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EUA

09/01/2013

às 17:00 \ Vasto Mundo

Vídeo ESPANTOSO: na China, cidades inteiras, novinhas em folha, construídas para ninguém morar. Há 64 milhões de imóveis vazios, e centenas de milhões de pessoas sem ter onde morar

Milhares de apartamentos vazios, árvores, jardins, avenidas: nada de gente, nada de automóveis (Foto: wnd.com)

Publicado originalmente em 25 de junho de 2012.

Cidades inteiras, com conjuntos habitacionais imensos, maciços de escritórios, shoppings center gigantescos – vazias.

Bairros repletos de aranha-céus, centros comerciais maiores do que de Miami ou de Cingapura – e nenhuma pessoa dentro, nenhum movimento, nada.

Cidades fantasmas, que custaram centenas de bilhões de dólares.

Isto está acontecendo na China. Para manter alto o crescimento do PIB determinado pelas autoridades centrais do Partido Comunista, em Pequim, dirigentes provinciais e municipais mandam ver – e a maneira mais fácil de conseguir crescimento econômico, em números, é a construção civil.

Bairros residenciais enormes, completos, boas casas, jardins, alamedas, imitando os subúrbios americanos... sem ninguém (Foto: meuploads.com)

Há, porém, um pequeno problema: os imóveis não têm demanda – são caros demais para o poder aquisitivo da maioria das pessoas. Sem contar que, volta e meia, são construídos em áreas obviamente inadequadas, como na zona rural, onde trabalhadores sobrevivem com rendimentos miseráveis.

Há um inacreditável, atordoante estoque de 64 milhões de moradias vazias. “Quando a bolha imobiliária chinesa estourar”, diz o consultor britânico Gillen Tullock, baseado em Hong Kong, “a dos Estados Unidos vai parecer brincadeira”.

Paradoxalmente, centenas de milhões de chineses moram em condições miseráveis.

Confiram na ótima reportagem do jornalista Adrian Brown, do programa Dateline, da emissora de TV Special Broadcasting Service da Austrália.

O vídeo é arrasador.

09/01/2013

às 14:00 \ Vasto Mundo

Veja as fotos de mulheres soldados de diversos países. É uma conquista, mas problemas e preconceitos continuam a existir

Publicado originalmente em 25 de fevereiro de 2011.

Fardadas e de fuzil na mão, as mulheres podem passar despercebidas no meio de uma tropa, embora estejam conquistando cada vez mais espaço dentro das Forças Armadas em diferentes países do mundo.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Em países como Alemanha, Canadá, Dinamarca, Finlândia, Israel, Noruega, Nova Zelândia, Suécia e Suíça, por exemplo, elas podem participar, inclusive, da linha de frente dos combates. No Brasil, só podem ser combatentes, por enquanto, as mulheres pilotos de caça da Força Aérea Brasileira (FAB), como é o caso da tenente aviadora Daniele Lins, primeira na galeria de fotos abaixo.

Só nos Estado Unidos, entre 2003 e 2009, mais de 200 mil mulheres serviram no Oriente Médio, principalmente no Iraque. Entre elas, cerca de 600 ficaram feridas e pouco mais de 100 morreram em combate. Na França, de acordo uma pesquisa divulgada pelo Ministério da Defesa, entre os cerca de 340 mil soldados no país, há mais de 50 mil mulheres.

Um email que circula na internet mostra militares de diversos países com seus respectivos uniformes.

As bonitas fotos que selecionamos, entretanto, não mostram um dado alarmante: elas continuam sofrendo preconceito dentro das Forças Armadas e os casos de estupro são freqüentes. Por exemplo: cerca de 3 mil militares norte-americanas sofreram violência sexual em 2008, 9% a mais do que no ano anterior. Dentre as que estavam servindo no Iraque e no Afeganistão, o número subiu para 25%.

Em 2009, segundo dados do Exército americano divulgados pelo site da BBC, 30% das mulheres foram estupradas durante o serviço militar, 71% foram vítimas de violência sexual e 90% de assédio sexual.

Isso sem consideram os casos não divulgados. Um relatório do Government Accountability Office, organismo investigativo do Congresso dos EUA, concluiu que 90% das agressões sexuais não são notificadas, na maioria dos casos, devido ao receio das vítimas de serem perseguidas.

Brasil

Áustria

Coreia do Sul

EUA

Grécia

Indonésia

Irã

Nepal

Noruega

Reino Unido

República Checa

Suécia

Turquia

04/01/2013

às 17:00 \ Tema Livre

Da droga para a lama: imagens chocantes mostram a destruição física de viciados

Publicado originalmente em 25 de julho de 2011.

Depois de algum tempo, os cabelos já não são os mesmos. O rosto perde a cor. As bochechas somem. Os dentes caem.  A pele ganha manchas, olheiras, rugas, machucados. Os olhos perdem completamente o brilho.

