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Carlos Lacerda

28/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

Garotinho aconselha Dilma a ‘não se apavorar’

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Por Daniel Haidar, do Rio de Janeiro, para o site de VEJA

Depois de almoçar em um restaurante popular com a presidente-candidata Dilma Rousseff, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PR) disse, em conversa com jornalistas, que poderia dar alguns conselhos para a petista.

“O melhor conselho que alguém dá nessa hora é não se apavorar com nada. Ter calma. Se eu fosse ouvir muitas pessoas, não tinha nem sido candidato. Tudo muda”, afirmou Garotinho, que aparece em primeiro lugar na pesquisa Ibope, com 28% das intenções de voto.

Com uma derrota na corrida presidencial, em 2002 pelo PSB, e um histórico de alta rejeição na Zona Sul da capital fluminense, Garotinho falou em tom professoral que o eleitorado carioca é historicamente dividido.

“O Rio foi palco do episódio mais dramático da política brasileira, que foi o suicídio de Getúlio Vargas. Então existe uma ala da cidade que é lacerdista inveterada. Tudo que se pareça com povo, trabalhismo, Brizola, Jango (João Goulart), ela rejeita. E há outra área, que é esta aqui, na Zona Oeste, que é getulista, trabalhista e tudo que parece com Brizola ela acolhe. Eu sou assim”, afirmou, usando a histórica disputa entre Carlos Lacerda e Getúlio Vargas para definir o quadro atual.

23/08/2014

às 17:30 \ Livros & Filmes

DICA DE LEITURA — Incrível: terceiro e último volume da biografia de Getúlio mostra que durante mais de 20 anos ele contemplou o suicídio como forma de vencer a derrota

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

O último volume da biografia de Lira Neto confirma que, havia mais de duas décadas, Getúlio Vargas contemplava o suicídio como única forma de vencer a derrota

Resenha de Augusto Nunes publicada em edição impressa de VEJA

Sozinho em seu labirinto, o maior ator da política brasileira ensaiou pelo menos cinco vezes, ao longo de 24 anos, o desfecho da tragédia incomparável.

Cartas, anotações e bilhetes enfileirados pelo biógrafo Lira Neto comprovam, já no capítulo de abertura do terceiro e último volume de Getúlio 1945-1954 (Companhia das Letras; 430 páginas; 49,50 reais, ou 34,50 reais na versão eletrônica), que o protagonista do drama encerrado em 24 de agosto de 1954, quando apertou o gatilho do Colt 32, já costumava levar a mão ao coldre sempre que entrevia o fantasma da derrota irreversível – e, por trás dela, as humilhações reservadas aos apeados do poder.

Getúlio Dornelles Vargas sempre enxergou no suicídio a única forma de sobreviver à morte física, antecipar-se à vingança do inimigo vitorioso e seguir existindo na memória popular. Para o gaúcho de São Borja, nascido e criado em paragens conflagradas por duas guerras civis e antagonismos ferozes, a abreviação voluntária da vida não era a rendição que interrompe o confronto. Era a senha para o contra-ataque que desencadeia a guerra póstuma.

“E se perdermos?”, perguntou-se Getúlio num manuscrito datado de 3 de outubro de 1930, horas depois da deflagração do movimento armado que o levaria ao coração do poder. A resposta (“Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”) seria repetida, com variações na forma que em nada afetam o conteúdo, em 10 de julho de 1932, quando registrou em uma carta o início da Revolução Constitucionalista, e em 19 de janeiro de 1942, ao optar pela adesão aos Aliados na II Guerra Mundial.

Nos três episódios, a vitória interrompeu o flerte com a morte – que seria retomado em abril de 1945, quando se multiplicaram as evidências de que a cúpula do Exército tramava a deposição do ditador.

“Estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”, avisou. Desta vez, não cumpriu a promessa por acreditar que não fora liquidado politicamente. As urnas logo gritariam que o genial intuitivo estava certo.

Os adversários triunfantes ainda decoravam o nome das secretárias quando, com uma declaração de apoio divulgada a quatro dias do pleito, ele implodiu o favoritismo de Eduardo Gomes e garantiu a chegada de Eurico Dutra à Presidência da República.

Meses mais tarde, Getúlio elegeu-se senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul, além de deputado federal por seis Estados. À impressionante demonstração de força, contudo, seguiu-se a confirmação de que não exagerava ao avaliar a extensão e a intensidade dos ódios acumulados ao longo dos quinze anos em que governou o país.

Bastaram algumas sessões, todas tumultuadas pelo som da fúria, para que desistisse de aparecer no Congresso, então no Rio de Janeiro. Não fez nenhum discurso nem apresentou projeto algum. Transformado pela bancada oposicionista em tema único dos virulentos comícios diários, retirou-se para a estância em São Borja. Ali, ao saber que os inimigos queriam castigá-lo com o desterro, escreveu a quinta mensagem de despedida. Afastada a ameaça, aproveitou a trégua para planejar o regresso ao Palácio do Catete.

Antes de optar pelo reinício da guerra, consultou apenas a filha Alzira. Amparado nas revelações que hibernam nos originais do segundo e ainda inédito livro de memórias da autora de Getúlio Vargas, Meu Pai, Lira Neto constata que Alzira foi a única confidente de um introspectivo visceral.

Numa das cartas trocadas entre a filha que chamava de “Ge” o pai que a tratava por “Rapariguinha”, Getúlio enumera os perigos que espreitavam todos os caminhos possíveis e pede a opinião da destinatária na última linha: “Que pensas?”. Admiravelmente precisas e argutas, as considerações de Alzira convenceram a esfinge de que era hora de regressar pela rota do voto à trincheira que havia conquistado pela trilha da insurreição armada.

