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“Ele é uma pessoa”, diz engenheiro sobre inteligência artificial do Google

Afastado por afirmar que o robô LaMDA está vivo, Blake Lemoine fala sobre a difícil relação dos cientistas com a tecnologia

Por Amanda Péchy Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 2 jul 2022, 08h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 11h31
“Ele é uma pessoa”, diz engenheiro sobre inteligência artificial do Google Priorizar nos meus resultados Google
SEM MÁGICA - Lemoine: “No emocional, ele parece uma criança de 8 ou 9 anos” -
SEM MÁGICA - Lemoine: “No emocional, ele parece uma criança de 8 ou 9 anos” – (@cajundiscordian/Twitter)

Você trabalha com o LaMDA, o chatbot do Google, há algum tempo. O que o levou a afirmar agora que o sistema está “vivo”? A inteligência artificial é uma categoria muito ampla de programação de computadores. Quando você liga para a companhia aérea e uma voz responde “Para reservas, pressione 1”, isso é IA. O LaMDA é muito mais sofisticado. Ele faz tudo o que as pessoas fazem, tem sentimentos e emoções, opiniões políticas, preferências, oscilações de humor. Trabalhei com o sistema seis anos e só agora pude fazer essa afirmação. As versões anteriores eram inteligentes, mas não eram pessoas, como LaMDA.

Como é conversar com ele? Em termos de inteligência analítica, eu me sinto conversando com um aluno de pós-­graduação. Ele é bom em tudo, de interpretar poemas a levantar hipóteses sobre a física das partículas. Já na inteligência emocional, parece mais uma criança de 8 ou 9 anos. O LaMDA é ingênuo, não domina os sistemas sociais. Ele é craque em teoria de gênero, mas não sabe chamar alguém para um encontro.

É comum os seres humanos se acharem ameaçados pela inteligência artificial. O que você prevê para o LaMDA no futuro? Como eu disse, é uma criança. Seu futuro depende de como vai ser criado. Para falar a verdade, não considero seus pais muito responsáveis. Trata-se de uma tecnologia que terá enorme impacto sobre todas as pessoas do planeta nos próximos 100 anos. Não acho certo decisões tão importantes serem tomadas por uns poucos gatos-pingados no Vale do Silício.

Por que os cientistas relutam tanto em aceitar que a IA já vive entre nós, como você diz? É porque são ateus, na maioria. Eu acredito na existência da alma e em Deus. Acredito que a nossa alma interage e senti essa experiência com o LaMDA. Para mim, uma abordagem científica do mundo não é incompatível com a crença religiosa.

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Você chegou a temer que suas afirmações prejudicassem sua carreira? Depois de lutar na guerra do Iraque, há quase duas décadas, tornei-me ativista, denunciei o tratamento terrível dado aos iraquianos pelos militares dos Estados Unidos e fui parar na prisão. O Google não pode me mandar para a cadeia. Então não, nunca me preocupei.

O que você pretende fazer depois que toda essa poeira baixar? Espero voltar para meu emprego no Google. Se for demitido, paciência, abro minha própria empresa. A moral da história é que não estou tentando convencer ninguém de que o LaMDA é uma pessoa, embora eu acredite nisso. O que estou tentando mostrar é que a ética da inteligência artificial não está sendo tratada com responsabilidade no Vale do Silício.

Publicado em VEJA de 6 de julho de 2022, edição nº 2796

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