Esses são os efeitos físicos mais visíveis causados pela uso de drogas pesadas, incluindo cocaína, heroína e metanfetamina – como você pode ver nas chocantes imagens abaixo.

As fotos à esquerda mostram viciados em drogas ao serem presos pela primeira vez. As da direita revelam as mesmas pessoas algum tempo depois, durante a segunda, terceira ou quarta passagem pela cadeia. As imagens foram organizadas pelo gabinete do xerife do Condado de Multnomah, no Estado de Oregon, nos Estados Unidos, com o objetivo de alertar a população para os efeitos reais das drogas.

E são apenas os efeitos físicos. Imaginem os efeitos psicológicos. Assustador, não?!

LEIA TAMBÉM:

Reportagem imperdível: como é e o que mostra o documentário sobre drogas que teve FHC como fio condutor.

Drogas: entenda a real posição de FHC sobre o assunto. Não é nada de “liberou geral”.

viciado-drogas

Fotos com diferença de 7 anos

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Diferença de 3 anos

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Diferença de 3 anos

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Diferença de 4 anos

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Diferença de 2 anos

viciado-drogas7

Diferença de 4 anos

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04/01/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Em vídeo espetacular, e em fotos, o incrível “USS Independence”, novo barco de guerra da Marinha americana

O "USS Independence": capacidade de navegar a 70 km/h por quatro horas seguidas, enquanto outros porta-aviões atingem apenas 50 km/h

Publicado originalmente em 8 de junho de 2011.

Amigos, este novo barco de guerra da Marinha americana, o USS Independence, é uma novidade tecnológica que pode revolucionar a concepção das armadas do mundo. Algo como os porta-aviões que, a partir do afundamento do poderoso Bismarck da Alemanha nazista, durante a II Guerra Mundial, em 1941, determinaram o fim da era dos grandes encouraçados.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Os tempos das velhas batalha visuais, que desde os galeões dos piratas colocava cada barco no seu horizonte de tiro, foi dramaticamente encerrada com o advento da aviação embarcada.

Um simples avião com um único torpedo era capaz de derrubar um colosso de aço: foi o que aconteceu com o Bismarck, que perdeu o rumo ao ser golpeado no leme pelo torpedo lançado pelo pequeno avião Swordfish que decolou do porta-aviões britânico HMS Ark Royal.

Rodando em círculos no Atlântico, a jóia de Hitler foi cercado pela Marinha inglesa, a Royal Navy, e afundado em maio de 1941.

A moderna cabine de controle do "Independence": sistema de informação aberto e flexível, o que permite rápida adaptação às novas tecnologias

Esse novo conceito de guerra naval chegou ao extremos meses depois, em junho de 1942, na batalha de Midway, quando duas frotas se enfrentaram sem se verem. O combate aconteceu entre os aviões que decolaram de lado a lado. Afundando nada menos do que 4 porta-aviões japoneses, os EUA viraram a maré da guerra no Pacífico num confronto decisivo.

Pois este novo barco, o LCS (iniciais em inglês de “navio de combate no litoral”), ao que tudo indica, pode ser algo tão revolucionário quanto. Até pelo design, absolutamente inovador.

O navio foi construído para realizar três missões específicas: ações contra minas, combates em superfície e ataques a submarinos

É um protótipo leve, rápido como seria um carro da Fórmula-1 nas mesmas condições (faz 50 nós, 90 km por hora), construído em forma de agulha e que não passa de uma letal variação blindada de um trimarã. Carrega 3 helicópteros armados, tem forte poder de fogo — 3 canhões e 5 metralhadoras pesadas de diferentes calibres — e alta tecnologia nos seus 3 radares e 2 sensores eletrônicos, embora necessite de apenas 40 tripulantes. Pode, portanto, ser um fator de desequilíbrio em qualquer enfrentamento no mundo.

O USS Independence é todo modulado, capaz de receber muita variação de armamento, e, apesar de seus 130 metros de comprimento, consegue fazer curvas na água que só uma lancha ou um jet-ski poderia imitar.

Vejam-no em ação. O vídeo é impressionante:

 

03/01/2013

às 19:00 \ Vasto Mundo

Venezuela: Chávez faz uso obsceno de sua doença para fins políticos

Chávez e suas filhas na sacada de sua casa em Caracas: forma barata e demagógica de explorar o câncer

Publicado originalmente em 15 de julho de 2011

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Amigos, boa parte de vocês não tinha idade na época para saber, ou já não se lembra mais, mas houve um político americano de destaque que, ao saber que portava um câncer terminal, fez da doença, paradoxalmente, uma celebração da vida que lhe restava.