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Ao lado da exposição da face mórbida de um sedutor de multidões, a relação entre pai e filha figura entre os momentos especialmente luminosos da obra que, ao reconstituir exemplarmente a trajetória do homem que empunhou por quase vinte anos o bastão de mando, incorporou Lira Neto à tropa de elite dos biógrafos brasileiros.

“Da volta pela consagração popular ao suicídio”, resume o subtítulo do volume que exuma o período que vai de 1945 a 1954, provavelmente o mais instável, perturbador e sombrio do Brasil republicano. A temperatura política sempre roçando o ponto de combustão, o primitivismo da democracia ainda no berço e a selvageria eleitoral escancaram já nas primeiras páginas a inevitabilidade do final infeliz.

Em agosto de 1954, quando se conformara em sonhar apenas com a conclusão do mandato, Getúlio foi surpreendido pelo atentado contra Carlos Lacerda e entendeu que a 25ª hora chegara. Fundiu as mensagens pressagas na cartatestamento, o mais belo e comovente adeus produzido por um político.

Ninguém suspeitou da partida iminente, nem mesmo Alzira Vargas. Às 8 e meia da manhã, fechou a porta do quarto para abrir a bala, dois minutos depois, a porta de entrada na História.

03/05/2014

às 20:30 \ Livros & Filmes

Roberto Pompeu de Toledo: O Corvo e o Anjo Negro

carlos lacerda

“A República das Abelhas” conta a história da família de Carlos Lacerda e parte da história do Brasil (Foto: Jornal Opção)

“Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoUma porta lateral se abriu e apareceu um negro alto, rijo, bem-vestido. O ano é 1945 e o cenário, a chefia de polícia do Rio de Janeiro, onde está sendo interrogado um certo Euclides, acusado de ter provocado e agredido, numa confeitaria, o político e jornalista José Eduardo de Macedo Soares, crítico contumaz do ditador Getúlio Vargas.

Sob pressão intensa da imprensa oposicionista, naqueles extertores do Estado Novo em que o regime já não tinha forças para impor-se com o instrumento da censura, o chefe de polícia concordara em permitir que interrogadores independentes questionassem Euclides.

Pergunta daqui, pergunta dali, e enfim o acusado confessa: trabalhava para a guarda pessoal de Getúlio.

O negro só observava, calado.

Um dos interrogadores era outro jornalista, crítico ainda mais contumaz e acerbo do ditador: Carlos Lacerda. O chefe de polícia interrompeu o interrogatório. Se a investigação conduzia à Presidência da República, não era ele quem lhe daria continuidade. O negro não abriu a boca. Nem precisava.

O episódio consta do excelente A República das Abelhas, recém-lançado livro de Rodrigo Lacerda. O autor, romancista com livros premiados no currículo, é neto de Carlos Lacerda. A República das Abelhas é uma crônica familiar com meio século da história brasileira como pano de fundo.

Começa com Sebastião Lacerda, que foi político e juiz do Supremo Tribunal Federal, passa por Maurício Lacerda, filho de Sebastião, caso raro de advogado e deputado que, na República Velha, se distinguiu pela defesa dos trabalhadores (era “o tribuno da plebe”, diziam), e desemboca no filho de Maurício, Carlos Lacerda, antigo comunista que virou campeão do anticomunismo.

Tal qual o concebeu Rodrigo, o livro é narrado por um Carlos Lacerda que, já morto, repassa a própria vida e a dos antepassados. Sobre o negro daquele dia, o Carlos Lacerda do livro diz: “Tinha uma presença forte, porém não lhe demos maior importância”.

Se o Carlos Lacerda de 1945 já era o algoz de Getúlio, muito mais o seria o de agosto de 1954, mês em que se dá o famoso atentado da Rua Tonelero. Lacerda chegava em casa, à noite, acompanhado do major da Aeronáutica Rubens Vaz, quando um pistoleiro abrigado sob uma árvore disparou tiros que mataram Vaz e o feriram no pé.

Seguiu-se, em clima de insurreição, investigação da Aeronáutica que levou, de novo, à guarda pessoal de Getúlio e à figura de seu chefe – o negro Gregório Fortunato, apontado como mandante. “Foi quando reconheci o negro soturno que, em 1945, assistira ao interrogatório”, diz o Carlos Lacerda do livro.

A figura de Gregório finalmente emergia à luz do dia. Ele acumulara poderes que lhe permitiam traficâncias diversas, nos altos escalões do governo, mas era sobretudo o anjo da guarda de Getúlio – o “Anjo Negro”, como passou a ser chamado. Apelido por apelido, Lacerda ganhara o de “Corvo” do jornalista rival Samuel Wainer.

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

O encontro do Corvo e do Anjo Negro, este ainda que por interposta pessoa, na escuridão da noite da Rua Tonelero, confere um significado ao mesmo tempo sinistro e caricatural ao cruzamento dos destinos desses personagens tão marcantes do período, um sempre calado, o outro um dos verbos mais devastadores da política brasileira, um agindo nas sombras, o outro mais exposto impossível.

Mas o livro de Rodrigo narra ainda um último encontro entre os dois, de novo à noite, ocorrido quando Lacerda, agora governador da Guanabara, foi ao presídio da Rua Frei Caneca para tentar aplacar uma rebelião de presos.

Os presos não acreditaram, a princípio, que quem despontava no pátio era o governador. Continuaram a batucar em torno de uma enorme fogueira feita com restos de móveis e colchões. “De repente, do meio da escuridão e esgueirando-se por entre os corpos que rodeavam o fogo, surgiu Gregório Fortunato”, conta o Carlos Lacerda do livro.

“Eu o reconheci imediatamente, e ele a mim.” Gregório cumpria pena pelo crime de 1954 e Lacerda chegou a temer que ele viesse a se aproveitar da “chance inédita, quase miraculosa”, para se vingar. Não. Ao contrário, “como um autêntico Anjo Negro, vagaroso e soturno”, foi até os líderes da rebelião, e o clima mudou.

Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem. Vivia-se, à luz indecisa da fogueira, o extraordinário momento em que o Anjo, amansado, colaborou com o Corvo.

13/03/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Os comunistas de hoje não são como os de antigamente — pioraram muito

 "Era difícil enfrentar comunistas numa discussão: sempre estavam preparadíssimos (...) se ouvissem Rabelo, certamente o obrigariam a fazer uma bela autocrítica"

“(Antigamente) era difícil enfrentar comunistas numa discussão: sempre estavam preparadíssimos (…) Jamais diriam, como o comunista moderno e governista Aldo Rebelo, que Napoleão ‘reconquistou a França em cem dias’. Foi em 12 dias”

Nota da coluna de ontem, terça-feira, do Observatório da Imprensa

O MUNDO COMO ELE ERA

Carlos BrickmannEste colunista é do tempo em que comunista estudava. Não apenas estudava: tinha de estar a par de todo o movimento cultural. Precisava ter lido Ulysses, de James Joyce, na tradução de Antônio Houaiss; precisava ter lido Júlio César, de Shakespeare, na tradução de Carlos Lacerda, para poder falar mal.

Filmes como Morangos Silvestres, ou O Ano Passado em Marienbad, eram essenciais. Era difícil enfrentar comunistas numa discussão: sempre estavam preparadíssimos.

E, claro, conheciam Napoleão Bonaparte. Sabiam tudo de seu sobrinho Luís Bonaparte, o Napoleão III, personagem de O 18 Brumário, de Marx.

Jamais diriam, como o comunista moderno e governista Aldo Rebelo, [ministro do Esporte] tentando explicar o atraso das obras da Copa, que Napoleão Bonaparte “reconquistou a França em cem dias”.

Não, Napoleão reconquistou a França em muito menos tempo: 12 dias, o suficiente para marchar triunfalmente de Golfe Juan, na costa francesa, até Paris.

Os Cem Dias foram o período em que governou novamente o Império Francês, até ser derrotado em Waterloo pelas tropas do Duque de Wellington.

Se João Amazonas e Maurício Grabois, os ícones do PCdoB, ouvissem Rabelo, certamente o obrigariam a fazer uma bela autocrítica.

E indicariam alguém mais adequado para evitar confusões nas obras da Copa.

03/02/2014

às 17:06 \ Política & Cia

Sobre a intervenção americana no golpe de 1964 no Brasil: Elio Gaspari divulga vídeo inédito com Carlos Lacerda

Saiu hoje na excelente coluna de Ancelmo Gois no jornal O Globo:

Intervenção americana

Elio Gaspari posta hoje em seu site Arquivos da Ditadura um trecho de vídeo, inédito no Brasil, em que Carlos Lacerda é confrontado por um [ex-]marinheiro durante uma entrevista ao programa da TV americana Firing line em 1967.

Quando foi abordada a implantação da democracia na América Latina, o marinheiro perguntou ao ex-governador do Estado da Guanabara sobre o envolvimento dos Estados Unidos no golpe que havia tirado João Goulart da Presidência do Brasil [em 1964].

Segue…

O marinheiro dizia que estava a bordo de um contratorpedeiro americano nos dias do levante militar e que o navio seguia [junto com outros vasos de guerra] em direção ao Brasil.

Porém, segundo ele, retornou aos EUA quando o êxito do golpe foi anunciado.

Mesmo assim, Lacerda negou qualquer envolvimento direto dos EUA no golpe de 1964. Em 1968, o próprio Lacerda era cassado.

12/01/2014

às 18:10 \ Política & Cia

JOSÉ SERRA: O golpe de 1964, prestes a completar meio século, e as ilusões do autoritarismo

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(Foto: Agência O Globo)

1964 — AS ILUSÕES DO AUTORITARISMO

Por José Serra

Artigo publicado na seção de Opinião do jornal O Estado de S. Paulo

Neste ano o golpe de Estado de 1964 completa meio século. Trata-se de um evento que ainda marca a vida do país e de muita gente. Continua a ser um grande mal-entendido do Brasil com a sua História – do ponto de vista político, o maior deles.

Do nascimento à decadência o regime durou 21 anos.

O país que voltou às mãos dos civis exibia economia 3,5 vezes maior, inflação de dois dígitos mensais, insolvência externa, imensas demandas sociais, Constituição ilegítima e atraso político renitente. Os prejuízos dessa herança durariam décadas.

Tanto pessoas que sofreram diretamente os efeitos do golpe como outras que o promoveram ou apoiaram apostavam que suas consequências não seriam de longa duração.

Lembro-me de uma conversa em 1.º de abril, numa casa na cidade de Duque de Caxias, onde tínhamos marcado uma reunião, àquela altura, clandestina. [José Serra era então presidente da União Nacional dos Estudantes, a UNE, como se verá adiante.] Sentados em torno de uma pequena mesa, sala pouco iluminada, trocamos figurinhas pessimistas sobre a situação, todos duvidando da possibilidade de, aliado a Leonel Brizola, João Goulart resistir no Rio Grande do Sul, para onde fora ao deixar Brasília.

Demístocles Batista, líder do Comando-Geral dos Trabalhadores, dirigente ferroviário e membro do [então formalmente ilegal] Partido Comunista Brasileiro, avaliava: “Existe a possibilidade de o golpe se pessedizar. Juscelino aderiu nos últimos dias, os caciques do PSD conspiraram. A moeda de troca será a garantia das eleições presidenciais no ano que vem. A repressão vai cair em cima da gente, mas o processo pode acabar virando briga de branco, UDN contra PSD, Lacerda contra Juscelino. A gente precisa permanecer agrupada, se proteger, não fazer loucuras e acumular forças enquanto isso acontece”.

