Blogs e Colunistas

Pep Guardiola

24/07/2014

às 16:00 \ Tema Livre

Técnico estrangeiro para a Seleção virou questão acadêmica. Se fosse pra valer, porém, teria faltado combinar com o lado de lá: quem seria louco de assinar um contrato com… a CBF?

(Fotos: Reuters :: AP :: Getty Images :: Martin Rose/Getty Images)

Guardiola, Mourinho, Klopp e Ancelotti: cogitar não paga imposto — mas qual deles faria a loucura de aceitar? (Fotos: Reuters :: AP :: Getty Images :: Martin Rose/Getty Images)

Com a genial e criativa decisão da CBF de trazer de volta o técnico Dunga para resolver todos os problemas da Seleção Brasileira, tornou-se uma questão acadêmica a contratação ou não de um treinador estrangeiro para o time canarinho.

A polêmica, porém, rolou freneticamente durante os poucos dias decorridos entre a estranha demissão de Felipão — que não teve a hombridade de sair de imediato após o fracasso, mas colocou o cargo “à disposição”, como se não estivesse sempre assim diante da direção da CBF — e a formalização de Dunga como seu substituto.

Foi discutida nas emissoras de rádio e TV, nos canais pagos especializados, nas redes sociais e, certamente, nos botecos Brasil afora.

A CBF e seus asseclas, altivos, asseguraram que “nunca” se pensou em treinador estrangeiro, agindo como parte ofendida com a mera cogitação da hipótese. Como se seleções de peso ao longo da história do futebol não tivessem sido comandadas por treinadores não nascido nos países que os times representam.

Os ingleses, inventores do futebol moderno, já foram treinados por um italiano (Fabio Capello, entre 2007 e 2012), o qual, por sinal, está há dois anos no comando da seleção da ultranacionalista Rússia. Na Copa recém-encerrada, abundaram os treinadores de países distintos daqueles de sua seleção — como os técnicos do Chile e da Colômbia (argentinos), de Camarões (um alemão), da Costa Rica (um colombiano)… e por aí vai.

Treinador estrangeiro não diminui seleção alguma, salvo naqueles países com invencível complexo de vira-latas.

O curioso em tudo isso, para mim, ficou concentrado na suposta “altivez nacionalista” da CBF, irritada com a mera possibilidade de arrastar um grande nome de fora do país para a Seleção.

Curioso e engraçado, porque, no caso, faltou combinar com o inimigo, como diz a piada.

Quem, no universo do futebol, acredita que o espanhol da Catalunha Pep Guardiola (Bayern de Munique), ou o português José Mourinho (Chelsea), ou o alemão Jürgen Klopp (Borussia Dortmund) ou o italiano Carlo Ancelotti (Real Madrid) sequer PENSARIAM em aceitar um convite da CBF?

Esqueçamos os colossais salários que cada um deles recebem. A CBF, embora à custa dos clubes, é riquíssima e provavelmente até poderia pagar. Mas, conhecedores da péssima fama da entidade e de seus cartolas, e vivendo nos ambientes rigorosamente profissionais em que atuam, a possibilidade de um dos quatro — ou outros do mesmo porte — toparem a empreitada era semelhante à de um camarada ir de bicicleta até o planeta Plutão.

18/06/2014

às 18:02 \ Tema Livre

COPA 2014: Eliminação da Espanha não significa o fim do estilo de jogo com que ela encantou o mundo. Significa que ela não conseguiu repeti-lo!

Sergio Ramos e Iker Casillas tentam impedir que o Chile marque, mas Eduardo Vargas não se intimida (Foto: EPA)

Sergio Ramos e Casillas tentam impedir que o Chile marque, mas Vargas faz o primeiro dos 2 x 0:  a ex-campeã despenca para profundezas do abismo (Foto: EPA)

Um dia tinha que terminar, e terminou, para a seleção espanhola que ganhou os principais títulos mundiais entre 2008 e 2012 — duas Eurocopas entre as fortíssimas seleções europeias e o Mundial de 2010.

O show de bola que os espanhóis tomaram da Seleção brasileira no ano passado, na final da Copa das Confederações, parecia que antevia o que ia ocorrer.

De fato, a bisonha eliminação ante o Chile, time muito aplicado ao esquema do técnico argentino Jorge Sampaoli, com vários bons valores individuais e muito da velha e boa garra — que hoje insistem em denominar de “atitude” –, arremessa La Roja da glória para a profundeza dos abismos, sobretudo porque já tivera a espinha partida pela humilhante goleada que sofreu da Holanda logo na estreia.

Fala-se muito que é o fim do estilo de jogo que encantou boa parte do mundo — embora no Brasil muita gente o considere “chato”, como se a beleza do futebol já não fosse, para nós, brasileiros, um valor essencial.

Eduardo Vargas, o grande herói chileno que abriu o placar contra os atuais campeões (Foto: Getty Images South America)

Vargas comemora: o técnico espanhol admitiu que “não há desculpas” para a derrota porque o Chile foi melhor (Foto: Getty Images South America)

Fala-se também no final de toda uma geração.

Não concordo com nenhuma das assertivas, e explico, começando pelo segundo item.

Mesmo antes da eliminação, e após a derrocada ante a Holanda, já se mencionava o “fim de uma geração”.

