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Roberto Pompeu de Toledo

04/04/2015

às 19:00 \ Tema Livre

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: Senhas? O melhor talvez seja esquecer todas, ficar completamente blindado, inclusive contra mim mesmo. Não sou eu para nada. Não existo. Melhor assim

(Imagem: 123rf.com)

(Imagem: 123rf.com)

PERDIDO NAS SENHAS

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-Toledo“O homem é o homem e sua circunstância.” Não, esqueça Ortega y Gasset. O homem do século XXI é o homem e suas senhas.

As senhas são sua identidade secreta assim como a identidade secreta do Super-Homem é Clark Kent. Clark Kent é um bobalhão grandão, de óculos. Eu, Joaquim das Neves, sou um bobalhão de óculos, ao entrar na cabine do caixa eletrônico. Mas, ao digitar a senha – “chapa do carro do meu pai quando eu era criança” -, transformo-me num Super-Homem capaz de fazer jorrar dinheiro. No cartão de crédito sou “nosso telefone na infância”; no cartão da farmácia, “nome do meu cão mais os quatro primeiros algarismos do telefone de minha primeira namorada”; no UOL, “nome de minha avó materna mais os quatro primeiros números do telefone da avó paterna”; na Net, “nome da minha irmã mais a chapa do carro do meu cunhado”.

As senhas vão compondo um patchwork de minhas memórias e meus afetos.

Digite seu CPF e, em seguida, seu código de acesso. Lá vai: 033.546.880. E o código de acesso? Deixe-me lembrar. “Telefone do antigo escritório?” Não deu. Você tem mais duas tentativas. “Data de nascimento de minha mãe.” Não deu. Talvez “data de casamento de meus pais”, mas esqueci a data de casamento de meus pais. Vou arriscar. Esta é sua última tentativa. Não, agora me lembro. É “dia e mês de nascimento de minha mãe mais ano de nascimento de meu pai”. Lá vai. Não reconheço esta senha. Desculpe, mas seu acesso será bloqueado.

Para desbloquear, o senhor terá de responder a algumas perguntas. Qual a última loja em que efetuou compras com o cartão? Casas Bahia. Não confere. Cite um estabelecimento em que faz compras frequentes. Padaria Aracaju. Não confere. O senhor não me poderia fazer perguntas mais fáceis? A raiz quadrada de 80 549? Ou o último parágrafo de Ulisses, de Joyce? Diga a data de vencimento de seu cartão. Mas é minha mulher que sempre paga. Desculpe, não posso desbloquear seu cartão. Sou um mero Joaquim das Neves, de quem não se pode reconhecer a identidade porque não sabe o que compra, onde compra e quando paga. Sou um Clark Kent que se atrapalha na hora de trocar a roupa, na cabine telefônica, e por isso não consegue voar.

No plano de saúde sou “nome da primeira professora mais dia do aniversário do tio Jorge”. Ou será que sou “três primeiras letras da rua da infância mais os três algarismos do número da casa”? Não. Deve ser “telefone do primeiro emprego mais nome do avô da minha mulher”. Estou confuso. Sofro de uma crise de asma, estou a ponto de morrer, e não consigo lembrar mais nada: casamento dos pais, nascimento do filho, sobrenome do patrão, nome do cachorro, marca da primeira bicicleta, time do coração, chapa do automóvel, telefone da tia Alzira.

Estou bloqueado no cartão e na vida, por isso vou morrer neste saguão, e em minha lápide escreverão: “Aqui jaz alguém que esqueceu sua senha, portanto é inútil tentar identificá-lo”.

Certa vez experimentei uma senha única para tudo, mas me alertaram: “Não é aconselhável usar a mesma senha para diferentes serviços”. Também é aconselhável trocar a senha de tempos em tempos. Eis-me com uma multidão de identidades, o que equivale a não ter nenhuma. Serviria para fornecer um bonito painel da minha vida, mas não para viver – como viver sem senha?

Qual o seu nome? Joaquim das Neves. CPF? 033.546.880. Telefone, com código de área? (12) 8456-7890. Agora digite sua senha, composta de números, letras e sinal. Tente outra vez, pausadamente. Errou de novo, infelizmente não poderemos atendê-lo. Mas se eu já dei meu nome, CPF, telefone? Se quiser, posso dizer o nome de minha avó, do cachorro, do time favorito, o número de meu primeiro telefone, o da chapa do primeiro automóvel, o da data de nascimento de minha filha – o que não sei é combiná-los de forma a satisfazê-lo, senhor. Desculpe, senhor Joaquim das Neves, se é que o senhor se chama mesmo Joaquim das Neves, se é que o senhor é o senhor, se é que tem existência real.

Uma vez anotei todas as senhas. Mas onde guardar a anotação? E como lembrar onde foi guardada, depois? Seria preciso outra anotação, com o lugar onde foi guardada, mas onde guardá-la? Não. Anotar também não é aconselhável. A conclusão é que o mais seguro de tudo é esquecê-las todas. Pronto. que.

27/06/2014

às 19:57 \ Tema Livre

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: imaginamos tanto que, na verdade, esquecemos o que é a Copa

(Foto: Getty Images)

O fantasma do “imagina na Copa”: e se o Mundial continuar sem o Brasil? (Foto: Getty Images)

IMAGINA NA COPA

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-Toledo1. Imagina na Copa. De tanto imaginarmos, esquecemos do principal: que Copa é um congregado-monstro de estrangeiros em férias, e, como tal, com o compromisso primeiro de divertir-se.

O bom humor dos estrangeiros sufocou o mau humor nacional. Não há desorganização ou falta de infraestrutura que derrube o ímpeto de quem vem para festejar.

O clima entre os estrangeiros contagiou os nacionais e, pelo menos até agora, o que se teve foi o Brasil em suspenso, flutuando no ar entre um outono de todos os descontentamentos e uma campanha eleitoral que se anuncia sangrenta.

2. O maior gol contra do jogo de abertura não foi o do lateral Marcelo. Foi o da turma do xingamento contra Dilma. A presidente, que entrara em campo derrotada de goleada pelos desenganos nos preparativos para o evento, ali virou o jogo. Saiu como a mártir da selvageria vip. O PT ainda terá muito a aproveitar do inglório episódio.

3. Considerado todo o elenco da atual seleção brasileira, apenas um jogador tem apelido – Hulk. Nota-se ao mesmo tempo a tendência para a identificação com nome e sobrenome (Daniel Alves, Thiago Silva) ou nomes duplos (Luiz Gustavo, David Luiz).

O fenômeno talvez reflita a influência do modo europeu de chamar os craques (e as pessoas em geral) ou talvez consista numa tentativa de nobilização, contra os nomes com origem na vida de moleques, mal saída do ambiente da senzala, como Didi, Pelé ou Garrincha.