Sobre “a gente” a repressão foi imediata e galopante, incluindo a cassação de mandatos e direitos políticos por dez anos. Nesse aspecto, prevalecera a doutrina dos seguidores do governador da Guanabara, Carlos Lacerda, o pior dos golpistas de antes e de primeira hora: queria enfraquecer os adversários para ganhar a eleição de 1965.

Mesmo assim, a análise do Batistinha pareceu fazer algum sentido quando o novo presidente militar, marechal Castello Branco, procurou legitimar-se mediante eleição no Congresso. Por cima, recebeu o voto de Juscelino, que era senador, e escolheu como vice nada mais, nada menos que José Maria Alkmin, antológico político pessedista mineiro, ex-ministro da Fazenda de JK.

Na verdade, a ideia de que viria um golpe transitório fizera parte da estratégia implícita no comportamento de Goulart, que nos últimos meses de seu mandato parecia preparar-se para deixar a Presidência e recolher-se, como Getúlio, em sua fazenda em São Borja, para ser convocado anos depois, em regresso triunfal, como o mártir do trabalhismo e das reformas de base.

Mas os golpistas também perceberam a natureza do jogo. Apesar da promessas iniciais de Castello de que concluiria o período presidencial de Jango e garantiria a eleição de 1965, seu mandato acabou sendo prorrogado por mais um ano e Juscelino, cassado. Lacerda lutara bravamente por essa cassação, mas recebeu o troco de não ter mais eleição direta para disputar.

A força da repressão e os sinais de que o governo de transição de Castello não garantiria eleições livres e poderia abrir caminho para a ditadura declarada despertaram a primeira reação contra o regime, vinda justamente de jornalistas que haviam apoiado a queda de Jango, até se regozijado com ela.

Presidente da UNE aos 22 anos, o então estudante José Serra fala em comício em 1964 (Foto: Agência O Globo)

Presidente da UNE aos 22 anos, o então estudante José Serra fala em comício em 1964 (Foto: Agência O Globo)

Foi o caso, por exemplo, do Correio da Manhã, cujos editoriais incitando o golpe haviam sido implacáveis. Os principais articulistas do Jornal do Brasil lançaram até um livro-reportagem cujo tom, em sua maior parte, era de comemoração do golpe, chamado Os Idos de Março e a Queda em Abril. Mas não tardou para que os autores se tornassem críticos do regime militar, como se fossem protagonistas de uma “revolução traída”.

Esse tipo de oposição revelava a decepção dos que tinham dado boas-vindas à remoção de Goulart por acreditarem que ela fora preventiva, pondo fim ao desgoverno e a um golpe que o próprio presidente estaria preparando. Subestimaram, é evidente, o peso da quebra da legalidade para o futuro da democracia.

Para as classes médias que deram suporte ao golpe nas marchas de São Paulo e do Rio e nas ruas de Belo Horizonte, havia uma motivação adicional para apoiar o novo regime: o medo da cubanização do Brasil e da guerra revolucionária que a implantaria, objeto de denúncia delirante do deputado Bilac Pinto, prócer udenista mineiro.

Esse é um mito que ficou. Nada mais fantasioso do que supor que a esquerda, em 1963-64, se estivesse armando.

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29/08/2013

às 17:15 \ Política & Cia

Elio Gaspari: A diplomacia de Lula e Dilma está avacalhando uma linda tradição — o direito de asilo

O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo (Foto: AP)

O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo (Foto: AP)

Artigo de Elio Gaspari, publicado na seção Opinião do jornal O Globo

UMA DIPLOMACIA ESTUDANTIL

A doutora Dilma tem dois chanceleres, um no Planalto e outro no Itamaraty. Apesar disso, restou ao Brasil uma diplomacia trapalhona, cenográfica e inepta. A desova do senador Roger Pinto no território brasileiro transformou uma conduta inamistosa do governo da Bolívia numa estudantada brasileira.

Custou o lugar ao chanceler Antonio Patriota. Ele vai para Nova York, mas o comissário Luis Inácio Adams continua advogado-geral da União. O doutor sustentou que, caso um médico cubano peça asilo territorial no Brasil, será devolvido a Cuba. Agradando o aparelho dos irmãos Castro, ofendeu a História do país e o Direito.

No ano passado o Brasil meteu-se noutra estudantada, expulsou o Paraguai do Mercosul e agora corteja seu governo. É uma diplomacia de palavrório e negócios. Patriota foi um detalhe.

A ideia segundo a qual o encarregado de negócios do Brasil em La Paz contrabandeou o senador até a fronteira com o Brasil porque apiedou-se de seu estado emocional é pueril. Se os embaixadores começassem a ser orientados pelos seus sentimentos, seria melhor fechar a Casa. A boa norma determina que um governo dê o salvo-conduto a um asilado em algumas semanas. No exagero, alguns meses.

O presidente Evo Morales não quis fazer isso. Direito dele. O ex-presidente peruano Haya de la Torre ralou cinco anos numa sala da embaixada da Colômbia em Lima. O cardeal Jozef Mindszenty, outros quinze na embaixada dos Estados Unidos (que não são signatários das convenções de asilo diplomático) na Hungria.

Se alguém pensou que combinou a fuga com Evo Morales, fez papel de bobo e transformou o algoz em vítima. Transferiu o vexame para o diplomata Eduardo Sabóia, deixando-o numa posição de franco-atirador. Coisa parecida, fez no mundo dos negócios, quando transferiu para o embaixador do Brasil em Cingapura uma transação meio girafa que favorecia os interesses do empresário Eike Batista.

A maneira como a diplomacia de Lula e da doutora lidou com o instituto do asilo revela desrespeito histórico com um mecanismo que protegeu centenas de brasileiros perseguidos por motivos políticos.

Ele ampara gregos e troianos.

Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana.

Anos depois oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias.

Carlos Lacerda asilou-se por alguns dias na embaixada de Cuba e João Goulart pediu asilo territorial ao Uruguai. Em poucos meses, o governo do marechal Castello Branco concedeu salvo-condutos a todos os asilados que estavam em embaixadas estrangeiras.

