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Proposta de resolução para 2018: largue um pouco o celular

Um novo estudo comprovou que smartphones podem viciar tanto quanto drogas pesadas. Mas há como se livrar do vício

Por uma semana, na época de réveillon, fui meio que obrigado a ficar sem internet. Estava numa área remota, onde não havia sinal de celular. Só que não foi fácil lidar com a falta. Por vezes, sentia o aparelho vibrar no bolso, como se tivesse pulado uma notificação do WhatsApp, mesmo quando, na verdade, o dispositivo nem por perto estava. Também chegava a pensar ter ouvido o smartphone tocando, mesmo que nem sinal houvesse para receber chamadas, mensagens ou e-mails “urgentes”. Por muitas vezes, mesmo no meio de alguma trilha remota mata adentro, pegava-me indagando, sozinho: “Será que estou perdendo algum novo meme, alguma nova polêmica, do Facebook? Será que os grupos de WhatsApp estão bombando? Vou ficar por fora disso tudo?”. Já desconfiava, mas esses sintomas certificaram: sofro de nomofobia e de Fomo. Duas síndromes modernas que, em breve, aposto que serão tidas pela OMS como grandes epidemias globais – pois, na real, já são.

Nomofobia é o termo usado para designar quem se viciou em celulares. Fomo, do inglês “fear of missing out”, é o medo de ficar por fora das últimas novidades. No meu caso, há duas raízes para essas moléstias.com que me acometem: redes sociais e e-mails. Nada de realmente relevante, e que exija atenção imediata, chega por mensagens privadas no Instagram ou na caixa de e-mail; quando nosso mundo explode pra valer, sabe-se logo, e usualmente não pelo mundo virtual.

Mesmo assim, já contabilizei que chego a tocar na tela do celular mais de 1 000 vezes num dia; um índice que, pelo o que apontam as pesquisas, é assustadoramente normal. Muitas, muitas vezes, pego o iPhone, ou Android (qual estiver à mão), para ver que horas são ou colocar um disco para tocar no Spotify ou no Google Play Music. Porém, depois de liberar a tela com meu dedão, o vício me leva a abrir, quase que involuntariamente, a pasta onde guardo os apps de redes sociais. Depois, também de forma praticamente impulsiva, o Instagram, no qual me sinto compelido a rodar a timeline pra baixo, ver os stories mais novos etc. Não bastasse, ao sair do Instagram, a dependência me leva ao Facebook, onde perco mais um tanto de tempo. Na sequência, ao YouTube e, finalmente, ao Gmail e ao Outlook. Ao fechar a tela do celular, em meu momento de lazer, noto que perdi minutos nessas tarefas todas, mas esqueci de fazer o que inicialmente pretendia: ver o horário e colocar uma música para tocar.

Em uma matéria recente da equipe de Tech de VEJA, da qual sou editor, destacou-se um estudo que garante que o vício em dispositivos eletrônicos, como celulares e tablets, já é comparável ao em drogas como álcool ou cocaína. Não só pelos fatores comportamentais e sociais, mas também (e isso é o que mais espanta) por como o hábito, em exagero, afeta a química de nossos cérebros e corpos. Assim como fazem as drogas. Em outra pesquisa, tema de reportagem desta semana, constatou-se que a OMS já tem o vício em videogames como um distúrbio psiquiátrico – um do qual, assumo, certamente eu sofria em minha juventude (mas me livrei; continuo a jogar, o que é saudável, porém sem gastar noites de insônia nisso).

São muitas as consequências de tais dependências. Algumas: ansiedade, nervosismo, stress, depressão, falta de atenção (nesta era conectada, parece difícil conseguir se concentrar em algo, como um livro, por horas e horas sem pausar a mente a todo momento para checar o WhatsApp) e distanciamento do mundo físico, de amigos e familiares cujos contatos vão além da lista de amigos do Facebook. Qualquer um pode cair nesse vício. Mesmo aqueles que, como eu, sabem de sua existência, de seus sintomas, de como combatê-los etc. Não adianta, logo, ser apenas alguém informado para driblar o problema. Então, como fazer?

Certa vez entrevistei um cara especialista tanto em viciar as pessoas nas maravilhas tecnológicas, quanto em fazê-las se livrar das mesmas. Tristan Harris ganhou, primeiro, fama e dinheiro no Vale do Silício fazendo algo muito valorizado por lá: traficando as drogas virtuais. Como designer, ele era expert em desenhar produtos para grandes empresas, como o Google, de forma que as pessoas não conseguissem parar de usá-los. Explicou ele sobre essa sua fase de “traficante”:

“Desde que o homem surgiu, tudo passou a competir pelo nosso tempo, a moeda mais valiosa. Websites, Net­flix, Facebook disputam atenção. O que há de novo? Pela primeira vez, o sucesso desses produtos é medido pela quantidade de tempo que eles capturam dos usuários. Tropas de milhares de engenheiros e designers desenvolvem tecnologias capazes de persuadir indivíduos a não largar delas. Por exemplo, se o algoritmo do Facebook joga um vídeo engraçado de um panda na sua timeline, é natural que você se sinta compelido a clicar nele. Indo além, isso pode impulsionar você a não parar de percorrer a tela da rede social, atrás de mais, e mais, e mais memes, virais e vídeos fofos de gatinhos.”

São muitas as táticas para viciar os usuários. Outro exemplo é a famosa regra dos três cliques, segundo a qual as pessoas devem conseguir acessar o que for em computadores, celulares e na internet com apenas três toques no mouse, ou três dedadas na tela do smartphone. E mais uma: as timelines de rolamento infinito de redes sociais, que nos compelem a nunca parar de rolá-las para baixo, mesmo que só haja bobagens nela; pois algo em nós, lá no fundo de nossas mentes, leva à certeza de que alguma coisa incrível pode surgir a qualquer momento à frente dos olhos.

Essas estratégias iludem as pessoas. Assim como fazem os traficantes de drogas com seus clientes. Ou as farmacêuticas com parte de seu público, aquela que consome pencas de remédios mesmo quando médicos sérios dizem que não há recomendação para tal. Acha-se que tudo está sob controle, que a tecnologia não nos domina, e que tudo que se faz no celular, todas as múltiplas vezes que se clica diariamente no ícone do Facebook, do Twitter, do Instagram, são devido a escolhas conscientes nossas. Repito: ilusão. Na maioria das vezes, tudo o que fazemos no mundo virtual é guiado por como algoritmos, e os programadores e designers que os criam, querem que naveguemos. Nada mais.

Quer dizer que é preciso queimar celulares em praça pública? Não. Eles são úteis. Continue a usá-los. Mas assim como recorre a drogas, como um bom uísque ou comprimidos de Advil, sem exagero e de forma muito bem pensada.

Em conversas diversas com profissionais da área, a exemplo de Tristan Harris – que, em tempo, depois largou empresas como o Google e fundou a organização Time Well Spent (Tempo Bem Gasto), justamente dedicada a ensinar designers a criar produtos menos viciantes e a auxiliar os donos dos gadgets a não se amarrar tanto a eles –, elenquei algumas dicas que ajudam a não cair na armadilha dos traficantes digitais. Elas podem até não ser infalíveis; sigo-as faz mais de dois anos, mas, mesmo assim, por vezes me pego viciado novamente na coisa toda (por razões várias, como as demandas profissionais, ou as chamadas familiares). Contudo, quando me pego numa atitude nomofóbica, volto a recorrer a essas táticas para controlar a tecnologia, no lugar de ela me dominar. Algumas das estratégias:

quebre a regra dos três cliques. Para tal, crie pastas, de preferência protegidas por senhas, no celular ou no computador, para deixar os apps mais viciantes (os de redes sociais, de e-mails, de games) a uma distância superior aos três toques de separação. Assim, quando resolver checar o Facebook, será uma decisão mais consciente;

permita tão-somente o recebimento de notificações enviadas por pessoas, não pelas máquinas. Como assim? Quando se recebe um aviso de que alguém publicou uma nova foto no Instagram, ou de que há um novo vídeo no YouTube, não se trata de um ser humano entrando em contato. Mas, sim, de um robô, cujo algoritmo indicou que essa seria a melhor forma de fazê-lo acessar mais uma vez um desses aplicativos ou sites, só para depois notar o quão inútil era o que tinha para ser checado. Desabilite esse tipo de notificação em seu iPhone ou Android. Mas, para não perder a mensagem de seu filho ou de seu crush, permita as vindas de pessoas de carne osso: como a maioria que chega via WhatsApp. Digo “maioria” pois lá também por vezes há notificações de máquinas (desabilite-as na aba de configurações do app);

limite à home do celular ou do computador somente programas de ferramentas, como o da calculadora, o de GPS, o de fotos, o Spotify, o calendário, o bloco de anotações. Deixei os ícones de apps viciantes mais distantes, numa segunda ou terceira tela do iPhone, por exemplo (e dentro de pastas, talvez protegidas por senhas, como já recomendado);

não leve o celular para a cama. Saiba, por exemplo, que há pesquisas que provaram que só por ele estar por perto há risco de até prejudicar os ânimos de uma relação amorosa (e acabar só com o celular na cama, mesmo). Além de dispositivos eletrônicos serem gatilhos para males como insônia e ansiedade.

Ao tomar essas medidas, garanto: se sentirá mais livre. Sem necessidade de postar qualquer anedota ou informação privada no Facebook. Ou de olhar sem parar fotos no Instagram. Ou de compartilhar fofocas e notícias mentirosas pela internet. Ou de verificar o Tinder a cada dois segundos, achando-se um derrotado(a) por ninguém ter dado match nesses últimos dois segundos. Se houvessem menos viciados tecnológicos por aí, com certeza problemas como fake news, haters e afins seriam vencidos com maior facilidade; ou mesmo desprezados, pois teriam dimensão reduzida.

Repito: não se trata de eliminar os gadgets de sua vida. Continuo a adorar meu Xbox, a usufruir de meu iPhone, a pedir pra Siri para tocar meus álbuns favoritos, e a sofrer por ter esquecido de baixar um aplicativo que seria útil para me localizar numa trilha no mato na qual acabei me perdendo – achei-me seguindo pegadas reais, observando o ambiente ao redor, respirando fundo, e me livrando da dependência de um Waze ou Maps das trilhas. Trata-se, isso sim, de dominar a tecnologia ou, melhor, as tecnologias, sem ser subjugado por elas. O que torna a vida bem mais saudável, proveitosa, produtiva, apta ao cumprimento de outras típicas resoluções de fim de ano (como perder peso, ser mais feliz e por aí vai). Em outras palavras, mais real, menos virtual.

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