4. Já os nomes da seleção de Portugal, do goleiro Rui Patrício ao meio-campo João Moutinho, conduzem aos romances portugueses do século XIX. O insuperável Fábio Coentrão podia ser um cunhado do padre Amaro ou um dos pretendentes à morgadinha dos Canaviais.

Duas Copas atrás Portugal contava com um jogador que, sem medo de ser feliz, se chamava Luís Boa Morte.

5. Arena era o local em que os romanos assistiam aos gladiadores estriparem-se entre si ou ser estripados pelas feras.

Estádio era onde os gregos encenavam as competições esportivas, entremeadas de danças e torneios de poesia.

O local em que se jogava futebol era estádio; agora é arena, uma moda que não nasceu no Brasil – foi importada e aqui oficializada pela poderosa Fifa. A truculência romana venceu a graça grega, um espelho dos nossos tempos.

6. Jogador careca já entra em campo perdendo. Não tem penteado moicano, fios pintados de amarelo nem espanador a coroar-lhe o cocuruto. Poderia quem sabe arriscar uma tatuagem na careca, mas isso, salvo engano, ninguém ainda tentou. Acresce que parece velho e que infelizmente seja mentira que elas gostem mais deles.

O holandês Robben tinha contra si esse rol de improbabilidades, ao abraçar a carreira de futebolista. No entanto, é o homem-flecha da Copa, o orgulho da classe e prova de que há futuro mesmo para craques que jamais seriam convidados para anúncios de cuecas.

7. Mestres-escolas implacáveis mostram-se os avaliadores da atuação dos jogadores nos jornais. Robben acabou com a Espanha, e recebeu 9 da Folha de S. Paulo. Outro holandês, Van Persie, fez gol candidato a mais bonito da Copa e ganhou também 9. Um avaliador convidado, o publicitário Washington Olivetto, deu também 9 a Robben e rebaixou Van Persie a 8,5.

Ô Was­h­ington, que mais será preciso fazer para ganhar 10? O goleiro Ochoa, do México, que fez milagres contra o Brasil, também ganhou 9 da Folha e do convidado, dessa vez Serginho Groisman. Parece que precisaria caprichar mais.

8. A Espanha dos últimos anos caracterizou-se por um jogo morrinha, o mesmo que antigamente no Brasil se chamava de “jogar de lado”. Foi campeã em 2010 ganhando quatro dos sete jogos por 1 a 0, perdendo um (Suíça, por 0 a 1), e aplicando contra a inofensiva Honduras seu maior placar (2 a 0).

No Barcelona, do qual foi importado, o estilo funciona porque uma hora a bola sobra para Messi, que, ao contrário, joga em direção ao gol. Agora, junto com a eliminação da Espanha, caem de quebra, para o bem do futebol, o injustificado prestígio do jogo sonolento e o fetiche da “posse de bola”.

9. O mau desempenho do Brasil contra o México ressuscitou o fantasma do “imagina na Copa”. Imagina na próxima etapa da Copa, se o Brasil for logo eliminado. Imagina a Copa no Brasil sem o Brasil.

17/05/2014

às 19:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: NOTAS PRÉ-COPA

felipão

“Derrotado o time de Felipão, o torneio passaria a ser uma festa de argentinos, espanhóis, italianos, ingleses e outros, com o Brasil pagando a conta” (Foto: Marcelo Ferrelli/Gazeta Press)

“O craque Renan Calheiros, agora com cabeleira que ameaça a de David Luiz, soube jogar de olho na tabela – tanto enrolou que fez a CPI da Petrobras enroscar com o Mundial. O assunto Petrobras morreu”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-Toledo1. Copa do Mundo seria melhor com um pouco menos de patriotadas. No México havia (ainda há?), pouco antes da competição, a cerimônia de “embandeiramento” do time nacional. Nesse momento o time passava a representar a nação. No Brasil, sem a mesma pompa de Estado, mas presente ao fundo uma enorme bandeira nacional, o anúncio dos jogadores convocados procurou igual efeito.

O técnico Luiz Felipe Scolari, antes de desfiar a lista, pediu que todos – “comissão técnica, direção da CBF, imprensa, torcedores” – nos unamos em torno do mesmo “norte”, ainda que discordando desta ou daquela convocação. Mais tarde, ao vivo no Jornal Nacional, disse que era hora de todos os brasileiros vestirem a “camisa amarela”. À sua maneira, embandeirou a seleção.

2. Copa do Mundo também seria melhor sem intoxicação publicitária. Mais do que ninguém os publicitários deveriam saber que tudo o que é excessivo cansa. E, no entanto, dá-lhe Felipão vendendo carro, televisores, assinatura de telefone celular. Dá-lhe Neymar vendendo tudo. Antes de começar a Copa já enjoou. Sorte que depois do apito inicial do jogo inicial o enjoo passa. Cura-o a atração irresistível da bola correndo.

3. Felipão preocupou-se à toa com eventuais discordâncias agudas na convocação. Não houve dissenso nem poderia haver. Tirando Neymar, os outros 22 poderiam ser substituídos por outros 22 sem diferenças acentuadas. Isso não é sinal de pujança do futebol brasileiro; é sinal de nivelação por baixo dos estoques de craques.

4. Outra razão para a falta de dissenso é a carência de identificação dos torcedores com os jogadores. Muitos dos convocados saíram tão cedo do país que nem disputaram campeonatos de primeira divisão no Brasil. De repente aparece um sujeito chamado Luiz Gustavo, ou um sujeito chamado Hulk, de quem nunca se ouvira falar e que, sem ter vestido a camisa de nenhum grande clube brasileiro, agora é titular da seleção.

Ou é reserva, como o sujeito chamado Dante. Além das torcidas clubísticas, havia também as rivalidades regionais. Paulistas e cariocas disputavam quem forneceria mais quadros para a seleção. Hoje, a disputa possível seria se serão convocados mais ingleses ou mais espanhóis, quer dizer: mais entre os que jogam na Inglaterra ou mais entre os que jogam na Espanha.

5. Felipão é esperto. Ao embandeirar a seleção, busca duplo efeito. Primeiro, formar a famosa “corrente pra frente”. Segundo, dividir responsabilidades. Mostrando-se desunidos, os brasileiros serão também culpados, se sobrevier a cruel desdita da derrota. Ele tem plena noção da carga que lhe pesa nos ombros. O pior cenário é a desclassificação prematura.

