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Garrincha

02/05/2013

às 16:20 \ Política & Cia

Quando direitos autorais viram censura

Os muitos obstáculos à feitura de biografias impedem os brasileiros de conhecerem parte da própria história (Foto: O Globo)

A legislação brasileira e determinadas decisões judiciais estão exercendo virtual censura sobre biografias de personalidades públicas, o que é um gravíssimo atentado à liberdade de expressão e ao direito de os brasileiros conhecerem a própria história.

Pretendo voltar ao assunto mais vezes. Hoje, publico o bom material abaixo.

Editorial de hoje do jornal O Globo

DIREITO AUTORAL OU CENSURA?

Um dos gêneros mais nobres da literatura é a biografia.

Antes da era dos documentários, era a única maneira de se conhecer com alguma profundidade a vida dos grandes homens. Assim, lemos até hoje as Vidas Paralelas em que Plutarco pôs lado a lado personalidades da Grécia e da Roma antigas.

Pouca coisa, na literatura inglesa, é tão sedutora quanto a vida de Samuel Johnson escrita por Boswell. Escritores franceses modernos, como André Maurois, fizeram fama e carreira escrevendo uma grande biografia atrás da outra — de Balzac, de Victor Hugo, de Chateaubriand.

Num outro plano, para o mundo moderno, foi importante conhecer histórias terríveis como a de Hitler, a de Stalin, a de Mao Tsé-tung, para poder avaliar os falsos caminhos seguidos pelas mentes autoritárias.

Nada disso seria possível no Brasil de hoje, a julgar pelos obstáculos legais que se criaram para quem tenha a pretensão de biografar alguém.

Mentalidade autoritária e interesses comerciais

A Constituição brasileira garante a liberdade de expressão. Mas o Código Civil, em seu artigo 20, que pretende proteger a “imagem” de cada indivíduo, abre uma brecha para coisas que são o mais puro retrato de uma mentalidade autoritária.

Também há, nisso, interesses comerciais — como os de parentes de pessoas famosas que pretendem ganhar dinheiro administrando esse tipo de herança. Assim passaram por verdadeiros purgatórios os que quiseram escrever a vida de um Garrincha, ou de um Guimarães Rosa.

É diferente em países desenvolvidos como os Estados Unidos. Ali, onde as biografias ocupam espaço importante nas estantes particulares ou das livrarias, existe a chamada “biografia autorizada”. Mas isto não significa que esteja vedado o caminho para outras biografias.

Sobretudo no caso de pessoas mortas, sequer existe o conceito de “difamação” que aqui é brandido por qualquer advogado desejoso de satisfazer o seu cliente.

No Brasil, um campo minado

No Brasil, o terreno da biografia tornou-se campo minado. E, por causa disso, não existe, por exemplo, biografia competente de uma figura como Mário de Andrade. Familiares de Manuel Bandeira, de Cecilia Meireles, de Guimarães Rosa criam outras tantas fortalezas em torno do que consideram ser de sua propriedade.

Roberto Carlos chegou ao ponto, recentemente, de estender essa postura à própria história da Jovem Guarda, de que ele evidentemente faz parte.

Um projeto de lei destinado a consertar esses abusos passou incólume pela Comissão de Constituição de Justiça da Câmara e já estava a caminho do Senado quando foi barrado por um recurso do deputado Marcos Rogério (PDT-RO), determinando que o texto seja antes debatido no plenário da Câmara.

Sua argumentação: biografias podem prejudicar políticos em campanha.

É o que basta para mostrar como, nesse assunto, fomos nos afastando da essência do problema.

13/04/2013

às 18:00 \ Tema Livre

FUTEBOL — O grande Gérson, o “Canhotinha de Ouro”: “Se pegassem os jogadores do passado e trouxessem para o condicionamento físico atual, os jogadores de hoje ficariam vendo a gente jogar”

Gerson em ação pela Seleção: "O Felipão está querendo fazer voltar aquele espírito do passado, de o jogador realmente querer atuar na Seleção. O orgulho de qualquer atleta deveria ser jogar pela Seleção, é o ápice da carreira" (Foto: A Gazeta Esportiva)

Entrevista concedida a Taísa Szabatura, publicada na revista Alfa

OS PASSOS PERFEITOS DE GÉRSON

Pelé, Garrincha, a Seleção de 70 e os polêmicos cigarros Vila Rica. Aos 71 anos, Gérson Oliveira Nunes, o Canhotinha de Ouro, diz que não tem arrependimentos. Apenas saudade do futebol-arte

 

Futebol pelo futebol não existe mais. Sou saudoso dessa época.