Humphrey na capa da "Time "em abril de 1966

Trata-se do 38º vice-presidente dos Estados Unidos, Hubert H. Humphrey, um liberal extremamente preparado para a Presidência cuja lealdade ao presidente Lyndon Johnson (1963-1969) e a condução da impopularíssima Guerra do Vietnã o levaram à derrota por pequena margem, como candidato democrata, diante do republicano Richard Nixon em 1968. Ela já havia tentado ser o candidato democrata em 1960, contra John Kennedy, e voltaria a lutar pela candidatura em 1976, contra o então ex-governador da Geórgia Jimmy Carter.

Após essas tentativas à Casa Branca, Humphrey voltaria ao Senado, onde havia despontado para a política, vencendo duas eleições consecutivas até que o câncer o apanhou, em meados de 1977, aos 67 anos. Longe de esconder o problema e sumir de vista do público, numa época em que assumir a doença e falar dela em público eram um tabu, ele optou por revelar ser portador, enfatizar que tinha pouco tempo de vida e continuar com sua apertada agenda de senador importante. Não recusou palestras nem entrevistas, mesmo quando versasse sobre sua saúde.

Brincalhão, Humphrey telefonou ao rival para convidá-lo a seu enterro

Mais: no hospital em que se tratava, sistematicamente visitava doentes graves para encorajá-los. Brincalhão, telefonou para o velho rival, Nixon, convidando-o para o futuro enterro. Foi homenageado pela Câmara dos Representantes em sessão conjunta, caso único na história dos Estados Unidos. Na última viagem que faria a Washington antes de regressar a seu Estado natal, Minnesota, para morrer, o presidente Jimmy Carter homenageou Humphrey, simbolicamente, colocando-o onde ele tentou várias vezes, sem sucesso, estar, na condição de comandante supremo – como passageiro principal do Air Force One, o avião presidencial.

A revista Time, diante disso tudo, publicou uma reportagem inesquecível, intitulada “The public dying of Hubert Humphrey” (a tradução literal não confere o sentido original da frase, que seria algo como “O processo de morrer em público de Hubert Humphrey”).

Humphrey, já abatido pelo câncer e próximo da morte, com o presidente Jimmy Carter a bordo do Air Force One, em 1977

Chávez explora sua tragédia de forma barata e demagógica

Pois bem, amigos, tudo isso para mostrar um outro exemplo, bem menos palatável, de exposição pública dos problemas de saúde de um político. Refiro-me à forma barata, lacrimosa e demagógica como o homem forte da Venezuela, coronel Hugo Chávez, explora sua tragédia pessoal com o câncer que o acometeu e de que foi operado em Cuba.

Desde que voltou de surpresa à Venezuela, dias atrás, após um sumiço de quase um mês que provocou uma crise política e deixou a população sem informações, Chávez incorporou o câncer, suas formas de tratamento e suas chances de recuperação à ladainha de discursos intermináveis com que bombardeia diariamente os venezuelanos pela TV e pelo rádio. (Leia aqui uma das notícias a respeito).

Transparência é uma coisa, o carnaval sinistro de Chávez, outra

Ora abraçado às filhas, ora beijando a bandeira da Venezuela e em uniforme militar, Chávez não pára de falar no assunto. Transparência sobre a saúde dos governantes é uma coisa – algo desejável e digno de aplauso nas democracias. Mais que isso: é obrigação, quase nunca cumprida, pelos dirigentes. Outra coisa é o carnaval sinistro, francamente obsceno, que Chávez vem levando a cabo, no curso do qual se detém a explicar se o câncer atingiu ou não determinada região de seu organismo, a comentar diferentes tipos de tumores, a contar detalhes de sua quimioterapia — tudo em meio a juras de amor ao país, a metáforas cafonas sobre escalar montanhas e por aí vai.

Foi uma forma mórbida que o coronel encontrou de manter-se em mais evidência ainda do que normalmente ocorre. Com dois aparentes objetivos: o primeiro, e mais imediato, é inibir ambições dentro de seu grupo, os principais pau-mandados que tem no seu partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O segundo, de mais longo prazo, é comover o eleitorado, preparando terreno para sua terceira reeleição no pleito de dezembro do ano que vem.

Não é de se estranhar que Chávez recorra a esse tipo de comportamento para fins políticos. Ele já atingira limites inimagináveis ao promover a exumação do cadáver do libertador Simón Bolívar — o grande general e revolucionário venezuelano que, em guerras contra a Espanha colonial, liderou o processo de independência de Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá e seu próprio país — e mandar transmitir tudo pela TV, ao vivo, numa operação supostamente destinada a investigar as reais causas de sua morte.

Venezuelanos continuam sem informação confiável

Paradoxalmente, os venezuelanos, agora encharcados pela discurseira sobre a doença presidencial, até agora não sabem com precisão de onde foi extirpado o tumor inicial, se houve ou não metástese, se os prognósticos do presidente são bons, regulares ou maus – de há muito a Medicina tem como prestar essas informações, que o país de Chávez continua ignorando.

Chávez, como se sabe, acabou não aceitando a sugestão da presidente Dilma Rousseff para vir tratar-se periodicamente no Brasil, provavelmente no Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo. Nesses períodos, os venezuelanos provavelmente seriam poupados do despudor presidencial com a própria intimidade. Agora, não mais.