Já nas oitavas de final, é mais do que possível que o Brasil venha a enfrentar ou a Holanda, que o desclassificou em 2010, ou a Espanha, a campeã naquela ocasião. Derrotado o time de Felipão, o torneio passaria a ser uma festa de argentinos, espanhóis, italianos, ingleses e outros, com o Brasil pagando a conta. As massas poderão se excitar.

6. Pior que o vexame no campo de jogo será o eventual vexame do despreparo para o evento. Prometeram-se investimentos que não vieram. A famosa “mobilidade urbana” será a de sempre, com forte tendência imobilizante, atenuada quem sabe apenas por puxadinhos nos aeroportos e decretação de feriados em dias de jogo.

Alguns dos estádios só ficarão prontos na última hora, e tomara que se mostrem seguros. Tomara que não falte energia no pico das comunicações que cruzarão o planeta. Se isso tudo ocorrer razoavelmente a contento (completamente a contento não é mais possível) e se não houver torcedor com volúpia de jogar vaso sanitário no adversário, será um alívio.

7. A Copa continua um risco para o governo, mas na semana passada funcionou a favor. O craque Renan Calheiros, agora com cabeleira que ameaça a de David Luiz, soube jogar de olho na tabela – tanto enrolou que fez a CPI da Petrobras enroscar com a Copa. O assunto Petrobras morreu. Agora é Copa. O embandeiramento da seleção marcou o início de seu reinado.

11/05/2014

às 16:00 \ Livros & Filmes

LEITURA DE FIM DE SEMANA: Para Roberto Pompeu de Toledo, o extraordinário livro “Anatomia de um Instante” é análise política com um toque de tragicomédia

O tenente-coronel Tejero, arma empunhada, no fatídico 23 de fevereiro. (Foto: A. Robert Lauer/Universidade de Oklahoma)

O tenente-coronel golpista Tejero Molina, arma empunhada, no fatídico 23 de fevereiro de 1981 (Foto: A. Robert Lauer/Universidade de Oklahoma)

Este crítica de Roberto Pompeu de Toledo foi publicado há tempos, na edição impressa de VEJA de 26 de dezembro de 2012.

Roberto, porém, comenta um livro extraordinário, imperdível, o livro de um escritor de ficção que esquadrinhou como nenhum jornalista conseguiu a tentativa de golpe contra a democracia na Espanha tentado a 23 de fevereiro de 1981. Um livro que li há tempos, que é sempre atual e que recomendo aos amantes da democracia e aos apreciadores de excelentes escritores.

A leitura do texto de Roberto é tão prazerosa quanto a da obra de Javier Cercas.

A ÉTICA DA TRAIÇÃO

Roberto-Pompeu-de-ToledoNosso tempo consagrou um novo tipo de estadista, com atributos e funções diversas do estadista clássico – o herói da retirada.

O conceito é do poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, num artigo em honra do ex-presidente de governo espanhol (cargo equivalente ao de primeiro-ministro) Adolfo Suárez.

“Herói da retirada”, exemplificou Enzensberger, é Mikhail Gorbachev. É o herói do desmonte, da demolição. Coube-lhe, ao captar o significado de seu momento histórico, exacerbar até a ruína o regime no qual nascera, se criara e seguira carreira até o supremo topo.

O herói da retirada é um herói paradoxal. Escolhido como a pessoa mais bem situada para garantir determinado estado de coisas, faz o contrário; mata aquilo que em princípio deveria fazer reviver.

Outro exemplo de Enzensberger é o general Wojciech Jaruzelski, fiel servidor do regime comunista polonês a quem coube levá-lo aos escombros. E outro ainda é Suárez, cria do fascismo franquista a quem coube dilapidar-lhe a herança e construir uma democracia como a Espanha jamais conhecera.

O conceito do herói da retirada é o ponto de partida (e de chegada) de um dos melhores, senão o melhor lançamento de 2012, no gênero história/política: o livro Anatomia de um Instante, do espanhol Javier Cercas.

O tema do livro é a tentativa de golpe de estado ocorrida, em 1981, contra uma democracia espanhola então jovem de apenas cinco anos.

Às 18h23 do dia 23 de fevereiro daquele ano, um grupo de 186 integrantes da Guarda Civil espanhola, armados de revólveres e metralhadoras e comandados pelo tenente-coronel Antônio Tejero Molina, adentrou ruidosamente o recinto do Congresso dos Deputados, no centro de Madri, aos gritos de “silêncio”, “todo mundo no chão”.

A maioria dos cerca de 350 deputados presentes obedece. Mesmo porque os golpistas, tomados por estulto desatino, não demoram em disparar as armas, fazendo-as zunir pelo recinto.

Adolfo Suárez, sentado na primeira poltrona da direita da primeira fila do hemicírculo – a cadeira do presidente do governo – não obedece. Permanece sentado, em silenciosa resistência, “sozinho, estatuário e espectral, em meio a um deserto de cadeiras vazias”.

O espanhol Javier Cercas tem a política entre seus temas favoritos. (Foto: La Tercera/Getty Images)

O espanhol Javier Cercas tem a política entre seus temas favoritos (Foto: La Tercera/Getty Images)

Este é o “instante” do título do livro. Em torno dele o autor vai girar com a insistência da sinfonia que retorna repetidas vezes à mesma melodia, para extrair-lhe os múltiplos significados.

Sob a aparência burlesca do tenente-coronel Tejero, de bigodão, chapéu tricórnio e pistola na mão, sugerindo cena de República das Bananas, escondia-se uma ação articulada com altos setores do Exército.

Com o país em crise econômica, cansado das tramóias parlamentares, e sob a permanente ameaça do terrorismo basco, poderia ter dado certo, não lhe tivesse faltado o item de que mais necessitava – o apoio do Rei Juan Carlos. Os deputados permanecerão sequestrados no prédio do Congresso até a rendição dos golpistas, na manhã seguinte.

Anatomia de um Instante é um prodígio de reconstituição histórica e de análise política, mas não só. Nas mãos do romancista que é Javier Cercas, o teatro da política eleva-se ao patamar da tragicomédia humana.

Cercas é um dos mais talentosos autores espanhóis do momento. Os temas políticos estão entre seus preferidos. Ao abordá-los, o faz com especial sensibilidade para o detalhe, onde, como sabem os bons romancistas, residem as epifanias, e é assim que um seu livro anterior, Soldados de Salamina, também se assenta num “instante”: aquele em que um combatente republicano na Guerra Civil espanhola (1936-1939) tem a oportunidade de matar um importante quadro das hostes fascistas, mas não o faz.

Em torno desse fato a história se desenrolará, assim como, desta vez, será em torno de uma recusa de deitar-se no chão.

O gesto de Suárez, escreve o autor, é em primeiro lugar um óbvio gesto de coragem.

