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11/03/2012

às 18:00 \ Livros & Filmes

Não perca: VEJA visitou os bastidores da série “House” e entrevistou seu protagonista, Hugh Laurie

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Dr. House e sua nova equipe, na oitava temporada (Foto: 20th Century Fox)

NA CASA DE HOUSE

Quanto pior, melhor: é graças à persistência nesse diagnóstico certeiro que a série protagonizada por Hugh Laurie se tornou a mais popular no mundo hoje 

 

Em seu retorno ao Hospital Princeton-Plainsboro, após passar um ano na cadeia, o doutor Gregory House trava uma conversa irônica com o único masoquista que sempre o aturou, o oncologista James Wilson. “Eu cometi erros. Mas paguei por isso na prisão”, comenta House, em tom de solenidade marota.

Recapitulando tais erros: ao final da sétima temporada da série que leva seu nome, o personagem vivido pelo inglês Hugh Laurie estava um farrapo por causa do vício em analgésicos; tinha se dado muito mal ao tentar um tratamento ilícito, ainda em fase de testes, para curar as dores de sua perna lesada; e fora condenado por perpetrar um ato bárbaro, movido por puro rancor, contra Cuddy, sua chefe e ex-namorada.

“Então você é um homem mudado”, replica um incrédulo Wilson (Robert Sean Leonard). “Eu disse que errei – não que mudei”, esclarece House. A esta altura da oitava e mais recente leva de episódios da série, que estreou em 3 de novembro na TV paga brasileira, pelo Universal Channel, há indícios fartos de que o maior anti-herói da televisão permanece o paradoxo de sempre: um médico genial, mas um ser humano deplorável.

Na volta ao hospital, como de praxe, ele insulta os colegas de forma gratuita. Dá alfinetadas preconceituosas em sua nova assistente, uma nerd filipino-coreana. Persiste, ainda, na trilha dos problemas com os analgésicos – e com a polícia.

Diagnóstico: quanto pior, melhor. É notável que House chegue ao oitavo ano da série sem um ínfimo sinal de abrandamento de sua personalidade inconveniente. [A 9 de fevereiro, os produtores anunciaram, “depois de muita deliberação”, que esta será a derradeira temporada da série.]

 

“Não vou fazer de House um sujeito legal, ele é o que é”, diz o produtor

Um herói transviado como ele se destacaria mesmo num terreno sempre aberto a ousadias como a TV a cabo americana – em que surgiu o pai de todos os tipos ambíguos, o mafioso Tony Soprano.

Mas nos filmes de Hollywood ou nos programas destinados à televisão aberta nos Estados Unidos – que, como se dá com House, são voltados a um público amplo – manter essa coerência a despeito do risco de quebrar a cara no ibope é para poucos e bons. “Não vou fazer de House um sujeito legal. Ele é o que é. As pessoas não mudam”, disse o criador da série, David Shore, durante visita de VEJA aos estúdios em Los Angeles que abrigam o cenário do fictício Princeton-Plainsboro.

Em dado momento da sétima temporada, que acaba de sair em DVD no Brasil pela Universal Pictures, os espectadores tiveram lá suas razões para desconfiar que House finalmente encontrara um motivo para se aquietar: o amor.

Mas sua inabilidade para qualquer tipo de relacionamento já se demonstrava antes mesmo de a atriz Lisa Edelstein, que faz Cuddy, anunciar sua demissão da série, por julgar que seu salário não fazia jus à ascensão conquistada na trama como a namorada do doutor.

O médico, em escalada de autodestruição

O caso de ambos já nascera sem futuro, em decorrência da escalada de autodestruição de House e dos conflitos que advinham do fato de ele ter como amante a mesmíssima autoridade que sabotava o tempo todo em nome de suas investigações médicas. “Alegria é algo que, infelizmente, não faz parte da natureza de House”, disse Hugh Laurie em entrevista realizada no pronto socorro de mentirinha – mas tão verossímil que até exala cheiro de hospital — do Princeton-Plainsboro.

David Shore desconversa sobre os rumores de que a saída de Lisa poderia precipitar o final de House. Mas a lógica da televisão americana indica que isso seria um tanto improvável nesta altura: a oitava temporada está indo muito bem de audiência nos Estados Unidos. Segundo a recém-lançada nova edição do Guinness, o livro dos recordes, House acaba de conquistar um título retumbante: com 82 milhões de espectadores em 66 países, é a série mais popular do mundo.