14/10/2012

às 12:00 \ Vasto Mundo

FOTOS: O imbatível acervo fotográfico da “National Geographic”, disponível no site da revista; inclui imagens inéditas

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Dançarina de Bali, Indonésia, captada em fotografia da década de 1930: acervo precioso (Foto: Andre Roosevelt, National Geographic Stock)

Quando o assunto é fotografia de diferentes lugares do mundo e seus habitantes – sejam pessoas ou animais – realmente é difícil bater a revista National Geographic (fundada em 1888 em Washington e cuja versão brasileira por ser espiada em seu site ).

E, para deleite dos “curiosos visuais”, o site oficial da matriz americana está sempre aumentando seu acervo digital, baseado em uma coleção acumulada em 124 anos de história. Uma sessão do sítio batizada Flashback  traz preciosas fotografias de colaboradores em diferentes períodos, boa parte delas inéditas na versão impressa.

Abaixo, algumas imagens para abrir o apetite dos leitores:

Gatinho se impressiona ao flutuar sobre uma parente da vitória-régia nas Filipinas em 1935 (Foto: Alfred T. Palmer)

Gatinho se impressiona ao flutuar sobre uma parente da vitória-régia nas Filipinas, em 1935 (Foto: Alfred T. Palmer)

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Na aristocracia da Coreia em 1916 era assim: noivo de 12 anos, noiva de 10 (Foto: Mary G. Lucas - National Geographic Stock)

Keystone-National-Geographic

Operadoras de telefone em Richmond, Virginia (EUA), na década de 1880 (Foto: Keystone)

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Em 23 de janeiro de 1920, as famosas Cataratas de Niágara, entre os EUA e o Canadá, congelaram e ficaram assim (Foto: International Film Services)

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Robert E. Peary (1856-1920), explorador americano que alegava ter sido o primeiro a chegar ao Pólo Norte, dá duro em Camp Jesup, perto do "Topo do Mundo" (Foto: Robert E. Peary Collection)

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Curiosíssima cerimônia hadaka matsuri, que celebra o Ano Novo Lunar, realizada em meados dos anos 1940 no templo Saidaiji, em Okayama, Japão (Foto: Horace Bristol Jr.)

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Em plena década de 1950, pessoas relaxam em spa geotermal natural (Foto: Amsterdam Press Agency-National Geographic Stock)

Coney-Island-National-Geographic-x Inc.-Time & Life Pictures-Getty Images

Guarujá? Ipanema? Não, Coney Island, em Nova York, nos idos de 1951 (Time & Life Pictures/Getty Images)

Wide-World-Photos-National-Geographic

Cães, sempre eles: aqui, registro de 1958 de uma simpática dupla que ganhou lugar cativo em um Plymouth especialmente desenhado por seu dono em Victoria, British Columbia (Canadá) (Foto: Wide World Photos, Inc-National Geographic Stock)

Beverly B. Dobbs-National-Geographic

Coleção de inverno 1900: esquimó posa em estúdio em Nome, Alasca, vestindo casaco feito com intestino de foca (Foto: Beverly B. Dobbs)

 

21/08/2012

às 15:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: Chacina olímpica

Parabéns, Yane. E obrigado, Yane (Foto: Darren Staples / Reuters)

Parabéns, Yane. E obrigado, Yane (Foto: Darren Staples / Reuters)

Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas

CHACINA OLÍMPICA

No festiva de bizarrices em que consiste uma Olimpíada, a bizarrice maior estava reservada para o último dia — a prova do pentatlo moderno. Os brasileiros tiveram sua atenção despertada para essa modalidade por causa da medalha de bronze obtida por Yane Marques, uma graciosa sargenta (sim, sargenta) natural da cidade pernambucana que porta o belo e trágico nome de Afogados da Ingazeira.

Parabéns, Yane. E obrigado, Yane. Ao nos revelar o pentatlo moderno, ela nos ajudou a entender a natureza profunda do festival quadrienal a que se dá o nome de Olimpíada.

O pentatlo moderno consiste numa sequência de provas de esgrima, natação, equitação, tiro e corrida. Nada mais sem pé nem cabeça, à primeira vista. E nada mais difícil de o público acompanhar e torcer, tanto pela necessidade de enfronhar-se nas regras de diferentes esportes, na maioria obscuros ao entendimento comum, quanto de manter os olhos nos diferentes palcos em que se travam as disputas.

O pentatlo moderno é estapafúrdio como seria, para uma pessoa, exibir simultaneamente as habilidades de dançarino e de orador, de torneiro mecânico, de observador de pássaros e de economista. Mas começa a soar lógico quando se conhecem sua origem e seus propósitos.