Isto é apenas parcialmente verdade. Pela implacável passagem do tempo, infelizmente é o fim de carreira na seleção para grandes nomes do futebol espanhol e mundial, como Casillas, Xavi, David Villa, Xabi Alonso e Iniesta, a caminho da aposentadoria que já levou o zagueirão Puyol (autor do espetacular gol de cabeça que eliminou a Alemanha da semifinal em 2010), além de outros bons valores como o goleiro Pepe Reina e o lateral Juanfran, ambos reservas.

Por seu talento e juventude, porém, continuarão por muito tempo ainda nos gramados nomes como Jordi Alba (23 anos), Javi Martínez (25), Pedro Rodríguez (26), Juan Mata (26), e mesmo Gerard Piqué (27 anos), Cesc Fábregas (27), Sergio Ramos (28) e Cazorla (29) , sem contar o provável goleiro titular no futuro, De Gea 23 anos, 1m91), titular do Manchester United.

galeria espanha

Fim de uma geração? Nada disso. Até pela idade, nomes como Jordi Alba, Piqué, Fábregas, Sergio Ramos e Cazorla continuarão (Fotos: Li Yong/ Li Yong/Xinhua Press/Corbis :: Christophe Simon/AFP/Getty Images :: Luis Gene/AFP Photo :: AFP Photo/Kimmo Mäntylä :: Miguel Riopa/AFP)

Por outro lado, não considero que o fim desta seleção espanhola que ganhou quase tudo e consagrou tantos craques seja, necessariamente, o fim do tão falado tiki-taka.

O que ocorreu nesta Copa, em minha modesta opinião de torcedor, é que esta seleção NÃO CONSEGUIU jogar adequadamente o tiki-taka, e um dos fatores para isso foi a insistência do excelente treinador Vicente del Bosque em escalar o centroavante “referência” Diego Costa entre os 11 titulares.

O sergipano tornado espanhol tem um estilo que não guarda qualquer relação com o que a seleção passou a adotar quando começou a ser treinada em 2004 pelo velho sábio Luís Aragonés, preparando-se para a Eurocopa onde, com clara inspiração no formidável toque de bola do F. C. Barcelona, o tiki-taka encheria os olhos da torcida mundo afora.

Diego Costa é um bom jogador, um artilheiro, um atacante perigosíssimo. Sua escalação no time, porém, foi uma espécie de transplante de órgão que não deu certo.

(Foto: Getty Images)

Pep Guardiola, técnico do Bayern de Munique, mostra que o futebol espanhol ainda vive (Foto: Getty Images)

O estilo genial de jogar da Espanha não entrou em campo hoje, com um time irreconhecível que não acertava passes, chutava mal e tinha até colossos como Iniesta tropeçando na bola.

A maior mprova de que o tiki-taka não morreu está além-fronteiras da Espanha — ali, na Alemanha, onde se exibe o atual melhor time do mundo, o Bayern de Munique, treinado pela maior expressão do estilo entre todos, seu técnico Pep Guardiola, o homem que mais ganhou títulos na história do Barça.

24/04/2014

às 20:30 \ Tema Livre

VÍDEO: Pep Guardiola, favorável à separação da Catalunha da Espanha, defende o uso do idioma catalão… em plena Madri

Pep Guardiola fala a jornalistas no estádio Santiago Bernabéu, em Madri: em catalão, por favor (Foto: Real Madrid)

Pep Guardiola fala a jornalistas no estádio Santiago Bernabéu, em Madri: em catalão, por favor (Foto: Real Madrid)

Um dos melhores técnicos do mundo, Pep Guardiola também não faria feio em uma competição entre poliglotas.

Nas entrevistas coletivas que concedia quando comandava o Barcelona (2008-2012), naquele que entrou para história como o melhor período da história do clube, o treinador nascido há 43 anos em Sampedor, interior da Catalunha, não raro dava um verdadeiro show.

Respondia a uma pergunta em seu idioma nativo, o catalão, em seguida tecendo algum comentário em espanhol. Instantes depois recorria, sem hesitar, ao italiano – como jogador, atuou por dois anos no Brescia – ou ao inglês para rebater observações de jornalistas estrangeiros.

No entanto, o momento mais glorioso a contribuir para sua fama de talentoso poliglota ocorreu em julho do ano passado, quando surpreendeu a todos ao responder em alemão, com notável desenvoltura, as primeiras perguntas que ouviu em entrevista coletiva como técnico de seu novo time, o Bayern de Munique. Falei deste episódio neste post.

Poliglota, mas sem – nunca – abrir mão do catalão

Todo este repertório, porém, parece não abalar nenhum fiapo do orgulho independentista catalão de Guardiola.

Separatista assumido – embora tenha defendido a seleção espanhola enquanto jogador -, ele em 2012 chegou a aparecer em vídeo apoiando oficialmente a campanha pela transformação da Catalunha, comunidade autônoma pertencente à Espanha, em um país. “Desde Nova York, aqui vocês têm mais um”, dizia o técnico, que à época passava um ano sabático na Grande Maçã.

E na quarta-feira, dia da derrota por 1 a 0 de seu Bayern para o eterno rival de seu ex-clube, Real Madrid, Pep voltou a dar seu recado soberanista.