Saída de Dra. Cuddy não afetou o ibope da série (Foto: Divulgação)

O caso de House com a diretora do hospital, Cuddy (Lisa Edelstein), já nasceu sem futuro (Foto: 20th Century Fox)

Até a máquina de ressonância magnética é de verdade

A expansão da área ocupada pelo hospital é a melhor medida do triunfo de House. Quando o seriado começou a ser gravado, em 2004, o cenário se resumia à sala de seu protagonista (que, para efeitos ficcionais, ficaria no 4º andar do Princeton-Plainsboro) e à ala de internação.

Mas suas “dependências” quintuplicaram ao longo dos anos: o hall de entrada ganhou um mezanino imponente e há ainda espaço para cafeteria, farmácia, sala de UTI e um departamento de exames de imagem.

Assim como as camas hospitalares e os aparelhos de ultrassom, a máquina de ressonância magnética em que House costuma tirar uns cochilos é de verdade: custa entre 500 000 e 1 milhão de dólares. Os equipamentos são cedidos por certo período por seus fabricantes, em troca de publicidade.

Hoje, os cinco andares do hospital se espalham por dois imensos prédios contíguos. Nenhuma outra produção tem direito a tanto espaço nos estúdios da Fox em Century City, perto de Beverly Hills – mesmo complexo em que, a partir do fim dos anos 20, se produziram desde clássicos como Vinhas da Ira (1940) até Duro de Matar (1988). Uma nota histórica: no início da década de 60, boa parte da área de Century City foi vendida para tapar o rombo monumental causado pela produção de Cleópatra, com Elizabeth Taylor.

O personagem foi mesmo inspirado em Sherlock Holmes

Na série, o lugar onde House trabalha é um hospital-escola ligado à Universidade Princeton, em Nova Jersey. Aquele prédio mostrado em panorâmicas aéreas fica num câmpus da mesma universidade.

Mas o Princeton-Plainsboro não existe de fato – nem há, nos centros de excelência de medicina americanos, nada parecido com a equipe comandada por House. “A ideia de um time de especialistas voltado à investigação de diagnósticos foi inventada por nós. Seria incrível se isso um dia inspirasse os hospitais de verdade”, diz a produtora executiva Katie Jacobs.

É fato que os métodos de House já influenciam o modo como muitos médicos – inclusive no Brasil – se debruçam sobre diagnósticos desafiadores. Não deixa de ser curioso que o personagem empreste seu princípio de trabalho mais caro – duvidar, sempre, do que as aparências sugerem – do detetive mais famoso da literatura, Sherlock Holmes.

A inspiração no personagem criado por sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) é assumida por Shore, que já fez alusão a isso em vários episódios. O oncologista James Wilson é a versão contemporânea do também médico Watson, o fiel assistente de Holmes.

No começo da nova temporada, a amizade de ambos está estremecida. Mas o primeiro caso de House na volta ao hospital fornece a deixa para um reatamento: ele tem de recuperar dois pulmões doentes mantidos vivos de modo artificial para serem transplantados numa paciente de Wilson.

Após descartar doenças exóticas como erliquiose, rabdossarcoma e hemossiderose, House aca­ba acertando o alvo. Wilson só volta às boas com o colega, contudo, depois de lhe dar um cruzado no queixo para aplacar o ressentimento represado. “Os dois são ligados por uma força linda, ainda que sujeita a turbulências. É a definição mais singela de amizade”, diz o intérprete de Wilson, Robert Sean Leonard, revelando sua fofura.

Consultoria de especialistas

Para garantirem a precisão dos termos médicos desfiados por House e seus colegas, os roteiros são feitos com a consultoria de especialistas. “Além disso, médicos reveem tudo depois de gravarmos, a fim de assegurar que não sobrou nenhuma besteira”, diz Leonard.

Isso é necessário porque o elenco – a começar por Hugh Laurie – não é versado no assunto, nem recebe nenhum tipo de esclarecimento a respeito das doenças e procedimentos sobre os quais discorrerá. “A gente fala aqueles termos impronunciáveis e fica esperando a reação do personagem à nossa frente para saber se é coisa grave”, diz Peter Jacobson, que interpreta o cirurgião plástico Chris Taub.