O lado empresarial venceu o futebol-arte. Hoje, um menino quando começa já tem um, dois ou até três empresários que querem levá-lo para fora do país. É outra realidade.

Minha mulher nunca foi a um estádio de futebol, nem as minhas filhas. Não tenho nada contra as mulheres que vão, não é machismo. Foi uma decisão nossa. Eu ia fazer o que tinha que fazer e voltava, como uma pessoa normal.

Na minha época, não tinha empresário. Meu procurador era o meu pai e, depois, o meu sogro.

No começo, não tive problema em jogar no Flamengo, mesmo torcendo pelo Fluminense. Eu sempre separei bem a minha profissão da minha vida particular. Família é uma coisa e trabalho é outra.

Eu era solteiro, ganhando um dos melhores salários do país. Iria sair por quê? Era interessante ir para a Europa e me ofereceram um negócio fora do comum, mas eu quis ficar.

O grande craque como comentarista da Rádio Globo do Rio (que trocou pela Bradesco Band no ano passado): "Nunca quis ser treinador, não tenho paciência" (Foto: O Globo)

O nosso treinamento era totalmente diferente do que é feito hoje. Naquela época, 80% era condição técnica e 20% condição física. Hoje é o contrário. Eu treinava muito os meus lançamentos. Antigamente, a gente não saía rápido do treino. Entrava cedo e saía tarde. Depois, lançar a bola no jogo se tornou fácil, devido ao treinamento. Eu fazia questão disso.

Não tem nenhum jogador atualmente que se assemelhe com o que eu jogava no passado. O Paulo Henrique Ganso, por exemplo, começou muito bem, mas infelizmente teve os problemas com contusões.

Se pudesse dar um conselho aos novos jogadores, seria: jogar mais do que atender a certos treinadores. Quando mandar dar pontapé, não dar, sabe? É saber jogar.

Não me arrependo de ter feito o comercial do cigarro Vila Rica. Faria tudo de novo. Fiz uma propaganda para um cigarro novo, todo mundo sabia que eu fumava e então fui convidado. Todo cigarro era igual, mas esse era mais barato. E a vantagem estava somente nisso. Daí um idiota qualquer modificou o sentido e disse que eu queria levar vantagem em tudo, criando a “lei de Gérson”.

Eu não fiz lei nenhuma. Não tem nada a ver. Foi levado para o lado pejorativo, e por isso me irrita. De vez em quando, um imbecil vira pra mim e fala da “lei de Gérson”, mas idiota sempre tem em qualquer lugar.

Parei de fumar porque quis há 30 anos, ninguém me incentivou. Não me arrependo de nada.

As duas melhores seleções que já existiram foram a Seleção de 1958, pelos talentos e pela individualidade, e a de 1970, pelo conjunto do time.

O Pelé e o Garrincha são os melhores. Até hoje, não consegui decidir quem é o melhor. Se pegassem os jogadores do passado e trouxessem para o condicionamento físico de hoje, sabe o que iria acontecer? Os jogadores de hoje ficariam vendo a gente jogar.

A fama sobe à cabeça. Os jogadores vêm da classe média e, de repente, estão com um bom carro e um salário astronômico. Eles não sabem administrar isso. A fama nunca me atrapalhou porque tive uma boa base.

O Neymar tem tudo aqui. Para que vai se aventurar tão novo pela Europa? Logo ele deve ir, mas, enquanto ele puder ficar ao lado dos pais e do filho, acho que ele tem toda a razão.

Na famosa - e polêmica - propaganda do cigarro Vila Rica, em 1976

Na famosa - e polêmica - propaganda do cigarro Vila Rica, em 1976, cujo slogan era: "Gosto de levar vantagem em tudo, certo?"