É também “um gesto de graça, um gesto de rebeldia, um gesto soberano de liberdade” – e um “gesto póstumo”, dado que o então desgastado Suárez, àquela altura já destituído da presidência do governo, só aguardava a confirmação do sucessor, a ser realizada naquela mesma sessão do Congresso, para deixar o cargo.

E é também, sem nenhuma contradição com a coragem, a graça, a rebeldia e a afirmação de liberdade, um “gesto histriônico”, dado o ator consumado que, como qualquer político puro, Suárez também era.

Adolfo Suárez, aqui retratado em 1977: “um gesto de graça, um gesto de rebeldia, um gesto soberano de liberdade” (Foto: Hulton Archive/Getty Images)

Javier Cercas vai buscar em Jorge Luis Borges a ideia de que a cada um o destino reserva um instante, único e solitário, em que a pessoa revelará quem é, ao mundo e a si mesma.

Suárez teve ali o seu instante.

O assalto ao Congresso foi filmado pelas câmeras de segurança que, durante bom tempo, permaneceram ativas. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

03/05/2014

às 20:30 \ Livros & Filmes

Roberto Pompeu de Toledo: O Corvo e o Anjo Negro

carlos lacerda

“A República das Abelhas” conta a história da família de Carlos Lacerda e parte da história do Brasil (Foto: Jornal Opção)

“Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoUma porta lateral se abriu e apareceu um negro alto, rijo, bem-vestido. O ano é 1945 e o cenário, a chefia de polícia do Rio de Janeiro, onde está sendo interrogado um certo Euclides, acusado de ter provocado e agredido, numa confeitaria, o político e jornalista José Eduardo de Macedo Soares, crítico contumaz do ditador Getúlio Vargas.

Sob pressão intensa da imprensa oposicionista, naqueles extertores do Estado Novo em que o regime já não tinha forças para impor-se com o instrumento da censura, o chefe de polícia concordara em permitir que interrogadores independentes questionassem Euclides.

Pergunta daqui, pergunta dali, e enfim o acusado confessa: trabalhava para a guarda pessoal de Getúlio.

O negro só observava, calado.

Um dos interrogadores era outro jornalista, crítico ainda mais contumaz e acerbo do ditador: Carlos Lacerda. O chefe de polícia interrompeu o interrogatório. Se a investigação conduzia à Presidência da República, não era ele quem lhe daria continuidade. O negro não abriu a boca. Nem precisava.

O episódio consta do excelente A República das Abelhas, recém-lançado livro de Rodrigo Lacerda. O autor, romancista com livros premiados no currículo, é neto de Carlos Lacerda. A República das Abelhas é uma crônica familiar com meio século da história brasileira como pano de fundo.

Começa com Sebastião Lacerda, que foi político e juiz do Supremo Tribunal Federal, passa por Maurício Lacerda, filho de Sebastião, caso raro de advogado e deputado que, na República Velha, se distinguiu pela defesa dos trabalhadores (era “o tribuno da plebe”, diziam), e desemboca no filho de Maurício, Carlos Lacerda, antigo comunista que virou campeão do anticomunismo.

Tal qual o concebeu Rodrigo, o livro é narrado por um Carlos Lacerda que, já morto, repassa a própria vida e a dos antepassados. Sobre o negro daquele dia, o Carlos Lacerda do livro diz: “Tinha uma presença forte, porém não lhe demos maior importância”.

Se o Carlos Lacerda de 1945 já era o algoz de Getúlio, muito mais o seria o de agosto de 1954, mês em que se dá o famoso atentado da Rua Tonelero. Lacerda chegava em casa, à noite, acompanhado do major da Aeronáutica Rubens Vaz, quando um pistoleiro abrigado sob uma árvore disparou tiros que mataram Vaz e o feriram no pé.

Seguiu-se, em clima de insurreição, investigação da Aeronáutica que levou, de novo, à guarda pessoal de Getúlio e à figura de seu chefe – o negro Gregório Fortunato, apontado como mandante. “Foi quando reconheci o negro soturno que, em 1945, assistira ao interrogatório”, diz o Carlos Lacerda do livro.

A figura de Gregório finalmente emergia à luz do dia. Ele acumulara poderes que lhe permitiam traficâncias diversas, nos altos escalões do governo, mas era sobretudo o anjo da guarda de Getúlio – o “Anjo Negro”, como passou a ser chamado. Apelido por apelido, Lacerda ganhara o de “Corvo” do jornalista rival Samuel Wainer.

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

O encontro do Corvo e do Anjo Negro, este ainda que por interposta pessoa, na escuridão da noite da Rua Tonelero, confere um significado ao mesmo tempo sinistro e caricatural ao cruzamento dos destinos desses personagens tão marcantes do período, um sempre calado, o outro um dos verbos mais devastadores da política brasileira, um agindo nas sombras, o outro mais exposto impossível.

Mas o livro de Rodrigo narra ainda um último encontro entre os dois, de novo à noite, ocorrido quando Lacerda, agora governador da Guanabara, foi ao presídio da Rua Frei Caneca para tentar aplacar uma rebelião de presos.

Os presos não acreditaram, a princípio, que quem despontava no pátio era o governador. Continuaram a batucar em torno de uma enorme fogueira feita com restos de móveis e colchões. “De repente, do meio da escuridão e esgueirando-se por entre os corpos que rodeavam o fogo, surgiu Gregório Fortunato”, conta o Carlos Lacerda do livro.

“Eu o reconheci imediatamente, e ele a mim.” Gregório cumpria pena pelo crime de 1954 e Lacerda chegou a temer que ele viesse a se aproveitar da “chance inédita, quase miraculosa”, para se vingar. Não. Ao contrário, “como um autêntico Anjo Negro, vagaroso e soturno”, foi até os líderes da rebelião, e o clima mudou.

Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem. Vivia-se, à luz indecisa da fogueira, o extraordinário momento em que o Anjo, amansado, colaborou com o Corvo.

26/04/2014

às 19:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: André Vargas é exemplo acabado da mutação genética do espécime chamado “petista”

André Vargas e o gesto que já virou hábito: levantar o braço como na velha saudação comunista — no caso, para provocar Joaquim Barbosa (Foto: Agência Câmara)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

“Vou atuar”

Roberto-Pompeu-de-Toledo

Quando o amigo doleiro Alberto Youssef desabafou, exasperado e súplice, “Tô no limite. Preciso captar”, segundo diálogos registrados pela Polícia Federal e revelados por VEJA, o deputado André Vargas respondeu, resoluto: “Vou atuar”.

André Vargas, do PT do Paraná, até há pouco vice-presidente da Câmara dos Deputados, já se celebrizara pelo gesto de levantar o braço, como provocação ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, sentado a seu lado.

