01/07/2012
às 16:08 \ Tema LivreZoológicos deixam de ser meros locais de exibição para se tornar centros de pesquisa e de preservação de animais selvagens

CINCO METROS DE FOME -- Girafas do San Diego Zoo Safari Park procuram a comida oferecida por um visitante: experiência ímpar de contato com um animal selvagem africano (Foto: Gilberto Tadday)
(Reportagem de Bruno Meier de San Diego, Califórnia, EUA, publicada na edição impressa VEJA)
PRESERVAR PARA EXIBIR
Os grandes zoológicos converteram-se de meros parques de recreação em centros de pesquisa aplicada. Seu objetivo é salvar as espécies sob risco de extinção
Quando os turistas chegam numa daquelas caminhonetes típicas de safári africano, as duas girafas já começam a se aproximar, gulosas. A instrutora do parque distribui folhas verdes entre os vinte visitantes. Estendidas na direção dos animais de 5 metros de altura, essas folhas serão consumidas em segundos. A língua das girafas, longa e elástica, prende e puxa a comida – e muitas vezes toca na mão que a oferece.
Esse contato direto seria praticamente impossível numa savana. Mas as girafas do San Diego Zoo Safari Park são estrelas: parecem até posar para fotos com os visitantes – como se vê na imagem -, que pagam 137 dólares por experiências como essa.

IGUANAS CARIBENHAS -- Número de animais: cerca de 200 exemplares, de nove espécies; zoológico envolvido na preservação: San Diego; ação: os pesquisadores localizam ninhos nas ilhas caribenhas e retiram os ovos e filhotes para protegê-los de predadores. Na idade adulta, os animais são recolocados em seu habitat, método que propicia uma taxa de sobrevivência de 87%
Ao ar livre, sem confinamento
Localizado no distrito de Escondido, a quarenta minutos de San Diego, no Estado americano da Califórnia, o Safari Park é o lar de mais de 3 500 animais de 400 espécies. Com 1,3 milhão de habitantes, San Diego conta, desde 1916, com um zoológico admirável no centro da cidade, no qual existem 4 000 animais raros ou ameaçados de extinção – todos nas convencionais jaulas ou cercados.
O Safari é uma espécie de unidade remota da mesma instituição. Lá, os mamíferos são mantidos em áreas ao ar livre, sem confinamento, permitindo que os visitantes vivam emoções como a de dar aos rinocerontes maçã na boca.
Essa dimensão recreacional ampara um aspecto menos conhecido dos zoológicos. Ao lado do Safari, um moderno prédio de dois andares abriga o Instituto de Pesquisa para Conservação.
Centro de pesquisa
Por trás dos portões protegidos com cercas elétricas, circulam diariamente 200 cientistas que têm contribuído para proteger espécies ameaçadas de extinção. O centro de pesquisa de San Diego é um dos principais do mundo e junta-se a centenas de instituições similares, muitas delas lançadas há poucos anos, que vêm transformando o papel dos zoos.
De meros centros de entretenimento, eles passaram a ser também um território fundamental de pesquisa aplicada, atividade na qual investem 350 milhões de dólares anuais, de acordo com a Associação Mundial de Zoos e Aquários.

CELEBRIDADE GLOBAL -- O urso polar Knut: rejeitado pela mãe, ele se tornou a estrela do zoológico de Berlim, onde morreu precocemente, no ano passado, para grande comoção do público (Foto: Sean Gallup / Getty Images)
Os projetos conduzidos pelos profissionais tentam inverter dados alarmantes divulgados anualmente pela União Internacional para Conservação da Natureza (Iucn), que cataloga e analisa espécies desde a década de 60. Dois dos mais recentes estudos mostram que um terço das 60 000 espécies pesquisadas corre o risco de extinção. Desde 1970, desapareceram 30% das espécies de vertebrados.
VEJA conheceu o coração do instituto em San Diego. Em uma pequena sala, oito tanques de nitrogênio líquido a 170 graus negativos conservam, desde 1975 – quando as primeiras amostras de DNA foram coletadas -, óvulos, esperma e tecidos de 8 400 animais. É um tipo de biblioteca de informação genética, concentrada sobretudo em animais ameaçados.

PANDA GIGANTE -- Número de animais: não chega a 2000; zoológico envolvido: San Diego; ação: os pesquisadores de San Diego produziram o primeiro panda da América do Norte por meio de inseminação artificial. Os cinco filhotes nascidos nas dependências do zoológico contribuíram para um boom de 300 pandas criados em outros zoos e centros de reprodução pelo mundo, número essencial para sustentar a espécie no futuro
Uma centena de projetos em 35 países
Os cientistas e veterinários de San Diego participam de uma centena de projetos de conservação em 35 países. Além de coletarem material genético, eles buscam reverter a devastação de habitats, o principal fator na extinção de animais e vegetais.
Recentemente, 2 200 cactos de uma espécie que estava em declínio na América do Norte foram plantados para proteger o ambiente em que vivem certas espécies de pássaros. No zoológico de San Diego, desenvolvem-se ainda pesquisas de laboratório para prevenir doenças que atacam animais selvagens (lá se identificaram, por exemplo, cinco vírus que causam doenças contagiosas em cervos, antílopes e búfalos).
Mas o maior orgulho entre os profissionais do Instituto de Pesquisa para Conservação está no aumento de nascimentos e na criação, dentro das instalações do zoo, de animais em risco. San Diego foi pioneiro na reprodução assistida do panda-gigante, animal que se tornou o emblema das campanhas preservacionistas.