Estava nos vestiários do estádio Santiago Bernabéu, em Madri, do espanholíssimo time da casa, representando uma entidade alemã, o Bayern. Até que um repórter da Catalunya Radio, Francesc Garriga, afirmou, antes de formular questão a Guardiola, que sofrera represália da UEFA por ter lhe perguntado em catalão na entrevista coletiva anterior, e que usaria o espanhol.

Ao escutar a explicação, o treinador não arredou pé e comprou a briga: “você está enganado. Pode sim me perguntar em catalão”. O jornalista atendeu a seu pedido, em seguida traduzindo sua pergunta ao castelhano. Pep, é claro, utilizou o mesmo método “tecla sap” para retrucar. Assistam:

 

 

02/04/2014

às 16:00 \ Tema Livre

ÓTIMOS VÍDEOS DE FUTEBOL: O passe cinematográfico para o golaço de Neymar é apenas a “ponta do iceberg”, e cresce o coro para que Andrés Iniesta ganhe logo a Bola de Ouro. Entendam por quê

Andrés Iniesta com a camisa do Barcelona: um craque enorme ainda sem Bola de Ouro da FIFA (Foto: Reuters)

Andrés Iniesta com a camisa do Barcelona: um craque enorme ainda sem Bola de Ouro da FIFA (Foto: Reuters)

Quem, como eu, acompanhou o emocionante empate em 1 a 1 entre Barcelona e Atlético de Madrid ontem (terça-feira, 1º de abril), pôde comprovar pela enésima vez: que bola joga este Andrés Iniesta!

Melhor em campo juntamente com o goleiro adversário (o gigante belga com cara de bebê Courtois), o baixinho de 29 anos, nascido na pequena Fuentealbilla, em Castilla-La Mancha, sudeste da Espanha, deu o passe monumental para o golaço de Neymar que selou o resultado. Uma pintura (o vídeo é da ESPN):

A “assistência”, como são chamados por boa parte da imprensa hoje aquilo que todos conhecemos, desde moleques, como passes, não destoou em nada do que conhecemos de Iniesta. Franzino mas resistente – longe de ser um “cai-cai” –, driblador surpreendente, detentor de uma visão de jogo raríssima e de um chute potente, o camisa 8 do Barça e 6 da seleção espanhola é conhecido por seu dom de deixar os companheiros na cara do gol rival.

Gols decisivos históricos

Como se não bastasse, possui um faro especial para anotar gols decisivos, colecionando dois em particular.

Um foi o famoso Iniestazo, tento de empate contra o Chelsea em Londres nos descontos da semifinal da Champions 2008-2009. Com frieza de gênio, ele chutou de trivela no ângulo para levar o time catalão à primeira das duas edições de finais do torneio que ganharia do Manchester United, iniciando a lenda em torno do Barça de Pep Guardiola.

O vídeo, com narração do Canal + espanhol, é de arrepiar (reparem no normalmente contido treinador correndo em disparada na comemoração):

O outro gol decisivo e emocionante de Iniesta que se eternizou foi, evidentemente, o que marcou contra a Holanda aos 10 minutos do segundo tempo da prorrogação na final da Copa de 2010, na África do Sul, contra a Holanda, que deu à Espanha seu primeiro (e merecidíssimo) título de campeã mundial.

Chutando para marcar o gol que deu à Copa de 2010 à Espanha, na prorrogação da final contra a Holanda (Foto: Alexandre-Battibugli - Placar)

Chutando para marcar o gol que deu à Copa de 2010 à Espanha, na prorrogação da final contra a Holanda (Foto: Alexandre-Battibugli – Placar)

O vídeo abaixo, da mesma emissora, traz uma reconstituição da jogada, com depoimentos dos jogadores que participaram. É só aí que nos damos conta de que o próprio Iniesta já havia dado sua contribuição antes do chute final, com um lindo toque de calcanhar.

Uma (outra) copa no caminho

O acúmulo de demonstrações de talento do atleta, seu currículo invejável (21 troféus relevantes pelo Barça, e mais uma Copa do Mundo e duas Eurocopas pela seleção) e lances isolados como os do clássico contra o Atlético animaram cronistas espanhóis a pedir, como já fizerem em outras ocasiões, a Bola de Ouro da FIFA para Iniesta. O meia-atacante ainda não ganhou o prêmio, embora tenha sido finalista em 2010 (segundo lugar) e 2012 (terceiro).

“Se Iniesta fosse estrangeiro, estaríamos falando da oitava maravilha”, disse o comentarista Manolo Lama à rádio espanhola Cope. “Jamais entenderei como não tem uma Bola de Ouro”. Durante a própria transmissão da partida do Camp Nou pela emissora pública TVE, os jornalistas presentes também reivindicaram o título ao craque.