Ao gesto agora acrescentava uma divisa, na forma de uma sentença tão curta quanto prenhe de pesporrência (bela palavra; o colunista agradece ao deputado a oportunidade de usá-la): “Vou atuar”.

André Vargas é exemplo acabado da mutação genética do espécime chamado “petista”. Ele nasceu em Assaí, perto de Londrina, no Paraná, um mês antes do golpe de 1964. Tem 50 anos, portanto, e entrou no PT aos 26, em 1990.

Gloriosos tempos esses. O PT era a estrela que apontava para uma sociedade mais justa e costumes renovados na política brasileira. Quando se tornou poderoso, o PT passou a qualificar de “udenistas” os adversários que o atacam com a arma da moral e dos bons costumes.

Naquele tempo a UDN ressurreta era o PT. Seu empenho foi decisivo para a derrubada do presidente Collor, em 1992. Nada mais atraente para um jovem idealista do que um partido como esse. (Suponhamos que André Vargas tenha sido um idealista; é o que de melhor podemos fazer por ele.)

Sua ascensão foi rápida. Em 1991, já era membro do diretório municipal de Londrina. Em 1997, deixou-o para instalar-se em Brasília, como chefe de gabinete do deputado Nedson Micheleti.

Quando se dá a mutação de um jovem idealista para um “Vou atuar”?

Os fenômenos da evolução são infelizmente infensos a respostas com o grau desejável de precisão. No caso, Brasília talvez tenha contado. Com certeza poder e dinheiro contam.

Em 1998, Vargas trabalhou na campanha dos candidatos Paulo Bernardo, do PT, a deputado federal, e Antônio Carlos Belinati, do PSB, a esta­dual. Era uma estranha dobradinha. O parceiro de Paulo Bernardo, o atual ministro das Comunicações, era filho de Antônio Belinati, três vezes prefeito de Londrina, o qual em tantas se meteu que teve o mandato cassado, em 2000, e chegou a ser preso.

Na campanha envolveu-se o agora famoso Youssef, e foi nessa ocasião, segundo o jornal O Globo, que Vargas o conheceu. A campanha resultou em escândalo; para alimentar a do filho, segundo investigações, papai Belinati desviou dinheiro da prefeitura.

Os amigos de Vargas: primeiro, XXX e XXX. Agora, Alberto Youssef. (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

Os amigos de Vargas: primeiro, Paulo Bernardo e Antônio Carlos Belinati. Agora, Alberto Youssef (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

O dinheiro começava a passar por perto do nosso suposto jovem idealista. Não por acaso, era uma época em que o PT começava a acumular poder. Em 2000 ganhou a prefeitura de São Paulo, com Marta Suplicy, e a de Londrina, com Nedson Micheleti, o deputado do qual Vargas fora chefe de gabinete. No ABC paulista, o mais antigo feudo petista, Celso Daniel foi eleito pela terceira vez.

O caldo de cultura que transforma o idealismo em “Vou atuar” estava formado. Celso Daniel foi morto dois anos depois. Nedson Micheleti, ao fim de dois mandatos de prefeito, seria condenado por improbidade administrativa. André Vargas, enquanto isso, empreendia a irresistível ascensão que o levou de vereador em Londrina a deputado estadual e, em 2006, a federal.

Distinguiu-se, nessa qualidade, pelas posições ultrapetistas de defesa dos mensaleiros e do controle da imprensa. Essa era sua face pública. Nos bastidores, atuava. As entranhas de seu mundo começaram a vir a público no fatídico dia em que Youssef lhe forneceu um jatinho para viajar com a família para João Pessoa.

Que quer dizer “vou atuar”?

O diálogo em questão sugere que seja em favor de gestão junto ao Ministério da Saúde para a conclusão de falcatrua envolvendo um laboratório de propriedade do doleiro. É razoável supor que essa seja uma de muitas atuações. E André Vargas não está sozinho.

O caso Petrobras, como último e culminante de uma série, revela quantos outros atuam. O espécime petista, tal qual conformado pela mutação sofrida, em simbiose com uma base aliada que no geral nem precisou mudar – já nasceu assim -, fez do Estado brasileiro um mar nunca dantes visto de atuações.

Pobre Dilma. Seu governo está bichado.

A corrupção generalizou-se a ponto de ser parte sem a qual o sistema não sobrevive. E ainda tem a economia. E ainda tem a incompetência. Seu governo faliu.

05/04/2014

às 19:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: Dois gestos

Bellini-placar

Bellini, o inesquecível capitão da Seleção de 1958, e o gesto que imortalizou (Foto: Placar)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

DOIS GESTOS

Hideraldo Luís Bellini e Adolfo Suárez González, dois personagens falecidos nas últimas semanas, tinham em comum o fato de se terem congelado cada qual em um gesto célebre.

Hideraldo Luís Bellini, para quem não está ligando o nome à pessoa, é o Bellini capitão da seleção brasileira de 1958, a primeira a ganhar a Copa do Mundo. Seu gesto foi estender os braços e erguer a taça acima da cabeça, traduzindo a conquista em efígie épica.

Adolfo Suárez é o político espanhol que, em 1976, foi nomeado primeiro-ministro (ou “presidente de governo”, como se diz por lá) pelo rei Juan Carlos com a delicadíssima missão de conduzir a transição da ditadura do general Francisco Franco para a democracia.

Seu gesto foi, cinco anos depois, quando um bando de estouvados golpistas invadiu as Cortes (o Parlamento espanhol), começou a atirar a esmo e mandou os deputados se deitar no chão, ter permanecido teimosamente sentado, “sozinho, estatuário e espectral”, como descreveu o escritor Javier Cercas, autor de brilhante livro sobre o assunto (Anatomia de um Instante), enquanto os outros rastejavam atrás das bancadas.

 

Durante a tentativa de golpe contra a democracia na Espanha, Adolfo Suárez (à esq.) enfrentou os militares golpistas que acossavam seu vice para assuntos de Defesa, o general Gutierrez Mellado (Foto: EFE)

Durante a tentativa de golpe contra a democracia na Espanha, em 1981, Adolfo Suárez (à esq.) enfrentou no plenário do Parlamento os militares golpistas que acossavam seu vice para assuntos de Defesa, o general Gutierrez Mellado (Foto: EFE)

[Suárez teve um segundo gesto, que merece ser lembrado: ao ver que militares golpistas, armados, agarravam seu vice para assuntos de Defesa, o septuagenário general da reserva e deputado Gutierrez Melado, afastou-os no grito.]

Há estranhas coincidências na vida desses dois homens tão diferentes, de países diferentes e de universos diferentes como o esporte e a política.