Hoje, os jogadores só valorizam a Seleção para terem um nome maior e, com isso, sair do Brasil. Tanto é que o Felipão está se pegando a isso agora, tentando voltar com aquele espírito do passado, de querer realmente jogar na Seleção. É a valorização da Seleção, e não só do profissional. O orgulho de qualquer atleta deveria ser entrar para a Seleção. É o ápice da carreira, e ainda se tornar campeão do mundo, imagina? Acima disso, não tem mais nada.

Treinador da seleção tem que ter know-how. Ele precisa ter feito alguma coisa na vida. Eu acho que o Felipão vai fazer um bom trabalho. Eu acredito na seleção.

O Dunga não foi um grande jogador e não foi um bom treinador. Daqui a dez anos, talvez, mas não poderiam nunca tê-lo colocado naquela oportunidade. Foi uma temeridade.

Nunca pensei em ser treinador de futebol, não tenho paciência. Recebi convites para treinar equipes, mas sempre quis ser radialista.

Eu não sei se as obras da Copa vão ficar prontas. Só sei que a cada dia se está pedindo cada vez mais dinheiro para isso. É uma vergonha este país. Não tem dinheiro para educação, saúde ou segurança.

Os desvios de dinheiro são revoltantes. O papo de que as obras vão trazer incentivos é conversa. É essa a política nojenta que temos neste país.

O Messi não vai ganhar nada no Brasil, a seleção da Argentina é muito fraca. Ele é muito bom jogador, mas nada que chegue perto do Garrincha, do Pelé e de tantos outros jogadores brasileiros e da própria Argentina. E não acho que ele vá superá-los.

 

Vejam aqui a propaganda que lhe rendeu a “lei de Gérson”:

28/12/2012

às 14:00 \ Tema Livre

FOTOS RARAS E EXTRAORDINÁRIAS: nada como um dia na praia — com Marilyn e Garrincha, com Einstein e a princesa Grace, ou Elvis, Catherine Deneuve, Tom Jobim e Picasso

Cantora de ópera americana Maria Callas, em Veneza, Itália – 1950. (Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images)

A grande soprano greco-americana Maria Callas, em Veneza, Itália – 1950. (Foto: Arquivo Cameraphoto Epoche/Getty Images)

Publicado originalmente em 25 de agosto de 2012.

Ah, a praia! Areia quentinha, cochilo sob o sol, paqueras, maresia, o barulhinho das ondas quebrando na areia, pés descalços no molhadinho da beira, o balanço do mar batendo no peito…

Nada mais democrático que a praia. O marzão lá, vai quem quer. Os melhores lugares para quem chegar primeiro. E não é que princesas, intelectuais, artistas, pop stars, celebridades de todos os calibres também gostam de praia?

Nas fotos a seguir, momento de lazer de estrelas de todos os tempos.

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Picasso e Françoise Gilot, em 1948 (Foto: Robert Capa)

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Pablo-Picasso

Pablo Picasso flertando na praia (Foto: Life)

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Norma-Jeane

Antes de se tornar a deusa Marilyn Monroe, Norma Jean Mortenson, em Tobey Beach, Califórnia (Foto: Andre DeDienes)

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Max Brod e Franz Kafka

Os escritores e amigos Max Brod e Franz Kafka, numa praia da Dinamarca (Foto: Arquivo do jornal madrilenho "El País")

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Martin Luther King na Missouri Avenue Beach

Martin Luther King (à esquerda) sendo fotografado com um fã pela mulher deste(Foto: Mosley Collection e Charles Blockson Collection / Temple University)

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Marilyn Monroe e Joe DiMaggio, na Redington Beach, Califórnia, em 1961 (Foto: Bettmann / Corbis)

Marilyn Monroe e seu então marido Joe DiMaggio, ex-ídolo do beisebol, em Redington Beach, Califórnia, em 1961 (Foto: Bettmann / Corbis)

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Jorge Amado, autor baiano de Gabriela e Capitães de Areia

Jorge Amado em uma praia de sua amada Bahia, em 1976 (Foto: Otto Stupakoff)

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João Gilberto e Tom Jobim, dando uma canjinha para as fãs

A atriz inglesa Glória Paul, João Gilberto, Tom Jobim e atriz iugoslava/italiana Silwa Koscina, para uma canjinha enquanto esquentam ao sol (Foto: Folhapress)

