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Por que precisamos apostar todas as fichas na descarbonização

Para assumir papel relevante na corrida climática, Brasil precisa qualificar seu desenvolvimento para baixo carbono

Por Natalie Unterstell, Berta Pinheiro, Olivia Ainbinder, Clara de Queiroz, Marina Caetano e Walter Figueiredo De Simoni Atualizado em 17 nov 2021, 11h51 - Publicado em 17 nov 2021, 08h55

Da iniciativa privada a governos, formou-se, mundialmente, uma constelação de atores prontos a agir para mitigar e se adaptar aos riscos da mudança climática, cientes das muitas oportunidades do desenvolvimento de baixo carbono e dispostos a apostar todas as fichas na transição para uma economia descarbonizada.

No Brasil, esse movimento não é diferente. Se por um lado é uma grande potência ambiental, se forma aqui um vibrante ecossistema de atores comprometidos com metas de descarbonização. Mas então o que falta para que o país assuma a dianteira na corrida climática global?

Um dos entraves é a falsa ideia de que há uma escolha entre desenvolvimento e descarbonização, fazendo com que as políticas públicas e diretrizes governamentais incentivem as práticas já ultrapassadas e intensivas em carbono, além de aumentar as barreiras para aqueles que querem inovar. Além disso, há no Brasil uma multiplicidade de atores com ideias distintas do que deveria ser o modelo de desenvolvimento adequado para o país e com iniciativas que muitas vezes não se conversam e acabam dispersando esforços.

Com objetivo de dar legitimidade a processos de discussões de políticas públicas entre para a descarbonização estes diferentes atores, a iniciativa “Clima e Desenvolvimento: visões para o Brasil 2030” reuniu cerca de 300 atores da sociedade civil, representantes de empresas e lideranças políticas e sociais para imaginar possíveis cenários de um Brasil de baixas emissões, equilibrando as viabilidades técnica e política.

Os cenários desenvolvidos pela iniciativa tomam como base um cenário onde é mantido o rumo atual de políticas e ações, levando o Brasil a emitir 1,7Gt CO2e em 2030 (0,1 Gt CO2e a mais do que o limite assumido na NDC brasileira). Já os dois cenários elaborados optam pelo caminho de baixo carbono, onde em 2030 essa redução pode ser de 66% (atingindo 0,86 Gt CO2e) ou de 82% (0,5 Gt CO2e). Ainda que ambos considerem a retomada da economia e a transição justa para a neutralidade climática, a diferença entre eles está na taxa anual de desmatamento zero em 2030 na Amazônia e Mata Atlântica.

O processo de escuta de diferentes atores e a elaboração de cenários técnicos demonstrou que realizar a descarbonização não implica em sacrifícios para nossa economia, e, na realidade, cria novos empregos, aumenta a complexidade econômica do país e desenvolve a economia, com soluções maduras e de baixo custo, focadas no aumento expressivo das remoções por sumidouros novos ou conservados, radical redução do desmatamento e da regulação do preço de carbono.

O Brasil já conhece as boas estratégias no jogo da descarbonização e reúne boas condições para utilizá-las, mas nas últimas décadas tem feito apostas ruins. Precisamos tomar grandes decisões como as que adotamos no passado, como o Plano Nacional de Prevenção e Controle do Desmatamento nos anos 2000, o reconhecimento dos direitos ambientais, indígenas e quilombolas na Constituição Federal de 1988 e a criação de áreas protegidas, o investimento pioneiro em agricultura tropical e em biocombustíveis nos anos 70, entre outras.

Ainda, é necessário que a transição do sistema financeiro vá além de apenas adicionar recursos para medidas de baixo carbono. No médio-longo prazo, as finanças como um todo devem ser direcionadas para o baixo carbono, deixando para trás o financiamento em combustíveis fósseis. Postergar ações efetivas, adiando esta transição, implica apenas no aumento das perdas que teremos que remediar, demandando ainda mais recursos para adaptação das economias e das cidades.

Ou seja, o desafio reside apenas nas escolhas que faremos nesta década. Quando Donald Trump anunciou que sairia do Acordo de Paris, os estados e sociedade americana afirmaram “we are still in”, indicando que continuariam no acordo de Paris. No Brasil, mais do que isso, precisamos dar o “all in”, como no poker, apostando todas as nossas fichas em uma única jogada – da descarbonização intencional.

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