Já o do general Médici, vergonhosamente, fechou as portas de sua representação em Santiago nos dias seguintes ao golpe do general Pinochet e dezenas de brasileiros foram obrigados a buscar a proteção de outras bandeiras.

Contudo, nem mesmo Médici deportou estrangeiros para países onde poderiam ser constrangidos.

Isso ocorreu durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça, com dois boxeadores cubanos que, posteriormente, voltaram a fugir da Ilha.

O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo.

21/03/2013

às 16:50 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: Para defender-se de seu próprio desabamento moral, o PT usa a imagem de um Getúlio Vargas “democrático” e “de esquerda” que nunca existiu

 “Mais difícil ainda, nessa tentativa de redecorar Getúlio Vargas como um santo para as massas brasileiras de 2013, é vender o homem como um político ‘democrático’ ou ‘de esquerda’. É o contrário, justamente, do que mostram a razão e os fatos” (Foto: CPDOC/FGV)

UM DITADOR ARMADO -- “O Estado Novo não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade”, disse o ditador Getúlio Vargas em 1938. Getúlio foi um tirano que governou por decreto, sob cuja ditadura se torturava, perseguia-se cruelmente adversários e se instituiu oficialmente a censura à imprensa (Foto: CPDOC/FGV)

Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas

PASSADO IMAGINÁRIO

Por J. R. Guzzo

Uma das últimas modas no PT, no governo e na procissão de devotos que acompanha o ex-presidente Lula é lembrar a figura de outro  ex-presidente, Getúlio Vargas, para defender-se do desabamento moral em que todos estão metidos hoje.

A intenção desse novo plano mestre,  mencionado em documentos do partido e tema dos discursos a serem feitos nas “caravanas” que o ex-presidente planejou para este ano, é vender  ao público a seguinte história: Lula e seu “projeto para o Brasil” estão sendo agredidos, em 2013, pelo mesmo tipo de ofensiva que causou a  liquidação do governo de Getúlio em 1954.

A primeira reação é fazer uma sequência de perguntas: “O quê? Quem? Do que é mesmo que estão  falando?”. A segunda reação é constatar que, sim, o estado-maior do PT está dizendo isso mesmo: um personagem de outro mundo, de uma época  morta e de um Brasil que não existe mais está de volta entre nós.

Ele foi tirado do túmulo numa tentativa de convencer o público de que episódios  de corrupção, sejam lá quais forem os fatos que comprovam a sua existência, são apenas uma invenção das forças antipovo para armar “golpes de estado” contra governos democráticos e dedicados à causa popular, como teria sido o de Getúlio ─ e como seriam hoje os de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff.

Aliados preciosos do PT: Henrique Alves, Renan, Collor, Maluf, fugitivos do Código Penal…

A última causa popular que empolgou o PT foi a campanha em favor da eleição do deputado Henrique Alves para a presidência da Câmara e do senador Renan Calheiros para a presidência do Senado. Naturalmente, como acontece em quase tudo o que o partido faz hoje em dia, é uma clara  opção para enterrar-se mais ainda na vala comum da baixa política brasileira; Alves e Renan, sozinhos, valem por um samba-enredo completo sobre praticamente todos os vícios que fazem a vida pública nacional ser a miséria que ela é.

Mas, para o PT de 2013, ambos são aliados preciosos  das massas trabalhadoras, junto com Fernando Collor, Paulo Maluf, empreiteiros de obras, fugitivos do Código Penal, bilionários experientes em  lidar com os guichês de pagamento do Tesouro Nacional, e por aí afora.

Para o governo é tudo gente finíssima, empenhada em ajudar Lula no seu  projeto de salvar o Brasil. O erro, na visão petista, é apontar o que está errado ─ aí já se trata de uma campanha que a direita reacionária, golpista e  totalitária estaria fazendo contra Lula, como fez no passado contra Getúlio, com o apoio da “grande imprensa” e de “setores do Judiciário”.

Sua  arma de hoje, igual à de ontem, é o “moralismo” ─ delito atribuído automaticamente a quem aponta qualquer ato de imoralidade na vida pública. Getúlio, de acordo com esse sermão, foi um “mártir do moralismo”. Lula, os condenados do mensalão e toda a companheirada que frequenta o  noticiário policial são as vítimas da direita moralista no momento.

Vítimas da direita? É curioso, porque aquilo que se vê parece ser justamente o contrário. Para ficarmos apenas no caso mais recente da série: que  tipo de vítima poderia ser, por exemplo, a senhora Rosemary Noronha, a ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo e amiga  pessoal de Lula, denunciada há três meses pelo Ministério Público por crimes de corrupção passiva, formação de quadrilha, falsidade ideológica e  tráfico de influência, junto com 23 outros suspeitos?

Da trinca de irmãos Paulo, Rubens e Marcelo Vieira, os sócios mais visíveis de “Rose”, o   primeiro era tratado pelo interessante apelido de “Paulo Grana”, conforme se constatou com a gravação de mais de 25 000 telefonemas trocados  entre os membros da quadrilha. Fizeram de tudo. Conseguiram até mesmo ressuscitar o ex-senador Gilberto Miranda, dono de um espetacular  prontuário aberto ainda nos tempos do governo José Sarney; imaginava-se que estivesse aposentado, mas constatou-se agora que continua na  vida de sempre, metido com a privatização de ilhas e áreas públicas em volta do Porto de Santos.

Ao longo desses três meses, Lula não foi capaz de  dizer uma única palavra sobre o caso; não se sabe, na verdade, o que poderia ter dito. Mas toda a conversa ao seu redor apresenta as Roses, os Paulos e os Gilbertos como réplicas atuais dos alvos utilizados há sessenta anos pela campanha contra Getúlio. Moral da história: sem nenhuma  explicação que possa justificar o que fazem no presente, Lula e seus aliados tentam pescar desculpas em histórias do passado. Como praticamente  ninguém sabe nada sobre elas, podem contá-las do jeito que quiserem.