Não menos fascinante é o modo como a resolução dos quebra-cabeças se imbrica com a abordagem de questões éticas. “Uma história de House nunca pode nascer só da sacada de uma doença incomum ou de uma questão moral interessante. As duas coisas têm de caminhar juntas”, diz David Shore.

Em um dos novos episódios, um paciente milionário é acometido de uma generosidade sem limites: quer doar aos necessitados até seus rins (os dois). É óbvio que House não perderá a chance de apontar quanto há de patológico (literalmente) nesse surto de altruísmo: a causa é um distúrbio hormonal.

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Hugh Laurie, na versão cantor de blues (Foto: Divulgação)

Uma surpresa: o ator que faz House não apenas é cantor e pianista, como escreve romances policiais

Na toada em que a série foi evoluindo, a personalidade errática de House ganhou tanto relevo quanto sua genialidade. A aversão aos seres humanos e o desprezo pelas regras da civilidade se revelaram não apenas traços anedóticos, como algo duramente enraizado em seu caráter: trata-se de uma criatura sem paz de espírito, para resumir o diagnóstico.

E aí a interpretação magistral de Hugh Laurie faz toda a diferença. Ao mesmo tempo em que expõe os defeitos de House, ele lhe confere uma graça e uma honestidade que tornam impossível não simpatizar com sua figura. “As pessoas olham para ele e pensam: ‘Eu gostaria de ter um médico assim, com coragem de dizer a verdade na lata’. Se tivéssemos escolhido outro ator para o papel, o risco de House parecer demasiado amargo ou inconvincente seria enorme”, diz a produtora Katie Jacobs.

De perto, o ator de 52 anos não lembra em nada o irascível House. O Hugh Laurie que VEJA entrevistou no set é um sujeito de voz mansa, paciente, afável. Antes de ele começar a embolsar o salário de 700 000 dólares por episódio (que faz dele o ator de série dramática mais bem pago da TV americana), não faltava dinheiro em sua conta bancária.

Ele vem de um clã de posses de origem escocesa. Seu pai foi médico e campeão de remo na Olimpíada de 1948, em Londres. E Laurie era já um comediante popular na Inglaterra ao explodir mundialmente com a série. Mas, assim como o personagem, o ator tem de lidar com seus demônios: já declarou que a mãe nunca gostou dele e que passar longos períodos em Los Angeles para gravar a série estava minando seu casamento (ele tem três filhos com a também inglesa Jo Green, a quem se uniu em 1989).

Mas, se House desconta seus problemas nos outros, Laurie encontra consolo existencial nos best-sellers policiais que escreve e, principalmente, na música.

Cantor e pianista, ele lançou há pouco um disco só com versões de blues clássicos. “Eu adoraria gravar um segundo álbum. Mas só se a gravadora julgar que mereço, claro”, anuncia, todo modesto.

Fora da TV, House é um gentleman.

 

ENREVISTA: “NO FUNDO, ELE ESTÁ DO LADO DOS ANJOS”

Hugh Laurie conversou com VEJA sobre seu personagem, medicina e, quem diria, ser um mau aluno. A seguir, os principais trechos:

 

O senhor deseja que House um dia vire um ser humano melhor?

E quem disse que House é um sujeito tão ruim assim? Admito que ele é desagradável, pernicioso e autodestrutivo. Também não tem paciência com pormenores da existência que as pessoas julgam importantes, como carinho e compaixão.

Mas o fato de House não ligar para a sensibilidade alheia não nos permite condená-lo de forma sumária. Ele tem, inegavelmente, o dom da cura. Lá no fundo de sua alma, portanto, está do lado dos anjos. É claro que um pouco de alegria faria bem a ele. Desejo, do fundo do coração, que um dia ele a encontre.

Pena que não pareça provável.

 

Depois de viver House, sua visão sobre a medicina mudou?

Sempre tive imenso respeito pela profissão. Meu pai era médico. E tenho sido um defensor ferrenho da racionalidade da medicina ocidental, contra certa desconfiança supersticiosa em relação ao pessoal de jaleco branco.

É arrepiante pensar que três quartos da humanidade não existiriam não fossem as conquistas da medicina. Devemos nossa existência aos médicos. Por causa de minha memória sofrível, contudo, não creio que saiba mais sobre o assunto agora do que antes de fazer a série. E olha que oito anos seriam suficientes para eu me formar e fazer residência em nefrologia.

É triste que eu seja um aluno tão burro.