Ainda faltam nove meses para terminar o ano, os três torneios que o Barcelona disputa ainda estão em andamento, e não há nada definido. Dependendo destes desfechos e, sobretudo, do que consiga fazer Iniesta no mundial do Brasil, estas exigências podem ser cumpridas em dezembro. Por enquanto, fiquem com este último vídeo, do usuário do YouTube HeilRJ03, com as melhores jogadas deste autêntico artista da bola:

06/03/2014

às 16:00 \ Tema Livre

VÍDEOS IMPERDÍVEIS: 5 facetas que explicam a grandeza de Puyol, o zagueirão e capitão que deixará o Barça após 19 anos de glórias

Carles-Puyol

O leão Carles Puyol celebra o gol que anotou no fim de semana passado contra o Almería: um autêntico mito (foto: Manel Montilla – Mundo Deportivo)

Com a firmeza e altivez que lhe deram fama e respeito mundial, Carles Puyol anunciou na terça-feira (4 de março) diante de jornalistas que deixará o Barcelona ao final desta temporada, em junho.

O motivo, segundo o próprio zagueiro e capitão do esquadrão azul-grená há uma década, é a dificuldade que vem encontrando há mais de três anos em recuperar-se de uma série de lesões que parece não ter fim. Puyol, que completa 36 primaveras em abril, havia dito que atuaria até chegar aos 40.

Fontes próximas ao atleta especulam que ele deve tentar cumprir a promessa, mas defendendo as cores de algum clube de uma liga “menor”. O campeonato americano estaria entre suas principais opções, até pelo fato de sua companheira Vanesa Lorenzo, com quem tem uma filhinha, possuir um apartamento em Nova York.

Exemplar raro

Sempre fui um grande admirador da raça, a correção, a lealdade e a eficiência de Puyol e sua inconfundível juba de leão. Carles é um destes exemplares raros de jogadores capazes de colocar a cabeça no pé de um adversário caso isso seja necessário para impedir um gol ou uma jogada de perigo.

Mesmo assim, não pode ser considerado violento. Muito pelo contrário: como bem lembrou editorial do jornal catalão La Vanguardia no dia seguinte ao anúncio, jamais, nos seus 19 anos de carreira profissional, todos vividos dentro do Barça – e 15 dos quais na equipe principal – Puyi, como é chamado pelos colegas, cometeu um lance desleal para com seus rivais.

Há várias maneiras possíveis de homenagear Puyol, este homem detentor de incríveis três Champions League, seis Campeonatos Espanhóis, dois Mundiais de Clubes da FIFA, duas Copas do Rei, duas Supercopas da Europa e seis Supercopas da Espanha pelo Barcelona, além de, é claro, uma Copa do Mundo (2010) e uma Eurocopa (2008) pela seleção espanhola.

Mas, aproveitando que sua camisa é a 5, separei cinco vídeos publicados no YouTube que ilustram diferentes facetas da grandeza do jogador:

-O raçudo

Em jogada válida pela Champions League 2002-2003 contra o Lokomotiv russo, o goleiro já estava vendido quando Puyol se atirou com o corpo (e a alma) para salvar um gol já dado como certo. A bola bateu no escudo do Barça e não entrou.

-O capitão

Nos grandes clubes europeus, a figura do capitão do time ainda tem muito valor. Eles representam a equipe em eventos, proferem discursos em estádios lotados e ajudam a orientar os demais dentro e fora de campo. Neste episódio ocorrido em jogo contra o Rayo Vallecano pelo Campeonato Espanhol 2011-2012, Carles correu para chamar a atenção dos brasileiros Daniel Alves e Thiago Alcântara que, após um gol do segundo, celebravam com uma de suas polêmicas dancinhas. Puyol fazia assim o papel de voz do treinador – no caso, Pep Guardiola, que não suportava as coreografias.

-O catalão

Orgulhosíssimo de suas origens  – nasceu na cidadezinha de Pobla de Segur – Puyol integra o grupo de jogadores que, embora defendam com afinco a seleção espanhola, o fariam ainda com maior intensidade caso a Catalunha se tornasse um país independente e tivesse sua própria seleção oficial. O auge de sua demonstração de amor catalão ocorreu na goleada por 6 a 2 aplicada pelo imbatível Barça de Guardiola no Espanhol de 2009. Ao anotar um gol, Carles tirou a faixa de capitão com as cores da senyera, a bandeira da Catalunha, a beijou e a exibiu, com enorme satisfação mas sem desrespeito, aos quase 100 mil torcedores do espanholíssimo Real Madrid no estádio Santiago Bernabéu.

-O espanhol

Na seleção espanhola, Puyol é quase tão lendário. Disputou três copas – 2002, 2006 e 2010 -, acompanhando, portanto, o surgimento a e consolidação desta geração de ouro da Roja. E não só: quem se esquece que foi dele um dos gols mais decisivos da conquista do caneco na África do Sul, o da semifinal contra a Alemanha?

-O ser humano

Carles Puyol foi o capitão do Barça em três conquistas da cobiçadíssima Champions League Europeia. Em 2006 e 2009, ergueu com sua típica bravura os pesados troféus. Em 2011 em Wembley, porém, fez algo muito maior: na hora H, sem avisar a ninguém, entregou a faixa ao companheiro Éric Abidal, que enfrentava uma luta contra um câncer, e lhe concedeu a honra. O mundo se emocionou (vejam a partir do tempo 1’33” do vídeo).