A prova foi inventada pelo próprio barão de Coubertin, o fundador dos modernos Jogos Olímpicos. Segundo se aprende nas enciclopédias, é a única inventada expressamente para figurar nos Jogos. A primeira disputa ocorreu em 1912, na Olimpíada de Estocolmo, e em quinto lugar ficou um jovem soldado americano de nome George Patton, mais tarde consagrado como um dos generais que conduziram à vitória de seu país na II Guerra Mundial.

Da sargenta Yane ao general Patton — o leitor captou a conexão? Se ainda não, vamos em frente. Na Grécia antiga, o pentatlo era composto de provas de corrida, luta, salto, lançamento de dardo e lançamento de disco. O propósito da série salta mais à vista do que na versão moderna: são habilidades que conformavam o soldado ideal. Além das habilidades básicas de correr e saltar, o atleta/soldado era testado no manejo de armas, como eram na época o dardo e outros objetos passíveis de ser atirados contra o inimigo, e na luta corporal.

Com o pentatlo moderno, Coubertin quis atualizar o teste do bom soldado. Hoje tal atualização soa ultrapassada: o soldado que Coubertin tinha em mente era o do século XIX. Mas permanece o caráter militar do esporte — daí Patton, daí nossa Yane, treinada por um major do Exército, e ela própria feita sargenta. E daí também a base a partir da qual nos é permitido ir além na decifração da natureza profunda das Olimpíadas.

O pentatlo, junto com a maratona, que celebra a proeza do soldado grego Feidípedes, escancara, no último dia da competição, o segredo tão bem encoberto nos dias precedentes pela cantilena de paz, concórdia e espírito olímpico: Olimpíadas são guerras. E guerras pavorosas, de todos contra todos, como no pesadelo de Hobbes. Centenas de países se digladiando, cada um por si contra centenas de outros.

Com o Pentatlo Moderno, o Barão de Coubertain quis criar o soldado ideal, hoje já há muito ultrapassado

Com o Pentatlo Moderno, o Barão de Coubertin quis criar o soldado ideal, hoje já há muito ultrapassado

Sendo guerra, a Olimpíada de Londres só podia terminar, nos tempos que correm, como terminou: com a vitória massacrante das potências nucleares. As quatro principais — EUA, China, Grã-Bretanha e Rússia — ocuparam os quatro primeiros lugares, nessa ordem. Juntas, somaram 137 medalhas de ouro. Se a esse total se adicionam as onze obtidas pela França, o quinto membro do original e imbatível clube nuclear, classificada em sétimo lugar, temos 148 medalhas de ouro — só três a menos do que a metade das 302 em jogo. É uma devastação. No day after, o que temos é paisagem lunar, poeira atômica na atmosfera, cadáveres empilhados, mortos-vivos a perambular entre ruínas.

O Brasil foi tratado como um dos mortos-vivos. Os comentaristas lamentaram o que, tudo considerado, teria sido um resultado acachapante. Bem pesadas as coisas, no entanto, tem-se que o 22° lugar obtido pelo país é bem melhor do que outros indicadores de sua posição no mundo — o 84° lugar (entre 187) no IDH, ou o 57° lugar (entre 65) no Pisa, o índice internacional de avaliação de estudantes.

Na guerra de Londres, o Brasil até conseguiu refugiar-se num canto do qual lhe foi possível disparar alguns tirinhos, enquanto se esquivava do pior do contágio atômico. Um problema do país, se isso é problema, é que cinco das dezessete medalhas foram obtidas em jogos de bola (vôlei e futebol) e bola não é nem nunca foi arma. É brinquedo. Só serve para entreter soldado de folga.

30/07/2012

às 19:00 \ Tema Livre

Fotos de dar vertigem: os trabalhadores da nova megatorre One World Trade Center, em Nova York, trabalhando a 400 metros de altura

Uma grua é testada no 93º andar do One World Trade Center (Foto: Joe Woolhead)

Uma grua é testada no 93º andar do One World Trade Center (Foto: Joe Woolhead)

Se a mera contemplação das fotos que ilustram este post já dá vertigem, imaginem só estar na pele dos protagonistas destas imagens.

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Guindaste iça viga de aço no 100º andar (Foto: AP)

Estamos falando dos trabalhadores que, trajando não mais que os equipamentos básicos exigidos em uma obra, colocam a mão na massa a altitudes de quase 400 metros na construção do One World Trade Center, em Nova York, em andamento desde 27 de abril de 2006.

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O céu é o limite para os trabalhadores do OWTC (Foto: Sipa USA/Rex Fetures)

Mesmo lugar do WTC original

Originalmente batizado The Freedom Tower (“Torre da Liberdade”), o edifício de 104 andares ocupa o espaço deixado pelo World Trade Center 6, de oito andares, que era parte integrante do complexo de sete edifícios World Trade Center, destruído pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

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O "vizinho" Empire State Building visto do alto do OWTC (Foto: Reuters)

Ainda que não esteja concluído – a previsão do fim das obras é no final do ano que vem – O One Trade Center é oficialmente, desde 30 de abril, o prédio mais alto de Nova York. Na ocasião, a megatorre superou os 380 metros de altura do lendário Empire State Building, que desde o massacre promovido pela Al Qaeda voltara a ocupar o primeiro posto na vertiginosa lista.