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Atriz francesa Jeanne Moreau, em Veneza, na Itália, em 1961. (Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images)

A diva do cinema francês Jeanne Moreau, em Veneza, na Itália, em 1961. (Archivio Cameraphoto Epoche/Getty Images)

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Helô Pinheiro

Helô Pinheiro, a eterna Garota de Ipanema

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A princesa Grace Kelly, irretocável

A princesa Grace Kelly, irretocável, em 1954, clicada na Jamaica (Foto: Howell Conant)

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Garrincha, de calça, sapato e camisa, brinca sob os olhares de Elza Soares

Garrincha, de calça, sapato e camisa, brinca sob os olhares de Elza Soares (Foto: EPA)

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Gandhi, porque a paz também se controi brincando na areia

Gandhi, porque a paz também se controi brincando na areia (Foto: Gandhi Virtual Ashram)

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Gal Costa -- sem o sorriso do gato da Alice

Gal Costa -- sem o sorriso do gato da Alice

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Frank Sinatra e sua filhinha Nancy

Frank Sinatra e sua a primeira de seus três filhos, Nancy

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Desconhecidas, mas de tão lindas, merecem morar neste post

Desconhecidas, mas de tão lindas as melindrosas merecem figurar neste post (Foto: Evans)

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Clarice Lispector e seus filhos

Clarice Lispector e seus filhos (Foto: Livro Correio Feminino)

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Catherine Deneuve, surfista de ocasião

Catherine Deneuve, surfista de ocasião, e Arnaud de Rosnay, fotógrafo, surfista e aventureiro francês em 1962, na Côte des Basques, França (Foto: Blake Lively / Vogue)

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Carlos Vereza, Renata Sorrah, Dina Sfat e Djenane Machado, direto dos anos 70

Carlos Vereza, Renata Sorrah, Dina Sfat e Djenane Machado, direto da praia carioca dos anos 70

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Andy Warhol e amigas (Foto: Philip Pearlstein / Arquivo de Arte Americana / Smithsonian Institution)

Andy Warhol e amigas (Foto: Philip Pearlstein / Arquivo de Arte Americana / Smithsonian Institution)

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Albert Einstein, e o detalhe dos sapatos, em Nassau Point, Nova York, em setembro de 1939 (Foto: Reginald Donahue)

Albert Einstein: o grande gênio de bermudas e sandálias, em Nassau Point, Nova York, em setembro de 1939 (Foto: Reginald Donahue)

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Agatha Christie -- Maiô de lã verde e pranchão (Foto: Museum of British Surfing)

Agatha Christie, em 1920 -- Maiô de lã verde e pranchão (Foto: Museum of British Surfing)

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Casal polêmico -- Yoko Ono e John Lennon, comportados, em Cannes, 1970

John Lennon e Yoko Ono, em Cannes, na França, em 1971 (Foto: Traverso / Cahiers du cinema)

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Truman Capote, sentindo a leveza da maresia

Truman Capote, em 1984, pouco antes de sua morte (Foto: Harry Benson)

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Tom Jones e Elvis Presley, no Havaí

Tom Jones e Elvis Presley, no Havaí (Foto: Álbum de Família)

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Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre -- passeio na praia

Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre -- passeio em Copacabana, em 1960 (Foto: AFP)

 

15/06/2012

às 15:27 \ Política & Cia

A censura, pela Justiça, da biografia do campeão Anderson Silva é um absurdo

O livro proibido: no Brasil democrático, quem censura é a Justiça

Decisões da Justiça em uma democracia não se discutem, cumprem-se.

Isso para as partes envolvidas.

Jornalista, especialmente de opinião, discute, sim, decisões da Justiça.

Como essa espantosa adotada pelo Tribunal de Justiça do Paraná que, em atenção a medida liminar impetrada por Rudimar Ferdigo, proprietário de uma academia de lutas marciais em Curitiba, mandou proibir a circulação do livro Anderson Spider Silva — O Relato de um Campeão nos Ringues da Vida (Editora Primeira Pessoa), biografia autorizada do grande campeão dos pesos médios do UFC escrita pelo jornalista Eduardo Ohata.