 

 

14/02/2014

às 18:08 \ Tema Livre

O incrível Bayern de Munique e mais uma de suas marcas assombrosas: estádios lotados, dentro e fora de casa, há 255 jogos seguidos pela Bundesliga

A Allianz Arena lotada, como sempre: exemplo de como o futebol pode ser um sucesso dentro e fora de campo (Foto: Allianz Arena)

A Allianz Arena lotada, como sempre: exemplo de como o futebol pode ser um sucesso dentro e fora de campo (Foto: Allianz Arena)

Enquanto o futebol brasileiro, a não ser por iniciativas dos próprios jogadores como Bom Senso F.C., não dá sinais significativos de que sairá da era medieval tão cedo, alguns grandes clubes europeus caminham na direção diametralmente contrária.

Para muitos o maior time da atualidade, o Bayern de Munique é um grande exemplo do quão diferente do nosso pode ser o futebol.

O elenco do Bayern para a temporada 2013-2014: jogadores como Ribéry, Robben, Lahm (fila inferior à direita), Schweinsteiger (no topo à direita) e os brasileiros Thiago e Dante (terceira fileira)

O elenco do Bayern para a temporada 2013-2014: jogadores como Ribéry, Robben, Lahm (fila inferior à direita), Schweinsteiger (no topo à direita) e os brasileiros Thiago e Dante (terceira fileira) (Foto: Bayern de Munique)

E os fatos de a equipe, atual campeão alemã, europeia e mundial, contar com a base da seleção alemã no elenco – nomes como Boateng, Lahm, Schweinsteiger e Müller -, possuir um dos três melhores jogadores do mundo (o francês Franck Ribéry) e ser dirigida pelo gênio catalão Pep Guardiola são apenas parte de um enorme projeto de sucesso.

Sete anos e meio de casa cheia

No último dia 7, Markus Hörwick, diretor de comunicação do clube bávaro, divulgou a inacreditável informação de que os últimos 255 jogos do esquadrão pelo Campeonato Alemão foram realizados em estádios lotados. Tanto na fabulosa Allianz Arena, casa do Bayern desde 2005 com capacidade total para 71 pessoas, quanto nos alçapões visitantes.

Considerando que o torneio, mundialmente conhecido como Bundesliga, é disputado há mais de 20 anos por 18 equipes no formato pontos corridos (34 rodadas), faz-se o cálculo e chega-se a conclusão de que o Bayern não se apresenta em caráter sold out no certame há exatos sete anos e meio.

Incentivos e ingressos a preços acessíveis

Imagem aérea do estádio (Foto: Allianz Arena)

Imagem aérea do estádio (Foto: Allianz Arena)

O fenômeno da torcida local se explica em parte por uma política de incentivos de fidelidade da própria entidade. Aos 38 mil sócios que possuem carnês para os jogos pede-se que frequentem o mínimo de 8 partidas por temporada. Do contrário, o privilégio passará a mão de outro torcedor.

Ao mesmo tempo, as entradas, embora possam custar até 70 euros (R$ 229,00), são vendidas por uma média de 22 euros (R$ 72,00). Trata-se de mais um motivo para sentar e chorar se compararmos com o futebol brasileiro. Nossos grandes clubes não hesitam em pedir R$ 500,00 ou mais por ingressos sem sequer garantir a segurança dentro ou fora dos estádios aos consumidores.

O futuro é alemão

Quanto ao fato do Bayern também encher os estádios quando joga fora, a resposta pode ser encontrada nas estatísticas da própria Bundesliga. Na temporadas 2012/2013, o campeonato foi o que melhor média de público teve na Europa (41.914), à frente da poderosa Premier League inglesa (35 mil) e do Campeonato Espanhol (28 mil).  O Brasileirão 2013 teve média de 14,9 mil por jogo. Três vezes menos do que na Alemanha.

Esta e uma série de outras razões, que comentei neste post de maio do ano passado, nos levam a crer cada vez mais seriamente de que os alemães, além de estarem entre os favoritos à Copa 2014, em breve terão o melhor campeonato nacional do mundo.

Pep Guardiola no vestiário do clube (Foto: The Guardian)

Pep Guardiola no vestiário do clube (Foto: The Guardian)

Quanto ao Bayern de Guardiola, a história está se fazendo muito rapidamente: a equipe já conta com dois canecos desde sua chegada, no início da temporada – Supercopa da Europa e Mundial de Clubes da FIFA -, e deve abocanhar o bicampeonato alemão com tranquilidade e não há quem duvide de sua capacidade de repetir o feito também na Champions League.

04/01/2014

às 16:15 \ Tema Livre

O grande Cruyff, um dos maiores craques da história, em entrevista: “Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.”

Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011campeões de audiência 02

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

Cruyff com Daniel, autografando a camiseta… para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do dream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

09/08/2013

às 15:30 \ Tema Livre

FUTEBOL: Joel Santana ganha dinheiro na TV com seu inglês absurdo — e chama atenção para o fato de que o idioma é séria barreira para técnicos brasileiros comandarem os melhores times do mundo

Joel Santana, Felipão, Wanderley Luxemburgo e Pep Guardiola (Fotos:  Gazeta Esportiva :: Yasuyoshi Chiba / AFP :: AFP :: Jasper Julien / Getty Images)

Joel Santana, Felipão, Wanderley Luxemburgo e Pep Guardiola: idiomas estrangeiros têm sido um problema para os treinadores brasileiros. Já Guardiola espantou no Bayern de Munique falando alemão logo em sua primeira entrevista coletiva (Fotos: Gazeta Esportiva :: Yasuyoshi Chiba / AFP :: AFP :: Jasper Julien / Getty Images)

Amigas e amigos do blog, o recente contrato de publicidade para vender um xampu assinado pelo técnico Joel Santana para aproveitar a febre na web atingida pelo seu inglês macarrônico, perto do incompreensível, do qual lançou mão no período em que treinou a seleção de futebol da África do Sul chama a atenção para uma questão:

Por que o Brasil, o maior fornecedor de jogadores de futebol — e de grandes craques – para todos os rincões do planeta, desde países como Inglaterra, Itália e Espanha até o mundo árabe, a China e mesmo o Vietnã, não tem seus técnicos à frente de nenhum dos melhores times do mundo?