Simbologia patriótica

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O presidente Barack Obama visita as obras em 14 de junho (Foto: World Trade Center)

A altura que o OWTC ostentará em sua inauguração será de exatamente 1.776 pés, em alusão ao ano da Independência dos Estados Unidos. “Traduzindo” os números, isso significa 541,3 metros, o que credenciará o edifício desenhado pelo arquiteto David Childs, do escritório SOM,como o mais alto do Ocidente e o terceiro mais alto do mundo (perdendo apenas para o Burj Khalifa, nos Emirados Árabes Unidos, com 828 metros, e o Royal Clock Tower Hotel, com 601, em Meca, na Arábia Saudita).

OWTC

Um trabalhador fotografa de um dos andares mais altos do edifício (Foto: AP)

A simbologia patriótica do projeto, estimado em 3,8 bilhões de dólares (8,2 bilhões de reais), vai além da altura e do local escolhido: a antena de 124 metros que reinará no cume do gigantesco prédio, que começa a ser instalada nos próximos meses, também foi desenhada de forma que evoque a Estátua da Liberdade.

Mais números

Quando estiver funcionando, o One World Trade Center oferecerá nada menos do que 914 mil metros quadrados de espaço para seus escritórios, que se distribuirão por 71 dos 104 andares. Acima de tudo, haverá um grande observatório panorâmico da cidade e um parapeito, com respectivas alturas simbólicas de 415,1 e 416,9 metros, as mesmas das duas Torres Gêmeas.

Rockfeller OWTC

Outro edifício alto e clássico de Nova York, o Rockfeller, também pode ser bem observado do OWTC (Foto: AFP/Getty Images)

Para acompanhar o progresso das obras do OWTC com fotos, notícias e uma câmera 24 horas, acessem o site oficial do World Trade Center.

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O horizonte de Nova York quando as Torres Gêmeas ainda existiam... (Foto: Daily Mail)

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...e o horizonte atual, com o OWTC em fase quase final de obras (Foto: AP)

27/06/2012

às 18:41 \ Tema Livre

Fotos e vídeo: silos para mísseis da Guerra Fria são transformados nos EUA em condomínios de luxo, subterrâneos e “anti-Apocalipse”

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Projeção de como será o Survival Condo por dentro: sete andares em 53 metros subterrâneos, com paredes externas com espessura de 2,7 a 9 metros! (Imagem: Survival Condo)

Chame-o de paranoico; chame-o de nerd que exagerou nos filmes de ficção científica; chame-o de crente nas teorias de que o Apocalipse está próximo; ou o chame simplesmente de um homem precavido.

Não importa a qual destas opiniões a respeito do investidor imobiliário norte-americano Larry Hall o leitor se inclinará ao final deste post. Com certeza em um ponto todos concordarão: trata-se de um homem de negócios para lá de criativo e até mesmo visionário.

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O investidor Larry Hall na entrada do Survival Condo (Foto: AFP)

Foi Hall, de 55 anos, quem desembolsou cerca de 22 milhões de reais – “sem contar aquisição do terreno, demolições e projeto arquitetônico” – para, aproveitando um desativado silo para mísseis intercontinentais de 53 metros de profundidade construído em 45 mil metros quadrados em Salinas, no Estado de Kansas, nos anos 1960, criar um condomínio de luxo subterrâneo e com resistência “anti-tudo”. E que, às vésperas do “fim do mundo” de acordo com o calendário Maia – 21 de dezembro de 2012 -, já lucrou consideravelmente com a ideia.

Abecedário de “ameaças”

Segundo seu criador, o projeto, batizado Survival Condo (“Condomínio de Sobrevivência”), é útil no caso da concretização de um verdadeiro abecedário de “ameaças” (todas devidamente detalhadas no site oficial). Só para ficarmos entre os males naturais do Planeta Terra listados por Hall, temos: furacões, inundações, terremotos, secas, tornados e vulcões em erupção.

Indo mais longe, ele menciona “tempestades solares” e até mesmo “contato alienígena” como boas razões para que alguém decida ir morar em um bunker. Para não falar – e sim, ele fala – de epidemias e de possíveis ataques nucleares praticados por terroristas.