Ambos, para começar, eram considerados medíocres no que faziam. Bellini impunha-se nos gramados pelo porte físico. Todos os companheiros da seleção de 1958 eram tecnicamente melhores do que ele.

Adolfo Suárez foi péssimo estudante, formou-se em direito aos trancos e barrancos e ascendeu na política à custa de espertezas.

Bellini foi escolhido capitão porque era zagueiro (reza a cartilha do futebol que zagueiros dão melhores capitães), porque era branco (em 1958 vigia a lenda de que o Brasil perdera as copas anteriores por excesso de negros no time) mas também porque era um homem reto e tinha espírito de liderança.

Adolfo Suárez, “o protótipo perfeito do arrivista que a corrupção generalizada do franquismo criou”, segundo Javier Cercas, nem fama de homem reto tinha ao ser escolhido para o cargo. Causou surpresa e desconfiança que um homem com raízes no passado ditatorial tivesse sido incumbido de conduzir o processo destinado à democratização.

Os dois se superaram em seus papéis.

Bellini foi o capitão exemplar. Se não tinha a técnica, encarnou o empenho e a entrega ─ a “raça”, como se diz no futebol, que também foi característica daquele time, e de outros times que defendeu. Virou o paradigma do capitão no futebol brasileiro.

Suárez, para completa surpresa dos compatriotas, assumiu em sua inteireza a nova persona de democrata e com coragem e habilidade, além das habituais espertezas, levou a bom termo a missão. Tanto grudou em sua pessoa a causa da democracia que até se arriscou por ela, naquele fim de tarde nas Cortes, com seu gesto solitário, enquanto as balas zuniam.

O gesto de Bellini não teve perigos a cercá-lo, mas coincide com o de Suárez na solidão que igualmente o caracteriza. Levantar a taça virou praxe, depois que ele inventou tal procedimento, mas foi assumindo novas feições.

Hoje não é mais um gesto solitário. Depois de erguida pelo capitão, a taça vai passando de mão em mão entre os demais jogadores, enquanto todos pulam, gritam e cantam. O que era celebração de triunfo em modo hierático como de general romano virou carnaval.

Por que Bellini levantou a taça? “Porque todos queriam vê-la e fotografá-la”, respondeu mil vezes o capitão.

Por que Suárez se manteve sentado? “Porque um presidente de governo não deve nunca deitar-se ao chão”, respondia o dirigente espanhol.

A vida é assim, simples assim; gestos eternos surgem do nada. Os dois gestos tiveram significado profundo e duradouro para as respectivas pátrias. O de Bellini simbolizou a vitória sobre o complexo de vira-latas. O de Suárez tornou-se a expressão da altivez e da coragem que contribuíram para a consolidação da democracia.

Uma última coincidência entre os dois homens é que ambos viveram os anos finais fulminados pela tragédia da doença de Alzheimer, sem reconhecer os parentes, escondidos em seus cantos, sem saber nem mesmo quem eram, e muito menos lembrar-se de que um dia protagonizaram gestos que ficaram para a história.

A vida também é assim.

22/03/2014

às 19:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: O racismo, o urro e a dor

"Esportistas, depois de uma jornada de triunfo, gozam da delícia de ser conduzidos ao sono pelo filminho em que repassam a proeza do dia. Arouca, naquela noite, teve o filminho sufocado pelos gritos de “macaco” (Foto: Ricardo Saibun / Santos FC)

Esportistas, depois de uma jornada de triunfo, gozam da delícia de ser conduzidos ao sono pelo filminho em que repassam a proeza do dia. O meio-campo Arouca, do Santos, naquela noite, teve o filminho sufocado por gritos racistas (Foto: Ricardo Saibun / Santos FC)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

O URRO E A DOR

O jogador Arouca, do Santos, dava entrevistas ao final do jogo contra o Mogi Mirim, pelo Campeonato Paulista de futebol, quando começou a ser chamado de macaco por torcedores nas arquibancadas.

Arouca é um negro elegante, dentro e fora do campo de jogo, que ostenta orgulhosamente sua negritude no cabelo arrumado ao estilo rastafári.

Ao ouvir os gritos, desconcertou-se. Justamente naquela noite, em que tinha marcado o mais belo gol do jogo, e um dos mais belos da carreira, disparando um chute “de voleio”, com as duas pernas no ar, vinha a ser alvo do ódio selvagem.

A torcida do seu time o tinha saudado com o grito de “Arouca na seleção”.

Os imbecis da arquibancada agora diziam que seleção, para ele, só se for de país africano. O momento de desconcerto, em que interrompe a entrevista, se atrapalha e se cala, revela a enormidade do golpe. Antes de revolta, é a perplexidade que o toma.

Fora atingido por um raio.

Dias antes, o juiz Márcio Chagas da Silva, que apitava o jogo entre os times do Esportivo e do Veranópolis, pelo Campeonato Gaúcho, na cidade de Bento Gonçalves (RS), foi xingado por hordas que, não contentes, riscaram seu carro e o emporcalharam com cascas de banana.

A última do futebol brasileiro é, em troca dos jogadores que vende para a Europa, importar os xingamentos racistas que se ouvem por lá.

Como combater o racismo nos estádios? Como combater o racismo em geral? Não há resposta fácil para tais questões.

No caso de Arouca, a Federação Paulista de Futebol reagiu rápido, interditando o estádio do Mogi Mirim pelo tempo que durar um inquérito a respeito do ocorrido, com a possibilidade de a interdição se prorrogar dependendo das conclusões do inquérito. A medida foi contestada. A punição deveria se restringir aos culpados, não a toda uma coletividade.

Entre uma tese e outra, o colunista Hélio Schwartsman, da Folha de S. Paulo, apresentou uma terceira. Amparado no filósofo Stuart Mill, defendeu a ideia de que “mesmo os piores preconceitos precisam ter sua circulação assegurada”, para que, expostos à plena luz, possam ser contestados e vencidos.

De outro modo, as respostas a tais preconceitos arriscam ser percebidas elas próprias como “simples preconceitos, sem base racional”.

O argumento é inteligente, e impecavelmente coerente com a visão liberal de circulação o mais desimpedida possível das ideias.

Ocorre que, no caso do racismo, não se está tratando com seres racionais. Como vencê-los pelas ideias? Campanhas não faltam. No Brasil e no mundo espalhou-se a moda de exibir faixas e acender letreiros contra o racismo nos estádios.

Ao mesmo passo, multiplicam-se os atos de racismo. Dá até para desconfiar que as campanhas os estimulam.