Certamente há quem diga que os treinadores brasileiros estariam “atrasados” ou “defasados” em relação aos mais badalados colegas europeus, como Pep Guardiola, José Mourinho ou Carlo Ancelotti.

Isso é bastante discutível. Há técnicos francamente medíocres atuando nas ligas mais ricas e mais competitivas, que são as europeias. A coisa não é por aí.

O que existe é um preconceito contra os treinadores brasileiros, que começa por uma questão muito simples: a dificuldade da esmagadora maioria deles no trato com idiomas estrangeiros. Há exceções, claro, e Carlos Alberto Parreira, poliglota, é uma delas. Mas Felipão teve sérios problemas no Chelsea inglês que começaram com a dificuldade de comunicação — e, além do conhecimento do futebol, o que seria mais importante para um treinador do que seu poder de comunicação?

Ora, dirão, existem os tradutores. Alguns chegaram a ter sucesso, depois, como técnicos, como José Mourinho, hoje no Chelsea, que começou sendo tradutor do holandês Louis Van Gaal no F. C. Barcelona. Zico treinou clubes japoneses e a seleção do Japão assim. Vários outros colegas brasileiros trabalham dessa forma em países árabes e em outras partes.

Mas repito: não é o ideal, de forma alguma, porque o poder de comunicação direta com os jogadores é algo insubstituível. Já imaginaram Joel Santana, com o inglês do vídeo abaixo, dando instruções ao time do Manchester United ou do Liverpool, por exemplo?

O preconceito contra treinadores brasileiros, no Primeiro Mundo, surge nesse momento. Foi o que ocorreu com Vanderlei Luxemburgo durante sua breve passagem de 11 meses pelo Real Madrid dos “galácticos”, na temporada 2004-2005. “Luxa” logo de cara enfileirou sete vitórias consecutivas para o melhor time do século XX, segundo a FIFA, mas seu portunhol pavoroso era objeto de tanto escárnio — eu estava na Espanha e vi — que acabou afetando sua autoridade diante dos jogadores.

Jamais compreendi como alguém, como Luxemburgo, contratado a peso de ouro e ganhando uma fábula, não passou imediatamente a dispor de um professor ou professora particular de espanhol para praticar diariamente, nas horas vagas, até firmar-se.

Exatamente o oposto disso fez o celebrado Guardiola, que, após deixar o F. C. Barcelona e a melhor campanha da história do clube, com 13 títulos conquistados em 5 anos, passou um período sabático em Nova York e, ao assumir o comando do Bayern de Munique, em junho, espantou os jornalistas e torcedores concedendo sua primeira entrevista coletiva… em alemão. Em silêncio, em Nova York, ele aplicou-se no estudo do idioma — e, naturalmente, o efeito junto ao público não poderia deixar de ser espetacular.

Vejam Guardiola falando em alemão, num trecho da entrevista:

Os treinadores europeus sempre dão um jeito de adaptar-se ao ambiente em que irão trabalhar. O italiano Fabio Capello é poliglota. O grande Johann Cruyff, holandês, um dos maiores craques de todos os tempos, é fluente também em inglês e aprendeu espanhol quando atuou pelo F. C. Barcelona, entre 1973 e 1978, e não teve problemas em seus anos de treinador (1988-1996) do que se chamou então o Dream Team do Barça, quando plantou as raízes do grande futebol que o time joga hoje. Algo semelhante se deu com o excelente meio-campo alemão Bernd Schuster, que atuou pelo F. C. Barcelona, o Real Madrid e o Atlético de Madrid, e hoje treina o Málaga.

A desconfiança em relação a treinadores monoglotas atingiu, em passado recente, profissionais de países como Portugal e Espanha. A situação mudou completamente. Não apenas com o português Mourinho, que se defende em inglês, espanhol e italiano, ou o espanhol Guardiola, que a essas três línguas acrescentou o alemão. Hoje, vê-se o português André Villas-Boas, treinador do Tottenham, com fluência absoluta no idioma de seus comandados, como tinha, quando no Reino Unido, o espanhol Rafa Benítez, atualmente dirigindo o Napoli, da Itália.

Os melhores técnicos brasileiros têm perfeitas condições de treinar grandes clubes fora do país, inclusive nas melhores ligas do mundo — a inglesa, a espanhola, a italiana e a alemã.

O caminho para isso seria muito facilitado se, além dos conhecimentos sobre futebol, fizessem um esforço — a meu ver, uma exigência profissional mínima — para não falar (nem sempre bem) apenas o português.