O motivo: ao longo do texto do livro, entre outras declarações, Anderson chama seu ex-treinador de pessoa “do mal”, diz que ele prejudicou pessoas e sugere que comprou sua faixa preta.

Pois então que  Ferdigo processe Anderson criminalmente, peça indenizações, faça e aconteça. Proibir um livro, num Estado de Direito democrático, é um absurdo! Anderson expressou, no livro, suas opiniões. É responsável por elas.

Que seja ele processado, se for o caso. Não é admissível que, uma vez mais em uma biografia, pessoas que se sentem prejudicadas acabem prejudicando o público leitor e a liberdade de opinião, assegurada na Constituição.

É aquela velha história: com a ditadura, foi-se a censura. O que resta de censura, hoje, reside no Judiciário, em casos como esse — como ocorreu, durante anos, com Estrela Solitária (Companhia das Letras, 1995), a excelente (e respeitosa) biografia que o jornalista Ruy Castro traçou do grande craque Garrincha, já falecido, contestada na Justiça por suas filhas.

25/04/2012

às 17:02 \ Tema Livre

O império da gandaia: craques endinheirados no Rio deixam o futebol em segundo plano

DE CAMAROTE Ronaldinho como ele gosta: na boate, rodeado de garotas em espaço vip onde a entrada é controlada por um séquito de seguranças ronaldinho-gaucho-balada

DE CAMAROTE -- Treinar forte? Que nada. Ronaldinho como ele gosta: na boate, rodeado de garotas em espaço vip onde a entrada é controlada por um séquito de seguranças (Foto: Felipe Assunção)

Jogadores de futebol

O IMPÉRIO DA GANDAIA

 

Com dinheiro de sobra, muita disposição para se divertir e pouco compromisso com a disciplina, Ronaldinho Gaúcho e Adriano injetam ainda mais animação no sempre agitado roteiro festivo dos jogadores de futebol no Rio de Janeiro

 

Em pleno feriadão da Semana Santa, a polícia foi chamada ao Condomínio Mansões, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, onde mora o jogador Adriano.

O motivo era o de sempre. Um morador incomodado com o barulho da festa. Afinal, no mundo sério e disciplinado dos atletas profissionais, uma categoria que historicamente não se dobra é a dos jogadores de futebol. Se for no Rio de Janeiro, então, adeus, regulamento.

É da tradição futebolística local que toda semana os festeiros de cada time, dividindo despesas, promovam cervejadas com petiscos ou então um churrasco e sua indefectível trilha sonora, o pagode. Essa rotina se intensificou e, digamos, requintou com o desembarque no Flamengo, em fevereiro do ano passado, do atacante Ronaldinho Gaúcho, que chegou da Europa precedido da fama internacional de baladeiro.

Adriano faltou a 67 sessões de fisioterapia no Corinthians

Ronaldinho subiu o nível da gandaia. Banca as festas sozinho, servindo bebidas caras e comida de qualidade. Ele reinou sem concorrentes nessa divisão de elite até a volta de Adriano, em março, disposto a recuperar a alegria depois de uma sofrida temporada no Corinthians – em que faltou a 67 sessões de fisioterapia nas quais deveria tratar uma lesão no tornozelo.

Na madrugada de sexta-feira, a moradora da mansão dos fundos, cansada de reclamar, resolveu revidar barulho com barulho e instalou sua própria caixa de som no quintal.

Amigos de Adriano pularam o muro, pegaram o equipamento e jogaram tudo na piscina de outro vizinho.

 

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NA MANSÃO -- Convidados em volta da piscina: as festas de Adriano têm barulho, queixas de vizinhos e e a constante presença da polícia (Foto: AGNews)

A animação é tamanha que a gerência de futebol do Flamengo resolveu pedir moderação aos seus jogadores. “Tenha garra e força de vontade para deitar cedo e cumprir as atividades propostas pela nossa comissão técnica”, exortou em carta.

Gaúcho, em fase de pouco brilho e especulações de demissão, não moderou. Ele também mora em um condomínio de luxo na Barra, o bairro da cidade que oferece sob medida o que os jogadores milionários procuram: casas enormes em locais protegidos por guaritas e muros.