CONDOR-DA-CALIFÓRNIA -- Número de animais: 405; zoológicos envolvidos: San Diego e Los Angeles; ação: os cientistas retiram dos ninhos os ovos postos há pouco, a fim de incentivar as fêmeas a substituí-los rapidamente. Os ovos "roubados" são chocados em incubadoras, e os filhotes são criados ouvindo sons do seu habitat. Estima-se que essa política tenha quadruplicado o número de condores na natureza, ainda assim baixo
O condor-da-califórnia, ave que quase desapareceu nos anos 70 (quando um censo contou apenas 22 espécimes), ressurgiu nas dependências do zoológico. Hoje, a população total é de 405 aves (veja mais exemplos no quadro ao lado).
No Brasil, os zoos ainda engatinham nos esforços de conservação. “O fato é que estamos trinta anos atrasados em relação aos maiores do mundo na tentativa de ligar o zoológico com o trabalho de campo”, avalia o veterinário Rodrigo Lopez, chefe do departamento técnico do Zoológico de São Paulo e líder de projetos para a preservação do mico-leão-preto e do gavião-de-penacho.

VITRINE DA NATUREZA -- Estudantes desenham um orangotango: lugar de encanto infantil (Foto: Gilberto Tadday)
A conversão dos zoos em centros de pesquisa e conservação contradiz o discurso tolo dos ambientalistas que consideram a criação em cativeiro uma crueldade inadmissível. “Diante da degradação de tantos habitats por causa da ação humana, o zoológico pode ser o melhor lugar para certos animais”, disse a VEJA o americano Gerald Dick, diretor executivo da Associação Mundial de Zoos e Aquários.
À parte os ataques de ecochatos, esses projetos por vezes também encontram restrições de pesquisadores sérios. No ano passado, um grupo de cientistas das universidades de Cambridge, na Inglaterra, e de Guelph, no Canadá, sugeriu que os zoos supervalorizavam seu papel na conservação.
Mas cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, responderam com dados expressivos: o número de anfíbios em risco mantidos para reprodução nos zoológicos, por exemplo, pulou de cinco espécies em 1990 para 56 em 2009, um aumento de 1 020%. Os mesmos cientistas, porém, reconheciam que o aumento é tímido diante da realidade assustadora da extinção: no mesmo período, o número de espécies de anfíbios ameaçadas saltou de 57 para 1 895, um crescimento explosivo de 3 220%.

LINCE IBÉRICO -- Número de animais: 110; zoológico envolvido: Berlim; ação: os especialistas atuam como "casamenteiros", incentivando o acasalamento durante o período fértil e buscando parceiros viáveis para todos os linces. Em Portugal, o Programa Lince busca recuperar o habitat desse que é um dos animais mais gravemente ameaçados de extinção no planeta
No cômputo geral, o impacto efetivo dos zoológicos no combate à extinção ainda é incipiente. Para determinadas espécies, entretanto, tem sido substancial.
E representa uma mudança revolucionária na identidade dos zoos. A origem remota do zoológico é aristocrática: pelo menos desde o século XII, reis europeus colecionavam animais selvagens como leões e leopardos. O mais antigo dos jardins zoológicos modernos é o de Viena, construído em 1752 e ainda em atividade. Mas zoos itinerantes já existiam há mais tempo, viajando de província em província com seus shows de animais.
As condições em que os bichos viviam eram tenebrosas: em 1720, em Londres, um elefante morreu após beber litros e litros de cerveja oferecida pelos visitantes. No século XIX, os zoos se converteram em vitrine da expansão colonial das potências europeias.
Hoje, o fascínio dos animais está mais próximo da cultura da celebridade que de ambições imperialistas. É o que atestam a fama global do urso-polar Knut – nascido no Zoológico de Berlim, o maior do mundo, com 17 500 animais – e a comoção com sua morte, aos 4 anos, em 2011, por afogamento, resultado de uma provável encefalite. Em 2007, quando o irresistível Knut passou a conviver com o público, o zoo de Berlim teve o ano mais lucrativo de seu mais de século e meio de história.