28/07/2013

às 22:00 \ Tema Livre

FUTEBOL: Chegada do técnico argentino ao Barça e outros temas desviam atenção do fato de que o melhor time do mundo tem prejuízos multimilionários vendendo barato jogadores que custaram uma fortuna

O artilheiro David Villa recebido em delírio pelo Atlético de Madrid: mais uma transferência com enorme prejuízo (Foto: actualidades.es)

Post publicado originalmente a 26 de julho de 2013, às 19h47

A dor nacional na Espanha pelo acidente de trem em Santiago de Compostela, a intensa cobertura da imprensa ao Campeonato Mundial de Natação, sendo realizado em Barcelona, e as atenções despertadas pela chegada do novo técnico do F. C. Barcelona, o melhor time do mundo, o argentino “Tata” Martino, deixaram em total segundo plano a divulgação da situação financeira do clube por seu vice-presidente econômico, Javier Faus.

Faus mostrou que o Barça alcançou um lucro de 32 milhões de euros (pouco mais de 90 milhões de reais) na temporada 2012-2013, sobre um faturamento de 491 (quase 1,5 bilhão de reais), mas nada disse sobre algo que é um tabu no clube e na fanática imprensa pró-Barça: sua extraordinária capacidade de perder dinheiro com compra e venda de jogadores.

O Barça, desde o segundo mandato do atual deputado ao Parlamento da Catalunha e ex-presidente Joan Laporta (2006-2010) até agora, sob a presidência de Sandro Rosell, ex-executivo da Nike, gastou altissonantes 450 milhões de euros (1,4 bilhão de reais) na compra de jogadores, e, na venda – quase todas envolvendo boa parte desses contratados –, arrecadou apenas 180 milhões.

Sim, amigos! Nada menos do que 270 milhões de euros (perto de 820 milhões de reais) foram para o ralo em negociações de jogadores ao longo de sete anos. 115 milhões por ano!

Javier Faus: Barça faturou 491 milhões de euros, teve lucro de 32 e mantém dívida de 331 milhões (Foto: elperiodico.com)

O atacante David Villa — o maior artilheiro da história da seleção espanhola, com 56 gols em 90 partidas — é o mais recente, e talvez o maior, exemplo disso: comprado ao Valencia há três anos por 40 milhões de euros (pouco mais de 120 milhões de reais), acaba de ser repassado ao Atlético de Madrid por 5,1 milhões (pouco mais de 15 milhões de reais), e para serem pagos ao longo de três anos.

Não é de se estranhar, pois, que o Barça, o mais badalado time do mundo, com faturamento fabuloso que inclui 100 mil sócios pagantes, patrocínios multimilionários (só o governo do Catar paga 33 milhões por ano para estar na camisa dos jogadores) lojas próprias, franquias e incontáveis produtos licenciados pelo mundo afora, ostenta uma dívida — confirmada pelo vice-presidente Faus — de colossais 331 milhões de euros (perto de 1 bi de reais).

Ibrahimovic com a camisa de seu atual clube, o Paris Saint Germain: em pouco mais de um ano, o Barça perdeu 42 milhões com ele (Foto: AFP)

David Villa saiu justamente magoado do Barça e disse que, no novo clube, terá “a alegria de que estava precisando”.

Villa teve um ano e pouco de atuação fulminante, sofreu uma contusão séria — fratura da tíbia esquerda — no Mundial de Clubes da FIFA, em dezembro de 2011, e depois da demorada recuperação de seis meses acabou não reencontrando seu lugar no Barça. Um de seus problemas foram desentendimentos com Messi, que sabidamente manda no time. Disputou 77 partidas e fez 48 gols — média superior a 0,6 por partida, contando o período ruim.

Admitamos, por hipótese, que essa situação seja suficiente para o Barça vender por 5,1 milhões um jogador que custou 40 — é um absurdo, mas vamos admitir.

Pois acho mais inexplicável o caso de Ibrahimovic, o gigante cigano sueco contratado à Inter de Milão em meados de 2009 por 66 milhões de euros — 45 milhões em dinheiro e o restante com a transferência de um dos ídolos da torcida e grande jogador, o camaronês Eto’o, indo de lambujem o bielorrusso Hleb. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

01/05/2013

às 19:24 \ Tema Livre

COPA DOS CAMPEÕES: final só de alemães pode ser início de nova era no futebol

O timaço do Bayern de Munique comemora o primeiro gol, de Robben, nos 3 x 0 de hoje contra o Barça: novos horizontes para o futebol alemão (Foto: Mike Hewitt / Getty Images)

Foi surpreendente e espetacular a massacrante derrota de 7 x 0 imposta pelo Bayern de Munique contra o Barcelona — até agora o melhor time do mundo, disparado — nas duas partidas pela semifinais da Liga dos Campeões da Europa, o mais importante campeonato de times que existe.

Hoje, como se sabe, foi 3 x 0, com direito a olé, na própria casa sagrada do adversário, o Camp Nou, com um Barça atarantado em campo e os alemães jogando com rapidez, força, inteligência e habilidade.

Houve também as esplêndidas atuações do Borussia Dortmund contra o timaço do Real Madrid na mesma etapa da competição provoca — de modo que, pela primeira vez na história, haverá uma finalíssima só com clubes alemães o próximo dia 25, em Londres.