"No Brasil e no mundo espalhou-se a moda de exibir faixas e acender letreiros contra o racismo nos estádios. Ao mesmo passo, multiplicam-se os atos de racismo. Dá até para desconfiar que as campanhas os estimulam" (Foto: Lucas Prates / Hoje em Dia / Gazeta Press)

“No Brasil e no mundo espalhou-se a moda de exibir faixas e acender letreiros contra o racismo nos estádios. Ao mesmo passo, multiplicam-se os atos de racismo. Dá até para desconfiar que as campanhas os estimulam” (Foto: Lucas Prates / Hoje em Dia / Gazeta Press)

Acresce que o racista do estádio não se exprime por ideias. Sua arma é o xingamento. Nessas circunstâncias, e considerando a habitual incapacidade dos investigadores brasileiros de individualizar os culpados, a interdição dos estádios é o que resta. A desproporção da pena é uma vantagem; garante a repercussão da punição.

Sobra, como ponto último e íntimo da questão, a dor de ser alvo de atos e palavras racistas. Outra vítima, o jogador Tinga, do Cruzeiro, num jogo recente contra o Real Garcilaso, do Peru, era saudado em uníssono com gritos imitando macaco toda vez que pegava na bola. Seu filho, segundo Tinga contou depois, assistia ao jogo pela televisão.

A muitos filhos e muitas mães tem ocorrido o mesmo. Esportistas, depois de uma jornada de triunfo, gozam da delícia de ser conduzidos ao sono pelo filminho em que passam e repassam a proeza do dia. Arouca, naquela noite, teve o filminho de seu voleio sufocado pelos gritos de “macaco”.

A peça Jesus Cristo Superstar está voltando ao cartaz em São Paulo trazendo no papel-título um ator com a estupenda cabeleira de sempre, corpo de atleta, pele clara e olhos que pelas fotos parecem claros. Os pintores do Renascimento terem elegido tal tipo para representar um judeu da Palestina do século I é racismo lá deles, que a história da pintura consagrou e o tempo apagou.

Já numa peça moderninha, que pretende apresentar um Jesus “humanizado”, insistir no modelo equivale a pecar pela base.

21/02/2014

às 18:30 \ Política & Cia

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: Perguntas black bloc

Caio Silva de Souza é um coitadinho? Fábio Raposo Barbosa merece o apelido The Fox? Que sino toca a Sininho? O advogado Jonas Tadeu Nunes veio para esclarecer ou para confundir? (Fotos: Ale Silva / Futura Press :: Simone Marinho / Ag. O Globo :: Fernando Frazão / ABr :: Marcos Tristão / O Globo)

Caio Silva de Souza é um coitadinho? Fábio Raposo Barbosa merece o apelido The Fox? Que sino toca a Sininho? O advogado Jonas Tadeu Nunes veio para esclarecer ou para confundir? (Fotos: Ale Silva / Futura Press :: Simone Marinho / Ag. O Globo :: Fernando Frazão / ABr :: Marcos Tristão / O Globo)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

PERGUNTAS BLACK BLOC

Roberto Pompeu de ToledoO advogado Jonas Tadeu Nunes veio para esclarecer ou para confundir? Ele disse que o jovem Caio Silva de Souza, um dos disparadores do rojão que matou o cinegrafista Santiago Andrade, recebeu 150 reais para participar da manifestação, no centro do Rio de Janeiro, e que a prática de pagar valentões para engrossar as arruaças black bloc é corriqueira.

Jonas Tadeu Nunes tem seu escritório numa pequena sala no 2º andar de um centro comercial no Recreio dos Bandeirantes. Ao lado fica um cabeleireiro. Os preciosos detalhes levantados pela reportagem de O Globo ajudam a compor o personagem.

Ele diz ter entre a clientela atrizes e jogadores de futebol, mas não declina seus nomes. Certo é que já defendeu o ex-deputado estadual Natalino Guimarães, condenado por chefiar uma das milícias que infestam os subúrbios cariocas.

Se o advogado diz a verdade, joga a questão black bloc para o alto. Se é apenas uma tática de defesa, pode um
advogado vir deliberadamente para confundir?

Caio Silva de Souza é um coitadinho? Olhos baixos, palavras sofridamente balbuciadas, rosto de menino, ele era o retrato do desamparo, ao aparecer na GloboNews, entrevistado pela repórter Bette Lucchese. “Você acendeu o rojão?” “Acendi, sim”, diz, baixinho. “Depois você colocou o rojão perto da árvore?” “Eu nem sei, senhora.” O reverente “senhora” dirigido à repórter é um momento alto.

O meninão se desfaz em humildade. Ou estaria desempenhando um papel, sob a direção do advogado? Cenas da manifestação mostram-no desenvolto no enfrentamento com a polícia. Tem 22 anos, é muito pobre, mora em Nilópolis e trabalha como auxiliar de serviços gerais num hospital (leia-se: na limpeza). Parece aparvalhado. Dá dó.

Fábio Raposo Barbosa merece o apelido The Fox? Pela primeira vez nomes, sobrenomes e até apelidos surgem por trás das máscaras do Black Bloc. Fábio foi o primeiro a ser identificado como suspeito. Alegou que apenas passou o rojão a Caio, mas a perícia afirma que os dois o dispararam.

Tem os mesmos 22 anos, e está alguns degraus acima na escala social. Mora num apartamento de propriedade do pai, no Méier, e antes de ser preso se refugiu na casa da mãe, no Recreio dos Bandeirantes. Chegou a começar um curso de ciências contábeis. Hoje é tatuador (ou talvez não seja nada, segundo outra versão).

A raposa (The Fox) é um bicho astuto. Não está claro se Fábio é astuto. É também um bicho rápido. Ele foi rápido em entregar o companheiro.

Que sino toca a Sininho? Continuamos a subir na escala social. Elisa Quadros, de 28 anos, magrinha, cabelo
curtinho e bonitinha, fez curso de cinema e já trabalhou em produtora de vídeo. De junho para cá tornou-se “ativista”, e basta. Esteve em todas. Chegou a ser detida quando os black blocs deram uma mão aos professores em greve.

Exerce liderança entre os manifestantes. Segundo o advogado Jonas Tadeu Nunes, ela teria procurado o deputado Marcelo Freixo para ajudar na defesa de seu amigo The Fox. Ela e Freixo negam.

Num vídeo no YouTube, Sininho culpa a Bandeirantes, assim como as demais emissoras, por lançar seus jornalistas no fogo das manifestações. “E aí, como fica nossa luta?” Que luta, Sininho? Pelo amor de Deus,
que luta?

A namorada que largou o Caio largou também o Black Bloc? Caio ligou para a namorada, assustado, quando soube que tinha sido identificado. Segundo a polícia, ela teve papel, importante, ao fazê-lo desistir da planejada – fuga e entregar-se à polícia.

A namorada não quer identificar-se. Os amigos, segundo a Folha de S.Paulo, dizem que ela é patricinha e mora na Zona Sul. Conheceu Caio em manifestações e já trabalhou na página do Black Bloc no Facebook. Eis-nos, ao que parece, mais um degrau social acima.

A namorada agora  diz que é “ex”. Seu encolhimento sugere uma batida em retirada também do blackbloquismo. Filósofos aloprados classificaram o Black Bloc de “uma estética”. Na atual versão assassina, revela-se um novelo de almas perdidas, confusão mental, desamparo, covardia, deserção, e talvez venda de mão de obra para arruaças.

A última coluna afirmou que o aluguel da residência do embaixador Guilherme Patriota em Nova York custava
54000 dólares mensais. Estava errado. São 54000 reais, não dólares. O colunista já subiu de joelhos escadaria equivalente à rampa do Itamaraty, em penitência. Mas continua achando que o aluguel está caro, e que o Itamaraty também deve penitenciar-se.

07/02/2014

às 14:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: Rolezinho em Lisboa

Comitiva da presidente Dilma Rousseff em Portugal: segredo intrigante (Foto: Expresso / Estadão)

Comitiva da presidente Dilma Rousseff em Portugal: segredo intrigante (Foto: Expresso / Estadão)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

ROLEZINHO EM LISBOA

Roberto Pompeu de ToledoDa comitiva da presidente Dilma acomodada nos melhores hotéis de Lisboa ao apartamento com aluguel de 54.000 dólares ao mês ocupado pelo embaixador Guilherme Patriota em Nova York, o Brasil oficial continua a dar shows de embasbacar os gringos.

Aqui dentro se incendeiam ônibus, caminhão com a caçamba erguida derruba passarela de pedestre, a polícia dá tiro em manifestante que a ameaça com estilete e, para completar os temores do turista que se apresta a vir para a Copa do Mundo, há até o caso, num bairro de Campinas (SP), em que esses santos propugnadores da paz, da concórdia e da comunicação entre os homens, que são os carteiros, precisam da companhia de um segurança para bem cumprir seu trabalho. Já lá fora, ah!, lá brilhamos.

O caso de Dilma é intrigante. O Palácio do Planalto escondeu que, entre os compromissos oficiais na Suíça e em Cuba, a presidente e sua portentosa comitiva fariam escala de algumas horas em Portugal. Quando a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo flagrou a brasileirada em Lisboa, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo explicou (ou foi constrangido a explicar) que se tratou de decisão de última hora, tomada no próprio dia da partida.

Os mesmos repórteres do Estado apuraram, no entanto, que desde dois dias antes o governo português fora avisado da passagem da presidente brasileira e havia sido feita a reserva no premiado restaurante onde Dilma jantaria.

Ao segredo se juntava a mentira, e sobravam duas indagações. Primeira: por que o segredo? Segunda: como foi possível guardá-lo, entre os cinquenta e tantos membros da comitiva?

Nas tentativas de resposta, tateia-se entre conjeturas. Estaria programada uma grande farra em Portugal, entre um compromisso e outro? Não, Dilma não é disso.

Teria a presidente encontro com autoridades portuguesas, ou de terceiro país, para cujo sucesso o sigilo seria vital? Não, não se vislumbra na política externa brasileira item que levasse a tal necessidade.

Quereria ela esconder que jantaria no Eleven, restaurante com recomendação do Guia Michelin e soberba vista para o Tejo? Ora, se Dilma e acompanhantes pagaram eles próprios a conta, cada um a sua parte, como a presidente houve por bem esclarecer de viva voz, por que escondê-lo?

Ou quereria ocultar que a comitiva ocuparia 45 quartos dos nobres hotéis Ritz e Tivoli? Ora, para a missa inaugural do papa Francisco ela também se fez acompanhar de numerosa comitiva, hospedou-se no hotel Westin Excelsior Roma (que se apresenta como “um ícone da dolce vita”), e não viu razão para ocultá-lo. Por que o faria agora?

Sobraria que a presidente, notória motoqueira nas noites de Brasília, fosse possuída daquele prazer secreto das pequenas transgressões, tanto mais saborosas quando cometidas sob o risco de ser descobertas, mas…

Não, não fica bem ao colunista meter-se a intérprete da alma alheia, muito menos da alma presidencial. Voltamos à estaca zero — e nela ficamos, desamparados e impotentes. Quanto a manter o segredo entre tão numerosa comitiva, imagina-se que a informação tenha sido repassada com o máximo cuidado. “Vamos para Portugal, mas não conta para ninguém.” “Para Portugal?” “Psiu, fala baixo.” Alguns teriam sido informados só já a bordo do avião. “Por que Portugal?” “Não sei, a chefa não explicou.” “Onde ficaremos hospedados?” “No Ritz.” “Oba!”

No caso do embaixador Guilherme Patriota, por sinal irmão do ex-chanceler Antônio Patriota, que por sinal é seu chefe na missão brasileira junto às Nações Unidas, a justificativa-padrão para o soberbo imóvel alugado pelo Itamaraty para seu usufruto é que os representantes brasileiros se devem apresentar condignamente no exterior.

Nacional de Lugares Históricos dos EUA, que o Governo Federal brasileiro paga um aluguel de US$ 23 mil mensais (R$ 54 mil) para residência do embaixador adjunto do Brasil na ONU, Guilherme Patriota (Foto: Folhapress)

Nacional de Lugares Históricos dos EUA, que o Governo Federal brasileiro paga um aluguel de US$ 23 mil mensais (R$ 54 mil) para residência do embaixador adjunto do Brasil na ONU, Guilherme Patriota (Foto: Folhapress)

 

Patriota 2°, segundo apurou a Folha de S.Paulo, tem como vizinhos de bairro Woody Allen, Madonna, Bono e Al Pacino. Que faz o representante de um país remediado, cujo desafio atual é manter-se acima da linha d’água que separa os emergentes dos que submergem, em tal companhia? Em vez do pretendido respeito que o endereço possa inspirar, é mais provável que ocorra o contrário.

Não foi Dilma quem inventou as luxuriantes viagens, acompanhada por portentosas comitivas, umas e outras de fazer inveja a ditadores africanos, nem foi Patriota quem introduziu entre os diplomatas brasileiros o hábito de escolher endereços de pasmar um astro do rock.

Isso não os isenta de culpa. Antes a agravam, pelo pecado da reiteração. Poupemo-nos de repisar a cantilena do mau uso dos recursos públicos. Se ao menos eles se tocassem para o ridículo de tais situações… Não se tocam.

 

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