O normal é imaginar o futuro. O PT de hoje imagina o passado. Tudo bem, mas há dificuldades claras com esse conto ─ os fatos, teimosamente, não combinam com a lição que Lula e o PT querem tirar dele. A primeira dessas dificuldades está na simples passagem do tempo.

O PT reinventa um passado que não existiu — um Getúlio “democrático” ou de “esquerda”. Ele foi o contrário disso

Getúlio Vargas  morreu quase sessenta anos atrás, em agosto de 1954. Só os brasileiros que hoje têm mais de 59 anos estavam vivos quando isso aconteceu; e  quem, a esta altura, pode estar interessado no assunto? A imensa maioria da população não tem a menor ideia de quem foi Getúlio, e boa parte dos  que sabem alguma coisa a respeito é indiferente ao personagem e à sua obra; despertam tanto interesse, hoje em dia, quanto a batalha de Tuiuti ou  as realizações do regente Feijó.

Mais difícil ainda, nessa tentativa de redecorar Getúlio Vargas como um santo para as massas brasileiras de 2013, é  vender o homem como um político “democrático” ou “de esquerda”. É o contrário, justamente, do que mostram a razão e os fatos.

Getúlio chegou ao poder em 1930 por meio de um golpe apoiado pelos militares; derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de seu  sucessor legal, Júlio Prestes, de quem havia acabado de perder as eleições presidenciais. Dos dezenove anos que passou no governo, quinze foram  como ditador.

Seu Estado Novo criou uma censura oficial, legislava por decreto e permitia prisões sem processo. Perseguiu o movimento  comunista brasileiro, que tentara derrubá-lo num levante armado em 1935, com uma selvageria que nada fica a dever aos piores momentos da  repressão no Brasil.

Aprovou a utilização maciça e sistemática da tortura contra presos políticos; permanece célebre, até hoje, o pedido do  advogado Sobral Pinto para que fosse aplicado o artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais em favor de seu cliente Harry Berger, militante  comunista que, na condição de ser humano, foi torturado até entrar em colapso mental. A filosofia de Getúlio sobre esse tipo de problema, obedecida pela Justiça que o seu governo controlava, era bem curta.

“Indivíduos não têm direitos, têm deveres”. E a entrega de Olga Benário à Gestapo de Hitler

“O Estado Novo não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade”,  resumiu ele em 1938. “Os indivíduos não têm direitos. Têm deveres.” Foi, enquanto pôde, um aliado virtual da Itália de Mussolini, de quem copiou  as leis trabalhistas, e da Alemanha de Hitler, a quem apoiava negando vistos a judeus que tentavam refugiar-se no Brasil.

Seu chefe de polícia e  homem de confiança Filinto Müller era um aberto simpatizante do nazismo. Em 1936, ambos entregaram à Gestapo, que a mandou para a morte no  campo de extermínio de Bernburg, a alemã Olga Benario, esposa do dirigente comunista Luís Carlos Prestes e presa como ele no Brasil; Olga estava  grávida no momento em que foi deportada.

Nenhum presidente na história do Brasil esteve tão diretamente ligado a um crime de morte, de forma  tão comprovada, como Getúlio Vargas no caso de Olga Benario. E este é o homem que Lula apresenta hoje como seu herói.

Outro problema sério, que sempre aparece quando se tenta demonstrar que Getúlio Vargas foi vítima de um golpe aplicado pela direita brasileira,  é encontrar o golpe. Getúlio não perdeu a Presidência da República por ter sido deposto num golpe da oposição extremista e conservadora, e sim  porque se suicidou.

Políticos veteranos, acostumados a enfrentar conflitos durante a vida toda, não se matam por causa de discursos da oposição,  manchetes agressivas na imprensa e atos de indisciplina militar; vão à luta contra quem os ameaça. Não há dúvida de que Getúlio, em agosto de  1954 e já a caminho do fim de seu mandato, dessa vez obtido pelo voto, estava numa situação extremamente complicada.

Getúlio foi vencido por uma combinação fatal de fatores, e se suicidou. Não foi deposto!

Agentes de seu governo eram acusados de crimes graves, incluindo o homicídio. Os adversários exigiam sua renúncia; cartazes com a letra “R” eram colados na fachada das  residências. O principal porta-voz da oposição radical, o deputado e jornalista Carlos Lacerda, comandava no Congresso, na imprensa e na rua  uma campanha incendiária por sua deposição.

Havia aberta insubordinação militar; oficiais da Aeronáutica interrogavam na base aérea do Galeão,  de forma francamente ilegal, funcionários de seu governo, e generais assinavam manifestos contra ele. Getúlio tinha a seu favor a lei, a popularidade e a opção de usar a força do Estado para enfrentar a desordem criada por seus inimigos. Preferiu se suicidar com um tiro no peito no Palácio do Catete — aos 71 anos de idade, foi vencido por uma combinação fatal de amargura, desilusões, cansaço e depressão em estágio  avançado.

O desfecho da história é bem conhecido. Getúlio foi substituído por seu vice-presidente, Café Filho, exatamente como previsto na Constituição. Um ano depois, na data marcada pelo calendário eleitoral, houve eleições livres e Juscelino Kubitschek, que não tivera a mínima participação na ofensiva contra Getúlio, foi eleito presidente da República, posto que ocupou até o fim do seu mandato.

Que raio de golpe teria sido esse?

Nenhum dos inimigos políticos do  presidente morto, a começar por Lacerda, jamais veio a ocupar cargo algum nos governos que se seguiram. Que raio de golpe teria sido esse, em  que o presidente não é derrubado e os golpistas não põem o pé dentro do palácio? Mais difícil ainda é achar semelhanças entre agosto de 1954 e  março de 2013. Não existe hoje o mínimo sinal de indisciplina militar.

O governo tem maioria disparada no Congresso Nacional, onde acaba de  eleger os presidentes das duas casas. Ninguém pede, nem de brincadeira, a renúncia de Dilma. A principal figura da oposição, caso se consiga  encontrar uma oposição no Brasil, não é um barril de pólvora como Carlos Lacerda ─ ao contrário, é um político que poderia concorrer ao título  de oposicionista mais camarada do mundo. Uma parte da imprensa, com certeza, não dá sossego ao governo. Mas não há um único jornalista ou  dono de empresa de comunicação brigando para ser presidente da República.

Os lulistas condenados no mensalão tiveram sete anos inteiros para preparar suas defesas, e todos os seus direitos foram respeitados no processo.  Ruídos falando em virar a mesa, até agora, só saíram do próprio PT e de gente como o malfadado Paulo Vieira, da trinca de “Rose”; foi pego numa  gravação dizendo que os juízes do mensalão “não vão sair de lá ilesos”, que era preciso “parar o Brasil” e que “o negócio agora é tumultuar o  processo”.

Áreas inteiras do governo viraram uma espécie de cracolândia para viciados no consumo ilegal de verbas

Manifestações de rua, só em favor do próprio governo, com ônibus fretados, lanches grátis e camisetas que o cofre público, de um jeito  ou de outro, acaba pagando.

As forças conservadoras, enfim, parecem perfeitamente felizes com o governo, entretidas em comprar helicópteros,  touros de raça e peruas Cayenne blindadas.

Estão dentro do ministério e da base aliada. Segundo o próprio Lula, nunca ganharam tanto dinheiro  como em seus dois mandatos de presidente.

Golpe de direita?

Getúlio?

Lacerda?

Não dá para ver nada disso.

Lula, com o PT atrás, fala em salvar a sua biografia, seu projeto nacional e a reputação do partido. Teriam mesmo de fazer essas coisas todas, pois áreas inteiras do governo federal viraram, nos últimos dez anos, uma espécie de cracolândia para viciados no consumo ilegal de verbas, favores e  empregos públicos. Para isso, porém, precisam se defender com base nos fatos do presente. Getúlio Vargas não pode ajudá-los.

11/11/2012

às 19:00 \ Política & Cia

Carlos Brickmann sobre a questão dos passaportes: “Tudo o que não devia continua cruzando a fronteira”

STF ordenou apreensão de passaportes dos mensaleiros. Isso não quer dizer que eles vão ficar. (Charge: Pelicano / Besta Fubana)

STF ordenou apreensão de passaportes dos mensaleiros. Isso não quer dizer que eles vão ficar. (Charge: Pelicano / Besta Fubana)

MUNDO VELHO SEM FRONTEIRA

O Supremo Tribunal Federal determinou a apreensão do passaporte dos condenados no processo do mensalão. A Polícia Federal foi informada de que os condenados só podem deixar o país com conhecimento e autorização da Justiça.

Então, tá. O Brasil não produz fuzis AR-15, as bazucas e metralhadoras antiaéreas encontradas com bandidos são fabricadas no exterior, a maior parte da cocaína aqui consumida vem de outros países.

Nada disso, reafirme-se, é importado legalmente: entra numa boa, e em fartas quantidades, apesar das proibições.

Um único avião sem piloto comprado para patrulhar a fronteira seca do Brasil foi apresentado à imprensa e em seguida alojado num confortável hangar, onde passa sua vida útil sem ter dado, em mais de um ano, um simples e singelo voo.

Por quê? Não se sabe; mas tudo o que não devia continua cruzando a fronteira.

Avião não tripulado vai vigiar fronteira, prometeu o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em agosto do ano passado, quando, então, guardou a aeronave.

Este avião não tripulado iria vigiar fronteiras, prometeu o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, em agosto do ano passado. Desde lá, o avião está parado num hangar.

Se cruza para dentro, por que não para fora? O médico Roger Abdelmassih, condenado a muitos e muitos anos de prisão, está desaparecido. Pode estar fora do país, conforme se especula; talvez esteja em algum lugar desse nosso imenso território, livre, leve, solto e bem protegido. Fora ou dentro, é a mesma coisa: nossa Polícia não tem a menor ideia de onde esteja, com ou sem passaporte.

Como disse o médico de Carlos Lacerda para convencê-lo a suspender uma greve de fome, tenta-se representar Shakespeare no país de Dercy Gonçalves. Baixam-se normas como se por aqui tudo funcionasse. Mas aqui é Brasil.

Se não querem que os condenados fujam, não são proibições que vão impedi-los.

Comida de milionário

O chiquérrimo jantar de gala anual, da Brazil Foundation, em Nova York, no qual comparecem celebridades, nobreza e a fina flor do mundo inteiro, com leilão e tudo não arrecadou nem metade do jantar empresarial de Luis Marinho (Foto: Vogue)

O chiquérrimo jantar de gala anual, da Brazil Foundation, em Nova York, ao qual comparecem celebridades, nobreza e a fina flor do mundo inteiro, com leilão e tudo, não arrecadou nem metade do jantar empresarial de Lui Marinho (Foto: Vogue)

O prefeito de São Bernardo (SP), Luiz Marinho, enviou resposta à nota Maldita Aritmética, de 4 de novembro. A coluna mostrava que, de acordo com a Justiça Eleitoral, o patrimônio do prefeito Luiz Marinho era de R$ 42.165,10, o que não o impediu de doar R$ 1.175.000,00 ao Comitê Financeiro do PT de São Bernardo.

Diz a resposta, assinada por seu secretário de Comunicação, Raimundo Silva: “O valor de R$ 1.175.000,00 doado pelo prefeito Luiz Marinho ao Comitê Financeiro do PT de São Bernardo refere-se a parte do valor arrecadado em almoço com empresários, realizado no dia 22 de agosto, em restaurante na cidade de São Bernardo do Campo.

