05/04/2012
às 19:00 \ Tema LivreRoberto Pompeu de Toledo: Dona Gildair manda vestir terno no cadáver de André, que deixa de ser “um palmeirense” e volta a ser o seu menino. Morto em briga de torcidas
DONA GILDAIR
André Alves Lezo, 21 anos, morto num confronto entre torcidas de futebol no domingo 25, em São Paulo, foi velado e enterrado, no dia seguinte, vestindo um terno.
O traje, imposto pela mãe, Gildair Alves, dizia muita coisa. Dona Gildair investia-se, na ocasião, de um dos mais típicos e sagrados papéis de mãe — o que combina o sofrimento com uma santa fúria. O terno com que ela vestiu o cadáver do filho era um grito de protesto e um resgate de identidade.
André integrava a maior das torcidas uniformizadas do Palmeiras, a Mancha Alvi-Verde. Vinham, ele e um grupo de companheiros, por uma avenida da Zona Norte de São Paulo quando foram interceptados por um grupo de corintianos, apontados como integrantes da torcida Gaviões da Fiel.
Horas depois, ocorreria naquele dia jogo entre Palmeiras e Corinthians. Seguiu-se um conflito entre trezentos torcedores, na maioria armados com paus, pedras e barras de ferro, mas alguns também com armas de fogo. André, atingido por um tiro na cabeça, morreu na noite daquele mesmo dia; outro torcedor do Palmeiras, Guilherme Vinicius Jovanelli Moreira, atingido por uma barra de ferro na cabeça, morreu dois dias depois.

Contínua vendeta: torcidas Mancha Verde, tal como a Gaviões da Fiel, proibidas em estádios de futebol (Foto: Action Images)
Entre os presentes ao velório e ao enterro de André, na grande maioria integrantes da Mancha Alvi-Verde, muitos vestiam a camisa do Palmeiras ou da torcida.
Se fosse possível computar todos os trajes que André usou em sua curta vida, é provável que a camisa do Palmeiras se revelasse o mais frequente. Não naquele momento.
Por imposição de dona Gildair, André não era mais um “palmeirense”, a qualidade com que mais vezes foi identificado na imprensa, e talvez também a qualidade com que mais vezes terá sido descrito pelos familiares, pelos vizinhos, pelos colegas de escola.
Dona Gildair também proibiu bandeiras sobre o caixão. André, de terno, voltava a ser André, o seu menino.
Torcida organizada, uma praga
Torcida organizada é uma praga que assola não só o futebol, isso se sabe não é de hoje.
Na semana anterior, um conflito em Campinas entre torcedores do Guarani e da Ponte Preta também resultara em um morto.
O confronto do domingo entre corintianos e palmeirenses é tido pela polícia como vingança de corintianos pela morte de um deles, no ano passado.
De vendeta em vendeta, segue a vida e segue a morte. Nas transmissões de TV, quando nos estádios eclode a colossal cantoria, ritmada por corpos que se movimentam, as câmeras se fecham nas torcidas, os microfones se abrem, e os locutores se empolgam – “Ouçam o canto da torcida!”, “Observem a coreografia”.
Másculas coreografias e gritos em uníssono merecem ser encarados com mais cautela. Desde as formações fascistas dos anos 1930/1940 até as da comunista Coreia do Norte de hoje, o objetivo é conclamar à guerra.

Guerra e paz: Másculas coreografias e gritos em uníssono merecem ser encarados com mais cautela (Foto: Divulgação)
A culpa? Ora, a culpa foi da polícia, não das organizadas
Nas notas oficiais que divulgaram em sua defesa, a Mancha Alvi-Verde e a Gaviões da Fiel coincidiram num ponto – as duas culparam a polícia.
Ela deveria saber que o local em que se deu o conflito do domingo — a Avenida Inajar de Souza — faz parte do trajeto tanto de palmeirenses como de corintianos em demanda do Estádio do Pacaembu.
Sendo assim, deveria providenciar maior vigilância na área, ou impor itinerários diferentes para cada torcida.
Os comunicados dão por suposto que torcidas rivais não podem se encontrar em paz.
A intolerância dentro de casa
Dona Gildair vivia tal realidade de intolerância dentro de casa. Seus outros dois filhos também pertencem à Mancha Alvi-Verde. O mais velho, Lucas, não é pouca coisa na entidade – ocupa o cargo de vice-presidente. Num Corinthians x Palmeiras do ano passado, Lucas levou um tiro na perna.
Não contente, envolveu-se em outra briga, neste ano, e está proibido de frequentar estádios. O próprio André já se envolvera em tumultos anteriormente, e fora detido duas vezes. O terceiro filho, Tiago, gêmeo de André, foi detido por porte de arma logo depois do tumulto que vitimou o irmão.
Dona Gildair é evangélica. O marido é policial militar. Tudo muito brasileiro, muito classe C. Os dois filhos gêmeos estudavam engenharia civil numa universidade particular (no caso do sobrevivente, talvez continue a estudar) – o que indica perspectiva de ascensão social.
Cada lado da família se ampara numa organização, a mãe numa igreja, os filhos numa torcida – o que não impede que o perigo ronde permanentemente por perto.
A pedido dos filhos, dona Gildair vez por outra ia à sede da Mancha Alvi-Verde, ajudar em trabalhos sociais. Mãe é mãe. No mais fatídico dia de sua vida, no entanto, mater dolorosa e mãe coragem amalgamadas sob o mesmo vestido de evangélica, comprido até o tornozelo, disse chega.
E mandou pôr um terno no filho.
(Artigo publicado na edição de VEJA de 4 de abril de 2012)
Tags: classe C, confronto entre torcidas de futebol, Corinthians, Dona Gildair, Estádio do Pacaembu, futebol, Gavioes da Fiel, gêmeos, Mancha Alvi Verde, Palmeiras, polícia, terno, Torcida organizada, velório



































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