Barulho em locais alugados

Já incomodou muito vizinho por lá, mas aquietou-se depois que os moradores lhe entregaram um abaixo-assinado pedindo paz. Foi fazer barulho em locais alugados.

Em março, comemorou seu aniversário em dose tripla. Primeiro, reuniu a família em casa. Depois, juntou um grupo mais chegado numa suíte de motel. A festa mais animada foi em um sítio em Vargem Grande, onde várias vezes o aniversariante se refugiou no andar de cima, sempre acompanhado de uma das muitas convidadas.

Farras desse tipo não são exclusividade do Rio de Janeiro. “Onde tem jogador tem festa. Poucos atletas conseguem conciliar bem carreira com vida social”, constata Tostão, ex-jogador, atualmente comentarista.

Os clubes cariocas, tradicionalmente lenientes

Mas é no Rio que sempre montaram base os festeiros mais eméritos, começando por Garrincha e passando por gerações mais recentes cujos craques da gandaia foram o agora treinador Renato Gaúcho, o deputado federal Romário e Vagner Love – hoje casado e considerando-se “comportado”.

Os clubes cariocas são tradicionalmente lenientes. “Jogador que não anda na linha lá fora leva advertência e multa. Aqui, não”, critica Júnior, também ex-jogador e comentarista. “Para mim isso demonstra uma falta de pulso firme e profissionalismo dos clubes. Alguns inclusive atrasam salários. Como vão cobrar disciplina?”, analisa.

 

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DESCUIDO -- Jô e convidadas, na festa a fantasia: no dia seguinte, dois smartphones seus haviam desaparaecido

Quatro convidadas para cada convidado

Nesse clima favorável, anfitriões como Ronaldinho e Adriano movimentam todo um mercado de trabalho. Em suas festas, os garçons perambulam com bandejas carregadas de pizza, comida japonesa e churrasco. Um barman fica encarregado das bebidas: uísque, energético, vodca e rios de cerveja. Seguranças e amigos mais chegados convocam as amigas – no mínimo quatro para cada convidado do sexo masculino.

As moças circulam em duas categorias: as que alegram festas em troca de remuneração e as que a-do-ram jogador de futebol. Laços de amizade são renovados incessantemente nos cômodos internos, seja em duplas, seja em grupos maiores. As garotas praticam o sigilo absoluto, sob pena de serem banidas da lista de presença, controladíssima por um bando de seguranças fixos de confiança.

Limpando digitais dos copos e talheres

São eles que cuidam de impedir fotos de qualquer espécie. Cabe ainda aos seguranças pagar contas duvidosas (por exemplo, de jogadores casados) e apagar provas incriminadoras.

Um dos atuais craques do Fluminense chega a andar com um capanga a tiracolo só para limpar suas digitais de copos e talheres. Esses tipos impedem ainda furtos ocasionais, como o que sofreu o menos precavido jogador Jô, do Internacional. Numa festa a fantasia que promoveu no ano passado, surrupiaram-lhe dois smartphones recém-comprados na Inglaterra.

Os craques também desempenham suas qualidades em casas de shows e boates da Barra, onde se encerram em camarotes de entrada controlada. A conta gira em torno de 5 000 reais por noite.

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INDEVASSÁVEL -- Suíte de motel na Barra: local de festas com privacidade garantida

No Mercado do Produtor, uma área de restaurantes de frutos do mar que também lhes serve de ponto de encontro, as janelas do 2º andar ganharam tapumes improvisados de papelão para garantir a privacidade dos atletas do copo.

Motéis com churrasqueira, terraço, piscina e cascata

Igualmente requisitadas para festas são as suítes de luxo dos motéis.

A Millenium, do Vip’s, com mais de 500 metros quadrados, além de churrasqueira e terraço com piscina e cascata, foi palco de muitas e ruidosas celebrações. Custa 900 reais por oito horas, mais 100 reais por convidado extra.

Depois de tanto empenho, como é que a torcida e o clube podem querer que suas excelências, milionários de calção, ainda joguem futebol? É  pedir demais.