O campeonato alemão pode ser a nova referência

Mas há algo de maior importância em questão: pelo que se viu em campo, nas quatro partidas entre alemães e espanhóis, não é arriscado nem maluco prever que está chegando a vez de, mais que o futebol, o campeonato alemão passar a perna nos demais grandes certames europeus — como os da Premier League, da Inglaterra, os da Espanha e da Itália — e tornar-se a referência mundial.

Se ocorrer, como parece, já era hora: como seleção, os alemães sempre foram, e sempre são, uma sombra ameaçadora sobre os adversários. Tricampeões do mundo em 1954, 1974 e 1990, els chegaram nada menos do que outras quatro vezes à final, em 19 Copas.

O surpreendente (e forte) time do Borussia comemora sua passagem para a final da Liga dos Campeões, após eliminar o Real Madrid (Foto: Ira Fassbender / Reuters)

Por alguma razão, porém, o campeonato da Bundesliga, a Federação alemã, não provoca o mesmo interesse nem movimenta o número de jogadores famosos e a dinheirama de outros certames.

As coisas parecem estar mudando, e foi o grande Paul Breitner quem, há poucos dias, informou ao público brasileiro disso, em entrevista aos colegas jornalistas da ESPN Brasil comandada por João Palomino.

Times alemãs não estão endividados — e não precisam de xeques árabes

Legendário craque, que foi lateral-esquerdo e depois meio-campo da seleção alemã e figura entre os grandes jogadores da história do futebol, Breitner previu que a Bundesliga chegará ao topo por várias razões.

Em primeiro lugar, disse Breitner, os times alemães, diferentemente do que ocorre com gigantes de outros países, como o Manchester United britânico, os principais da Itália, o Real Madrid e o próprio Barça, não estão pesadamente endividados. Pelo contrário, com estádios sempre lotados, gordos elencos de sócios, patrocinadores de peso para clubes, arenas e jogadores, vários deles nadam em dinheiro, como é o caso do Bayern.

“Nós não dependemos de xeques árabes”, proclamou também o craque, hoje ele próprio dirigente do Bayern e consultor da Bundesliga.

O grande Breitner em sua entrevista à ESPN Brasil: "Não precisamos de xeques árabes" (Foto: ESPN Brasil)

A isso, acrescentou o crescente número de grandes jogadores de outros países que já estão na Bundesliga ou prestes a integrá-la, por sua organização, capacidade financeira e o extraordinário apoio da torcida alemã, que não apenas lota os estádios das várias divisões do campeonato como é uma das mais entusiásticas e participantes do mundo.

Só o Bayern e o Borussia dão duas boas seleções

Entre outros exemplos, citou o caso do meio-campo Javi Martínez, ex-Athletic de Bilbao, cobiçado por clubes ingleses, sondado pelos dois maiores espanhóis, com possibilidades na Itália e na Holanda mas que preferiu a Alemanha — e foi o atleta mais caro da história do Bayern: por sua multa rescisória o clube pagou 40 milhões de euros (algo como 105 milhões de reais) e mais salários e outros benefícios cujos detalhes não foram divulgados.

E é verdade: se pegarmos apenas o Bayern e o Borussia, seria possível formar não somente uma excelente seleção da Alemanha, como também um fortíssimo time exclusivamente com jogadores estrangeiros, como o próprio Martínez, o atacante francês Ribéry, o lateral austríaco de origem africana Alaba, o atacante polonês Lewandowski, o meia-atacante holandês Robben, o zagueiro sérvio Subotic, quem sabe até os brasileiros Felipe Santana e Rafinha.

Guardiola, a nova e grande atração

Breitner lembrou igualmente que a contratação pelo Bayern do mais badalado técnico do momento, Pep Guardiola, o maior vencedor de títulos no Barça desde a fundação do clube, em 1899, com certeza levará outros craques a interessar-se pelo campeão alemão e por outras equipes da Bundesliga. A própria presença de Guardiola já será, enfatizou, uma grande atração em si.

Além do mais, como os torcedores brasileiros puderam apreciar nas quatro partidas semifinais — bem como nas etapas anteriores –, o jogo alemão não é mais apenas de força, velocidade, passes longos e bolas altas. Tal como começa a ocorrer com a seleção da Itália, o jogo de passes de pé para pé, dribles, jogadas de qualidade técnica, tabelinhas e outras formas de jogar futebol que encantam as plateias são cada vez mais comuns no futebol alemão.

A autoimolação que a grande maioria da imprensa esportiva da Espanha está agora fazendo em relação ao Barcelona e ao Real Madrid — como se nada do que existisse nas duas grandes equipes valesse coisa alguma –, embora exagerada e passional como sempre, é um forte indicador de que haverá turbulência nos dois gigantes.

E que a preeminência do Barcelona, além de ameaçada exteriormente — vejam o Bayern, que timaço –, está sendo posta em xeque também dentro de suas próprias hostes: críticas ao técnico Tito Vilanova, pedidos exaltados de corte de cabeças, dirigentes estremecidos entre si, jogadores desmotivados pela campanha deste ano…

Por tudo isso, parece-me que Paul Breitner tem boa chance de haver previsto corretamente o futuro.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados