que a descartaram pela necessidade de composições exclusivas para seus desfiles luxuosos e a fim de não pagar os elevados direitos autorais. Mas os denominados sambas-enredos não a eliminaram.

Ao contrário, velhas marchinhas permanecem tocadas e puladas. Curiosamente, no Carnaval de 2019, a veterana Escola de Samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, desfilou na Marques de Sapucaí inspirada no samba antológico “O que é? O que é?”, do compositor carioca Gonzaguinha: ”Viver/ E não ter a vergonha/ De ser feliz/ Cantar e cantar e cantar/ A beleza de ser/ Um eterno aprendiz”.

As melodias simples e vivas das marchinhas, as letras irreverentes, picantes, maliciosas, satíricas, cheias de duplo sentido ou às vezes com graça infantil, como em “Mamãe eu Quero”, continuam a animar nas ruas e salões os foliões nacionais. A marchinha brasileira de Carnaval descende das portuguesas que chegaram a ser difundidas aqui. Historicamente, a primeira do país foi “Ó Abre Alas”, de 1899, de autoria da compositora, instrumentista e maestrina carioca Chiquinha Gonzaga: “Ó abre alas/ Que eu quero passar/ Ó abre alas/ Que eu quero passar/ Eu sou da Lira/ Não posso negar/ Eu sou da Lira/ Não posso negar”.

O compasso binário que caracteriza a marchinha de Carnaval lembra o das marchas militares, porém com o andamento mais acelerado. Carmen Miranda foi a mais popular cantora nacional desse estilo musical, que teve outros intérpretes famosos: Almirante, Blecaute, Dalva de Oliveira, Emilinha Borba, Jorge Veiga, Mário Reis, Silvio Caldas. Eles levavam multidões ao delírio cantando composições de Ary Barroso e Lamartine Babo, Braguinha e Alberto Ribeiro, João de Barro, Noel Rosa etc.

Filha de um casal de portugueses que passava por apertos financeiras no Rio de Janeiro – o pai era barbeiro, a mãe dona de pensão – a lusitana Carmen Miranda imigrou com a família, ainda bebê, para a então capital brasileira. Quando sua carreira artística decolou, virou baiana estilizada. Passou a se exibir em shows e filmes com turbantes dotados de frutas tropicais, cobriu-se de balangandãs e penduricalhos típicos de nossa cultura. Gesticulava espalhafatosamente, saracoteava sensualmente, sempre com muita graça.

Ajudou a afirmar nos Estados Unidos e em viagens a outros países, a imagem do samba e do Carnaval como genuínos produtos nacionais. Ganhou cachês ou salários milionários, converteu-se na mulher mais bem paga do show business norte-americano. Recebeu apelidos carinhosos, sendo o mais lembrado Pequena Notável, dado por César Ladeira, um dos grandes locutores da era de ouro do rádio no Brasil. Rebolada e baixinha, media 1,52 metro de altura, minimizados pelos sapatos com 20 centímetros de salto que usava, pesava entre 47 e 49 quilos.

Apresentou-se inclusive na Casa Branca, para o presidente Franklin D. Roosevelt. Nos Estados Unidos e no Brasil, conquistou variados fãs, a admiração dos colegas e da imprensa em geral. Voltou ao Brasil em 1940, sendo acolhida calorosamente no desembarque. Mas, ao estrear no Cassino da Urca o público reagiu com frieza. Os aplausos da chegada viraram hostilidade. Acusaram-na de servir de instrumento para a política de boa vizinhança dos norte-americanos e de voltar americanizada.

A segunda crítica a ofendeu. Não se considerava americanizada. Entretanto, a Pequena Notável reagiu à altura – não a sua, pois era baixinha, mas a dos detratores (risos). Reformulou o repertório e gravou composições com letras que torpedeavam a crítica. A mais veemente era um samba intitulado “Disseram que eu Voltei Americanizada”, de Vicente de Paiva e Luís Peixoto.

Continha uma declaração explícita de amor ao Brasil. “Eu posso lá ficar americanizada?/ Eu que nasci no samba e vivo no sereno,/ Topando a noite inteira a velha batucada?/ Nas rodas de malandro, minhas preferidas,/ Eu digo é mesmo eu te amo e nunca I love you,/ Enquanto houver Brasil, na hora da comida,/ Eu sou do camarão ensopadinho com chuchu.”

Não se questionou mais a brasilidade de Carmen Miranda, apesar de nunca haver abdicado da cidadania lusitana. Retornando aos Estados Unidos, passou quase quinze anos sem colocar os pés na terra descoberta por Cabral. Morreu lá aos 46 anos de idade, de ataque cardíaco. No Brasil, acabou madrinha do camarão ensopado com chuchu. Até hoje lembramos dela quando saboreamos o prato, com uma saudade parecida com a que sentimos quando ouvimos “Mamãe eu Quero”.

O chuchu, que muitos chamam de legume, é na verdade uma fruta. Pertence à família da melancia e do melão. Por sinal, igualmente não é nativo do Brasil. Veio do México ou de um país da América Central. Entretanto, tornou-se indiscutivelmente brasileiro. Apesar do sabor pouco marcante, enriquece um elenco de receitas, principalmente no Rio de Janeiro. Foi ali que a cantora de “Disseram que eu voltei americanizada” aprendeu a saboreá-lo ensopadinho com camarão.

Ingrediente versátil, o chuchu pode ser consumido cozido e temperado, incorporado ou não a saladas e como guarnição. Comporta recheios de vários tipos, especialmente a carne picada. Presta-se ao preparo de suflês e cremes. Serve para dar ponto a pratos salgados e doces, como a goiabada. Fornece alto teor de fibras, é importante fonte de ferro, magnésio, potássio, fósforo e cálcio. A voz do povo deu a ele novas acepções semânticas. “Chuchu” significa pessoa bonita e querida, sobretudo mulher. “Pra chuchu” é o mesmo que à beça, em grande quantidade.

Quando vivia no Rio de Janeiro, Carmen Miranda também gostava das receitas de Portugal, naturalmente ensinadas pela mãe. Nas festas do Natal e aniversários, havia na casa dos pais anho (cordeiro) com arroz de forno, perdiz com couve-lombarda, doces de ovos como toucinho do céu e papo de anjo. No dia a dia, porém, ela preferia os pratos brasileiros e cariocas em especial. Sempre recebeu os amigos em casa com mesa farta. Ao visitá-la, a fadista portuguesa Amália Rodrigues se espantou com a generosidade da sua mesa.

No substancioso e bem escrito livro “Carmen – Uma Biografia” (Companhia das Letras, São Paulo, 2005), Ruy Castro qualificou Carmen Miranda de a mais famosa estrela nacional do século XX. Sim, ela nasceu na cidade de Marco de Canaveses, perto do Porto. O chuchu, o pão de ló, a banana e a manga também não são originários do Brasil. Ninguém se atreve a questionar, porém, o verde-amarelismo desse quarteto delicioso. Ziriguidum!

CAMARÃO ENSOPADINHO COM CHUCHU

Rende 4 porções

INGREDIENTES

.1 ½ kg de camarão (prefira o cinza) médio, limpo

.3 chuchus

.2 dentes de alho grandes

.5 colheres (sopa) de azeite

de oliva

.400ml de caldo de legumes (ou mais, se necessário)

.Salsinha e cebolinha verde bem picadas a gosto

.Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto

ACOMPANHAMENTO

.Arroz branco

PREPARO

1. Tempere os camarões com a pimenta-do-reino e reserve.

2. Descasque, retire o miolo branco e corte os chuchus em cubos de aproximadamente 2 cm.

3. Descasque os dentes de alho, amasse-os muito bem e doure-os , levemente, no azeite de oliva.

4. Acrescente o chuchu, refogue por uns 3 minutos e misture o caldo de legumes. Deixe no fogo até os chuchus ficarem macios.

5. Adicione então os camarões, tempere com sal, coloque a salsinha, a cebolinha verde, corrija a pimenta e cozinhe um pouco mais, cuidando para que os camarões não passem do ponto.

6. Sirva quente, com arroz.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s