(Publicado em VEJA 18 de abril de 2012, por Alessandra Medina e Leslie Leitão)

20/03/2012

às 19:00 \ Tema Livre

Juca Kfouri: “Aos que não viram Pelé (e falam tanta bobagem sobre ele…)”

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Pelé comemora gol na Copa do México, em 1970 (Foto: Lemyr Martins) e Messi celebra mais um do Barça (Foto AP): falta muito para o craque argentino chegar perto do Rei

Amigos, incontestáveis os dados — e há muitos mais — apresentados por Juca Kfouri em seu blog, na segunda, 12, sobre a enorme supremacia de Pelé sobre Messi, que já muita gente contesta. (Eles precisariam pelo menos assistir ao DVD Pelé Eterno para opinar — e não fazer como o próprio Messi, que, conhecido pela modéstia pessoal, num momento de arroubo proferiu a seguinte e monumental bobagem: “Não vi Pelé jogar, mas para mim Maradona foi melhor”.

Leia o texto de Juca:
Quem pega Pelé?

Sim, Lionel Messi pode até ficar maior que Pelé. Mas terá uma longa caminhada pela frente.

PELÉ É AINDA incomparável.

Por mais que seja uma tendência quase invencível não há como comparar o extraordinário Lionel Messi, candidato a Atleta do Século XXI, com o Atleta do Século XX.

Basta dizer que, aos 24 anos, em sua oitava temporada, Pelé já havia marcado 675 gols, contra 252 do argentino com a mesma idade e o mesmo número de temporadas.

O Rei ganhara 21 títulos contra 19 do craque do Barcelona e havia marcado seis gols em duas Copas do Mundo, das quais saiu campeão, contra as mesmas duas de Messi, com apenas um gol e nenhum pódio.

Mas o que importa aqui é menos comparar aquilo que é coletivo. Porque, se o Barcelona de Messi já está no mesmo patamar do Santos de Pelé – e em matéria de títulos em clubes é bem possível que o hermano ultrapasse o Rei-, a seleção brasileira de 1958/62 era muito superior à argentina defendida pelo Pulga.

Veja, no entanto, que a diferença no número de gols é abissal. Pelé marcou 675 gols em 571 jogos, média de 1,18, contra 252 em 379, média de 0,66.

E que não se diga, por mentira histórica, que era mais fácil fazer gols nos tempos de Pelé e que mais fácil ainda era marcá-los no Campeonato Paulista, não só porque times como os da Ferroviária, do Guarani, da Ponte Preta, eram melhores que os atuais do Racing Santander, do Zaragoza, do Villarreal, como porque Pelé vivia fazendo gols nos campeões europeus nas estrepitosas excursões do Santos, assim como os fez na Copa do Mundo.

Basta dizer que, só no Benfica, nos dois jogos que decidiram o Mundial de Clubes de 1962, ele fez cinco dos oito gols praianos nas vitórias por 3 a 2, no Maracanã, e por 5 a 2, no Estádio da Luz. E que, três anos antes, fizera dois na goleada (5 a 1) sobre o Barcelona, campeão espanhol, no Camp Nou.

E que fique claro que nenhum saudosismo move tais constatações, até porque aqui se dá de barato que Messi poderá superar Pelé.

E que nem precisará ser mais campeão que ele para tanto, mas, apenas (?!!!) manter por mais 13 anos este pique admirável, além de crescer em sua já fabulosa eficácia.

No quesito títulos, Messi já deixou para trás Maradona, que não ganhou nada de importante até os 24 anos. E já quase empata com ele na média de gols, que é de 0,68, fruto de 182 gols em 264 jogos. Diego, como Garrincha, era mais espetacular.

Mas todos ainda são súditos do Rei.

*Texto publicado na coluna de hoje da “Folha de S.Paulo e excepcionalmente reproduzido aqui.

05/01/2012

às 14:35 \ Tema Livre

O grande Cruyff, um dos maiores craques da história, em entrevista: “Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.”

Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

 

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

Cruyff com Daniel, autografando a camiseta... para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do dream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

04/12/2011

às 20:05 \ Disseram

Garrincha é tema de besteirol de jogador português

“Houve um brasileiro melhor que Pelé: Garrincha. Tinha uma perna torta e outra normal, como podia fazer tudo aquilo? Era um paralítico.”

Eusébio,  ex-craque português, falando muita bobagem numa só frase.

 

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