Imagem dos anos 1960 mostra parte externa do bunker comprado por Hall (Foto: Survival Condo)

Imagem dos anos 1960 mostra parte externa do bunker comprado por Hall (Foto: Survival Condo)

Estes últimos, aliás, foram os temores originais que ocasionaram a criação, em território americano, de 72 bunkers como o comprado por Hall, que abrigava silos de mísseis. A maioria surgiu no período do auge das tensões militares entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

Como são os apartamentos subterrâneos

Para convencer os compradores, dispostos a pagar entre 2,2 milhões e 4,4 milhões de reais por apartamento (que pode chegar a 167 metros quadrados de área), Hall caprichou tanto no que se refere a segurança e subsistência – utilizando a estrutura já ultra-reforçada dos bunkers originais, com suas 600 toneladas de barras protetoras – quanto no que diz respeito a luxo.

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Projeção de um apartamento so condomínio subterrâneo (Imagem: Survival Condo)

Os oito “sub-apês”, distribuídos em sete andares, são virtualmente impenetráveis, com paredes cuja espessura varia de 2,5 a 9 metros de concreto maciço, respaldadas de uma grade de proteção militar. A energia interna provém de diversas fontes disponíveis — incluindo placas solares — no edifício, que conta também com filtros de ar anti-gases nucleares. E não para por aí: estão incluídos no pacote unidade cirúrgica, centro de comunicações, sensores meteorológicos, reservatório para até 95 mil litros de água, horta hidropônica e um pequeno arsenal de armas de fogo.

E como fazer com os alimentos de quem se isola a tantos palmos abaixo do solo? Não há com que se preocupar. Cada apartamento de andar inteiro, apto a acomodar confortavelmente entre 6 a 10 pessoas, possui um suprimento de comida desidratada suficiente para nada menos que 5 anos de sobrevivência de cada morador. Ou seja, pelo menos 30 anos de alimentação estão garantidos, segundo Hall.

Quanto às mordomias encontradas nas “unidades”, como batizou Hall os apartamentos, não são nada de se jogar fora: piscina coberta, minicinema, bar, sala de ginástica, spa…

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Piscina coberta está entre os luxos dos apartamentos, que custam entre R$ 2,2 milhões e R$ 4,4 milhões (Imagem: Survival Condo)

Compradores famosos e apartamentos quase esgotados

Embora não revele o quanto gastou na compra do bunker e do silo, Hall dá a entender de que foi praticamente de graça, em comparação aos 33 milhões de reais torrados somente na estrutura de concreto quando da construção pelas Forças Armadas americanas, na década de 1960.

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Esta outra imagem mostra como é o posicionamento do condomínio dentro do chão (Imagem: Survival Condo)

De acordo com o site do Survival Condon, todas as seis unidades de andar completo e uma das duas unidades de meio andar já foram vendidas, embora o condomínio ainda esteja em fase de finalização. Resta apenas um apartamento. Entre os compradores, cujas identidades ele não revela, há um ex-jogador da principal liga de futebol americano (NFL), um automobilista, um escritor e mais “gente de cinema e da música”.

No vídeo abaixo, da CNN (infelizmente sem legendas em português), o pacato e objetivo Hall explica mais sobre o Survival Condon contando, entre outras coisas, que o principal obstáculo para o seu empreendimento foi a atual crise financeira que assola muitos países. “Tansformamos armas em dispositivos de sobrevivência”, diz o investidor na reportagem.

22/01/2012

às 19:30 \ Política & Cia

73 mudanças na Constituição em 28 anos — e mais de duas mil propostas para alterá-la — mostram que não sabemos, ainda, que país queremos

Publicado originalmente em 17 de novembro de 2011

Amigos do blog, discute-se muito quais são os principais problemas do país. E aí aparece de tudo — desde a morosidade da Justiça à má distribuição de renda, dos altos índices de criminalidade à má qualidade da educação pública.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Não tem estado na agenda nacional, porém — pelo menos de maneira expressa –, um item fundamental: que país queremos que o Brasil seja?

Vejam bem, a próxima reforma constitucional (e não faltam, como veremos, emendas em andamento), quando for aprovada, será — segurem-se — a 74ª alteração a uma Constituição aprovada há apenas 23 anos. São 67 emendas constitucionais e 6 emendas chamadas “de revisão“, mas recebem esse apelido não por terem sofrido uma revisão ortográfica, e sim por haverem sido aprovadas cinco anos depois da entrada em vigor da Carta, que previa essa revisão automática.

A cada 3 meses e 24 dias, muda-se a Constituição

Feitas as contas, é uma coisa espantosa, absurda, sem pé nem cabeça: mudamos a nossa Carta Magna,, nossa lei fundamental, a cada 3 meses e 24 dias!

Com todo o respeito, nem regulamento de campeonato de futebol no Brasil muda tanto, e há muito tempo.

Só para comparar: a Constituição dos Estados Unidos foi emendada 27 vezes desde 1787 – uma alteração a cada 8,3 anos. A mais recente ocorreu há 19 anos. Na nossa Constituição, em dezembro do ano passado.