Participaram desse encontro 81 empresários, contribuindo cada um com R$ 25 mil, totalizando uma arrecadação de R$ 2.025.000,00. Desse valor R$ 1.175.000,00 foi depositado na conta de campanha do então candidato Luiz Marinho (o restante foi depositado direto na conta do Comitê Financeiro do PT), que repassou imediatamente o recurso ao Comitê para custear a campanha majoritária e dos candidatos proporcionais.

Portanto, essa doação não foi da pessoa física Luiz Marinho, mas sim do candidato Luiz Marinho, e como se vê acima fruto de um almoço para arrecadação de recursos”.

O Brasil vai bem: tem 81 empresários que, desinteressadamente, se dispuseram a pagar R$ 25 mil, cada um, por um almoço. O Baile de Gala da Brazil Foundation, em Nova York, com leilão de joias e sorteio de bens exclusivos, rendeu US$ 650 mil.

Pobrezinhos: pouco mais que a metade do almoço eleitoral.

07/08/2012

às 16:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: sobre mensalão, Olimpíada, Bolívia, Gore Vidal etc

Brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália

Um brasileiro subiu ao lugar mais alto do pódio nas argolas, superando ginastas da China e da Itália - com nossos atletas, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional

(Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2012)

 

OLIMPÍADA, BOLÍVIA, GORE VIDAL ETC.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

O Hino Nacional vive seu grande momento em Olimpíadas. Não há ocasião em que venha mais a propósito. Talvez isso não seja tão evidente para americanos, chineses, russos ou ingleses, acostumados a ouvir seus hinos muitas vezes, na competição.

Para os brasileiros, que pouco ouvem o seu, a raridade ressalta a especificidade do momento. Não é que o Hino Nacional engrandeça as Olimpíadas. Ao contrário, as Olimpíadas é que engrandecem o Hino Nacional. Naquele momento, ele recupera seu significado e justifica sua razão de ser.

O pior momento do Hino Nacional é quando é tocado antes dos jogos dos campeonatos disputados rotineiramente no Brasil. Por efeito de estúpida lei estadual que, salvo engano, primeiro foi baixada em São Paulo, e em seguida copiada em outros estados, o hino tem de ser executado antes de qualquer competição esportiva.

Não se tinha inventado ainda maneira mais segura de torná-lo banal e inoportuno. Hino Nacional é ferramenta para ser utilizada com parcimônia. As Olimpíadas oferecem um momento adequado e justo para que ele provoque os efeitos de que é capaz.

O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições. Ao atentado da Rua Tonelero, em 1954, em que morreu o major Vaz e foi ferido o jornalista Carlos Lacerda, por obra de agentes subalternos do governo Getúlio Vargas, seguiram-se um inquérito ilegalmente conduzido por militares e uma gritaria da oposição que preparavam o golpe.

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

"O mensalão não é o primeiro escândalo a envolver pessoas situadas no coração do poder, no Brasil, mas é o primeiro cujo julgamento transcorre sem que se anteveja o abalo das instituições"

No processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992, pairavam desconfianças de que o caso pudesse desandar em ameaça às recém-conquistadas liberdades. O fato de não se preverem catástrofes semelhantes para o atual julgamento representa uma coisa boa, a contrastar com as tantas ruins que o episódio evoca

Uma frase do ministro das Relações Exteriores da Bolívia, David Choquehuanca, causou confusão na semana passada. Ele fez votos para que o dia 21 de dezembro, o último do calendário maia, marque o fim da Coca-Cola na Bolívia e o início do mono-cochinche, uma bebida popular no país.

O ministro tomava carona nos augúrios do calendário maia para profetizar “o fim do egoísmo, do individualismo e da divisão do país”, simbolizados na troca da Coca-Cola pela bebida nacional. Era uma alegoria, mas foi interpretada como notícia de que o governo iria proibir a Coca-Cola na Bolívia, e como tal circulou em sites brasileiros.

O.k., houve engano. Mas as palavras do ministro indicam que a Coca-Cola continua no centro das fantasias bolivarianas do governo Evo Morales.

É curioso que a declaração do boliviano venha à luz na mesma quadra em que o novo presidente da Coreia do Norte, o jovem Kim Jong-un, surpreendeu o mundo com uma festa em que dividia as atenções com Mickey Mouse, Branca de Neve e o ursinho Puff.

O fim do calendário maia pode estar indicando que os dois países se preparam para permutar posições. Enquanto a Bolívia imbica no rumo de tornar-se uma Coreia do Norte dos Andes, a Coreia do Norte apresta-se para tomar-se, pelo menos, uma Bolívia do mar da China.

Grande Gore Vidal. O escritor americano falecido na semana passada tinha a veia dos grandes provocadores. “O grande e nunca mencionado mal no centro da nossa cultura é o monoteísmo”, defendeu, numa palestra de 1992, em Harvard.

gore-vidal

"Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão"

Um “Deus do céu” está no centro das grandes religiões monoteístas. “Elas (essas religiões) são literalmente patriarcais —Deus é o pai onipotente —, daí o desprezo pela mulher por 2000 anos nos países afetados pelo Deus do céu e seus delegados machos na terra. O Deus do céu é ciumento, claro. Requer total obediência. (…) Em última análise, o totalitarismo é a única política que serve aos propósitos do Deus do céu. Qualquer movimento de natureza liberal ameaça sua autoridade e a de seus delegados na teira. Um Deus, um rei, um papa, um chefe na fábrica, um pai-líder na casa da família.”

Os grandes provocadores assacam com espantosa sem-cerimônia contra as verdades estabelecidas, e nisso Gore Vidal era um campeão. (O colunista agradece ao amigo José Roberto Whitaker Penteado por lhe ter revelado a palestra de Gore).

 

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