ELEFANTES AFRICANOS -- Número de animais: 10 000, contra 400 000 na década de 70; zoológicos envolvidos: Pittsburgh e Indianapolis (EUA); ação: o zoo de Pittsburgh criou o primeiro banco de esperma de elefantes na América do Norte. A ideia é congelar o sêmen de elefantes vindos da África do Sul e produzir novas linhagens através de inseminação artificial. A primeira instituição a desenvolver essa linha de ação, porém, não foi um zoológico, mas o Instituto Leipzig, de Berlim, com o Projeto Dumbo Congelado
Para os visitantes, o zoo será sempre um lugar de encanto quase infantil. Inquiridos sobre o tema, os turistas que alimentavam a girafa quando a reportagem de VEJA visitou o Safari Park de San Diego nada sabiam sobre as atividades preservacionistas realizadas nas vizinhanças.
A experiência ímpar de ter a mão lambida por uma girafa, porém, obviamente depende de um fato incontornável – a sobrevivência das girafas. Os zoológicos contemporâneos mostram-se conscientes desse fato simples: a recreação insubstituível que eles oferecem cobra uma imensa responsabilidade.
“PRECISAMOS SALVAR OS BICHOS QUE ANIQUILAMOS”
Autoridade mundial em preservação de espécies ameaçadas, o zoólogo alemão Thomas Hildebrandt chefia, em Berlim, o Departamento de Reprodução do Instituto Leibniz de Pesquisa em Zoologia e Vida Selvagem, de onde falou a VEJA sobre seu trabalho.

GRANDE INSEMINADOR -- O zoólogo Thomas Hildebrandt, do Projeto Dumbo Congelado: bancos de esperma de elefantes africanos para combater a extinção (Foto: Cíntia Barroso Alexander)
É possível preservar as espécies ameaçadas a partir do zoológico?
Sim. Mas isso exige transformar o zoológico convencional. A ideia é que ele passe a ser não só um lugar de consumo, onde as pessoas vão para admirar os animais, mas também de produção.
O zoo deve ser um centro de criação de populações autossustentáveis, com o uso de tecnologias de reprodução de última geração.
Agora estamos dando um passo além, ao usar o intercâmbio de esperma e embriões para conectar as populações de animais selvagens com exemplares mantidos em cativeiro. Um bom exemplo dessa estratégia é o Projeto Dumbo Congelado. Coletamos uma grande quantidade de sêmen de alta qualidade de elefantes na África do Sul e o preservamos, para que possa ser exportado para zoológicos e centros de reprodução.
Quais os desafios da inseminação artificial e fertilização in vitro em animais?
É preciso estudar os fatos básicos da reprodução de cada espécie antes de aplicar qualquer técnica de reprodução assistida, ou a tentativa pode até ser arriscada. Uma simples anestesia, por exemplo, pode pôr em perigo certos animais.
O senhor é especialista na inseminação artificial de elefantes. É uma operação complicada?
Muito. Mas a tecnologia tem nos ajudado demais. Nos anos 90, ainda éramos dependentes de unidades semiportáteis de ultrassom, que tinham imagens horríveis.
Hoje já conseguimos visualizar com qualidade próxima da perfeição os ovários e o trato reprodutivo de uma elefanta para fazer o encontro programado dos óvulos com o esperma retirado de um macho.
Em 2005, usei um tipo de óculos que me permitiu visualizar, em vídeo, as imagens captadas por uma sonda de ultrassom inserida em Chai, uma elefanta asiática. As elefantas têm detalhes anatômicos estranhos: a abertura vaginal não é externa, mas localizada no interior de uma câmara, o vestíbulo.
E estamos sempre inventando ferramentas para nosso trabalho no esforço de preservar as espécies altamente ameaçadas. A longo prazo, queremos ter um banco com células desses animais. Esperamos que, no futuro, seja possível usar técnicas similares às da clonagem para aumentar o número de exemplares de uma dada espécie.
Há ambientalistas que consideram o zoológico um ambiente inapropriado para um animal, seja qual for a circunstância. O que o senhor pensa disso?
Essa atitude é um aborrecimento. O importante é trabalharmos juntos, e não uns contra os outros. Precisamos de todos os recursos possíveis para preservar e conservar as espécies em perigo.
Meu trabalho será crucial no futuro para ligar populações selvagens com programas de reprodução em cativeiro. As instituições ex situ (que lidam com espécies animais ou vegetais fora de seu habitat) e os zoológicos têm a vantagem de atuar em áreas que não estão sujeitas aos fatores que ameaçam a segurança dessas espécies.
Em geral estão longe, por exemplo, de desastres naturais, como terremotos e erupções vulcânicas, ou de atividades humanas daninhas à biodiversidade, como a caça e a guerra civil.
Quantas espécies o senhor tem congeladas no Instituto Leibniz?
Temos mais de 1 000 amostras de animais em nosso instituto. Mas também queremos seguir a estratégia de estabelecer bancos independentes nos países de origem das espécies ameaçadas de extinção.
Por enquanto, instituições assim existem somente na Tailândia e em Bornéu.
Mas planejamos desenvolver mais estratégias locais, baseadas nos mais diversos países. As nações industrializadas contam com muitas vantagens, mas isso não significa que toda a responsabilidade caiba a elas ou que podem fazer tudo melhor.
O que é preciso mudar no modo como se administram zoológicos?
Já não é mais possível aceitar zoológicos que exibam espécies ameaçadas sem um compromisso mínimo com a reprodução delas. Nem instituições que se limitem a importar os poucos animais que ainda restam para substituir os seus exemplares que vão ficando velhos.
Costumo dizer que o homem contribuiu para aniquilar muitas espécies de bicho. Agora, tem o dever de usar sua criatividade para salvá-las.
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