 

Nessas oito temporadas, não deu para aprender nem um pouquinho?

Sinto dizer que não lembro de um termo sequer saído da boca de House. Só consigo fazer meu trabalho porque tenho uma memória muito seletiva: apago da mente todos aqueles nomes cabeludos de doenças tão logo termino de gravar cada episódio.

É o que mantém minha sanidade. A facilidade em esquecer esses conceitos me fez constatar, por sinal, que eu jamais seria um médico confiável.

 

Hugh Laurie: memória seletiva

Hugh Laurie: memória seletiva e, pessoalemente, um gentleman (Foto: Divulgação)

Digamos que o senhor levasse jeito para a medicina: qual especialidade escolheria?

Cirurgia.

A música sempre foi um consolo para mim – e tocar um instrumento é se valer de forma extraordinária das mãos, não só do cérebro. Creio que o mesmo se aplica aos cirurgiões. T

ransformar a situação de quem está sofrendo deve ser muito gratificante. Tome-se uma apendicite: graças à habilidade do cirurgião, o paciente se livra num golpe simples de uma dor para a qual não parecia haver fim.

 

Que tipo de comentário o senhor colhe dos médicos de verdade?

Na maioria, eles endossam a série com entusiasmo.

É óbvio que sempre tem algum chato para dizer que não se age de tal forma num hospital ou que nunca viu um caso da doença X ou Y evoluir da maneira como mostramos – mas temos de comprimir em um episódio com menos de uma hora prognósticos que levam dois meses para se desenrolar num hospital.

Quase todos os médicos, porém, afirmam gostar da série. E ouso dizer que o motivo é que não corrompemos a premissa essencial da profissão: o apego à razão e à ciência.

 

O senhor consegue vislumbrar a vida após House?

Bem, espero não cair morto assim que a série terminar.

Mas falando sério: depois de 160 episódios diante das câmeras, eu me tornei um sujeito mais confiante. E espero usar isso em outros projetos, possivelmente como roteirista, produtor e diretor.

É improvável que eu me arrisque a protagonizar uma nova série. O que rege a TV americana é a busca da identificação com o público entre 18 e 49 anos. Já estou passando dos 52, o que significa que não serei um artigo desejável por muito tempo.

Mas isso não me deprime. Tenho consciência de que o papel de House foi um daqueles tiros certeiros com que um ator só tem o privilégio de ser aquinhoado uma vez na vida, e olhe lá.

Estatisticamente, o sucesso de uma série de televisão é um milagre tão grande quanto a cura de alguns dos pacientes de House.

 

O senhor confiaria num médico como House?

Ah, eu me entregaria a seus cuidados de olhos fechados.

House é o melhor naquilo que faz. Só alguém fora de seu juízo o trocaria por um médico menos talentoso por causa de sua antipatia. A alguém que tomasse tal decisão, eu desejaria muita sorte.

Leia também:

Você sabia que o “Doutor House” da série de TV virou também cantor? Confira neste vídeo

(Reportagem de Marcelo Marthe, de Los Angeles, para a edição impressa de VEJA)

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2 Comentários

  • Angelo Losguardi

    -

    12/3/2012 às 22:51

    Eu gosto bastante, mas é preciso fazer uma crítica: a série em si é muito fraca. Há um amontoado de clichês, todo episódio é parecido (abertura com alguém participando de alguma coisa e começa a passar mal, mas quem se ferra é outro do lado que estava bem, etc). Mas concordo plenamente com a reportagem: o trabalho magistral desse ator faz TODA a diferença. Ou seja, não é a história que cativa, mas aquele drama temperado com cinismo e ironia que acaba sendo hilário.

  • Robert

    -

    12/3/2012 às 12:00

    Hugh Laurie já desempenhava o “Dr. House” na série Spooks da BBC no papel de diretor do MI6. A atuação do ator como chefe do James Bond e médico brilhante é idêntica o que me leva a pensar que a elaboração do personagem principal da série House foi inspirado no papel e atuação de Hugh Laurie em Spooks.
    Um outro ponto que gostaria de notar é que a série e ator ganharam muitos premios, mas ambos foram “atropelados” por Breaking Bad e Bryan Cranston nos últimos anos. Na minha opinião, House hoje sobrevive da fama porque a maioria dos episódios não exibe criatividade alguma, mais do mesmo, ou exagera na tentativa de ser criativo, e o resultado é uma chatice.

 

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