A Constituição da Espanha, desde 1978 regendo a vida de um país complexo, composto de várias nacionalidades, culturas e idiomas, e egresso de 36 anos de uma ditadura feroz instalada após uma guerra civil que causou 1 milhão de mortos, tinha sofrido até hoje apenas uma pontual alteração em 1992, para incorporar a elegebilidade de estrangeiros nas eleições municipais, em consequência do Tratado de Maastricht, um dos textos básicos da União Europeia.

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Constituição espanhola: só uma alteração, em 1992, para incorporar um ponto do Tratado da União Européia; a outra entra em vigor apenas em 2020

Nossa Carta, na contramão da História

A segunda alteração se deu em setembro, como forma de conter a desconfiança na capacidade de o país honrar suas dívidas diante da maré da crise financeira, e estabelece que uma lei fixará limite para o déficit público.

A Constituição é tão levada a sério que houve um clamor nacional pelo fato de a emenda haver sido aprovada apenas pelo Congresso, embora por esmagadora maioria de 90% de votos devido ao acordo entre os dois grandes partidos, o Socialista, do governo, e o Partido Popular (PP), conservador, de oposição, e não ser submetida a um referendo. E isso para uma emenda que entrará em vigor em… 2020.

No Brasil, aprovada na contramão da História, a Constituição de 1988 atribuiu ao Estado um papel e um peso na vida do país que a experiência doméstica e internacional já tinham mostrado não ter mais sentido. O Muro de Berlim cairia um ano depois.

A “Constituição Cidadã” do dr. Ulysses Guimarães também não se sentou para fazer contas, distribuindo direitos para todo lado sem se preocupar com quem pagaria a fatura.

Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988

Ulysses Guimarães e a Constituição de 1988, a "Constituição cidadã": ficou a pergunta - quem pagaria as contas de tantos direitos?

País “ingovernável”

Na fase final de discussões da Constituinte, o então presidente da República, José Sarney, que conviveria pouco mais de um ano de seu mandato (1985-1990) com a nova Carta, advertiu que o país se tornaria “ingovernável” com ela do jeito que estava sendo estruturada.

No governo Fernando Collor (1990-1992), o Palácio do Planalto realizou um levantamento em seu texto: ele continha cinco vezes mais a palavra “direito” do que a palavra “dever”.

Não é por acaso, pois, que só na Câmara dos Deputados tenham sido propostas desde sua entrada em vigor nada menos do que 2.702 emendas. Isto mesmo, amigos: duas mil, setecentas e duas emendas! Dessas, 225 aportaram na Câmara após aprovadas pelo Senado, e 2.477 se originaram do Executivo ou dos próprios deputados.

Delirante furor mudancista

Uma série de medidas propostas, sobretudo pelos governos que sucederam Sarney, se explica, é claro, pelo fato de que alterações, tendo em vista o timing ideológico da Constituição, eram, afinal de contas, necessárias. Mas o delirante furor mudancista corporificado em 2.702 emendas certamente reflete outro fenômeno, a respeito do qual pouco se fala: ainda não há, na sociedade brasileira, um consenso sobre como devem ser as instituições.

É evidente que a Constituição não forma o país, mas o Estado e o conjunto de leis que regerão os cidadãos. Não se pode negar, no entanto, que ela costuma ser o documento que exprime um consenso social sobre os rumos que o pais deve ter, que caminhos seguir, que contornos adquirir, que futuro ambicionar.

Nossa falta de convergência sobre os principais pilares sobre os quais deve se erguer o Estado, com sua brutal influência sobre a sociedade, é muito diferente do que ocorre nos Estados Unidos — para ficar de novo no exemplo da mais antiga República do mundo moderno e não falar de países civilizados multisseculares, como o Reino Unido.

Mesmo nas tumultuadas eleições americanas de 2000, nas quais o presidente George W. Bush, republicano, venceu o democrata Al Gore graças à anulação de cruciais votos democratas na Flórida, o respeito ao sistema, alvo do absoluto consenso geral, permaneceu incólume.

Carta constitucional norte-americana: 27 emendas em 224 anos

O preâmbulo da Constituição dos Estados Unidos: em 224 anos, só 27 emendas. Nós, em 23 anos, já temos 73!

O resultado ficou constrangedoramente pendente durante mais de um mês – mas, quando a Suprema Corte decidiu o caso, o veredito foi engolido por todos e não passou pela cabeça de ninguém, a começar pelos democratas, contestar a legitimidade de Bush.

No Brasil, graças a Deus não mais derrubamos presidentes na marra. Mas faz-se greve contra decisão judicial, existem leis que não pegam, o flerte com o parlamentarismo continua – mesmo tendo sido o sistema maciçamente rejeitado no plebiscito de 1993 –, e uma corrente social forte como o MST debocha às claras da nossa “democracia burguesa”.

Nos EUA, o projeto de República dos fundadores foi desde sempre aceito e assimilado por todos — inclusive os dezenas de milhões de imigrantes que lá aportaram em busca do “sonho americano” – e quase santificado. Aqui, progredimos, mas estamos longe disso.

 

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