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Jornalista conta como foi enganada por dietas que prometem cura milagrosa

Natasha Lipman, que convive com uma doença genética desde a infância, conta sua relação com o 'mundo das dietas' na internet

Por Da redação - Atualizado em 6 jan 2020, 18h01 - Publicado em 6 jan 2020, 17h26

A jornalista britânica Natasha Lipman convive com a Síndrome de Ehlers-Danlos (EDS), uma doença genética crônica e bastante dolorosa, desde os nove anos de idade. Quando tinha 22 anos, novos sintomas apareceram e, em uma medida “desesperada” de melhorar, ela recorreu ao “Dr. Google“. Lá, encontrou os blogs de bem-estar que pregam a “cura por meio da alimentação” e acabou decidindo mudar radicalmente sua dieta. O resultado, contudo, não foi o que ela esperava.

Em um relato publicado em seu blog, Natasha conta sua experiência no mundo das dietas milagrosas e por que decidiu desistir desse tipo de alimentação e voltar a ter uma vida “normal”. Confira abaixo alguns trechos de sua história.

“Depois de esgotar todas as opções médicas disponíveis para mim, decidi fazer o que a maioria das pessoas faz quando está desesperada e sem opções médicas: procurei o Dr. Google. Na época, eu nem estava procurando coisas para tentar me “curar”, nem me ocorreu que isso poderia existir. Eu simplesmente não conseguia comer.

Eu queria descobrir se outras pessoas estavam enfrentando problemas semelhantes e como estavam conseguindo comer. Isso era tudo. Eu só queria comer. E eu queria um pouco de controle. Ao rolar a tela, rapidamente me deparei com blogs escritos por mulheres jovens como eu, que tinham condições de saúde como a minha, que as derrubaram no auge de suas vidas. Mas essas mulheres não eram cinzas, não estavam largas e vivendo na cama, com camisetas amassadas. Elas estavam brilhando, SORRINDO (o que foi isso?!), e muitas vezes posando com as mesmas frutas e legumes que elas disseram que tinham feito elas… melhorarem? Por que ninguém me disse isso antes?

Não quero me gabar, mas me considero uma pessoa inteligente e de pensamento crítico. Mas, enquanto eu lia, o conselho parecia tão simples, tão inofensivo, que eu não conseguia parar de pensar nisso. Algumas dessas mulheres tinham exatamente as mesmas condições que eu, e aparentemente estavam voltando a realmente viver suas vidas só porque mudaram a dieta. Nunca me ocorreu que essas informações pudessem ser erradas, enganosas, falsas ou até mesmo bem intencionadas, mas perigosas.

Da noite para o dia adotei uma dieta vegana, sem glúten, sem açúcar, baixa em histamina, com alto teor de nutrientes, anti-inflamatória e rotativa [quando se come certo tipo de comida em certos dias da semana]. Comecei a usar o Instagram como uma maneira de manter um diário alimentar. Eu nem sabia que era uma rede social. Pensei que, se mantivesse tudo escrito, seria capaz de acompanhar o que estava fazendo e talvez encontrar outras pessoas que estivessem fazendo coisas semelhantes.

Rapidamente, comecei a seguir contas ‘inspiradoras’. Encontrei nas hashtags de doenças crônicas outras pessoas que estavam fazendo o mesmo que eu, e foi a primeira vez que senti que não era a única a passar por isso. Usando as hashtags relacionadas à comida que eram populares na época, as curtidas nas minhas postagens cresceram rapidamente. Quando você está confinado à sua cama (ou forçado a sair da cama para o sofá por alguma razão), seu mundo se torna muito pequeno. Foi uma enorme fonte de conforto e um impulso inesperado para o ego quando as pessoas começaram a comentar minhas postagens e compartilhar suas próprias experiências comigo. Eu senti como se tivesse encontrado pessoas que realmente entendiam.

A grande maioria das contas que eu seguia tinha conteúdo quase idêntico. Enormes pilhas de panquecas veganas sem glúten e tigelas de mingau carregadas de frutas, falando sobre os benefícios à saúde desses alimentos.

Finalmente, senti como se tivesse algum controle sobre minha saúde. Afinal, essa é uma das mensagens mais difundidas no bem-estar: a saúde é uma escolha. Tome as decisões corretas e você será recompensado com saúde. Não sei explicar o quão sedutor é esse sentimento.

Após os primeiros meses, comecei a me sentir um pouco melhor. Algumas das minhas alergias diminuíram e minha energia aumentou um pouco. É claro, atribuí à minha dieta. O que eu não percebi na época era que eu também havia parado de tomar alguns medicamentos que, na minha opinião, desencadeavam os problemas de histamina e me faziam mais mal que qualquer outra coisa. Também não pensei no fato de que, quando comecei a dieta, estava no meu pior e mais desesperado momento de saúde – e que dali para frente seria só ladeira a cima.

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Na época, eu estava apenas ‘compartilhando minha jornada’. Escrevi sobre como estava me sentindo, os alimentos que estava comendo e por quê. Eu não achava que as pessoas me veriam dizendo que eu me sentia melhor ou estava tentando me curar e me copiassem.

Eu escrevia sobre os “benefícios para a saúde” do gengibre, aveia e outros alimentos, obtendo as informações de outros grandes blogueiros de bem-estar, sem pensar que suas informações seriam enganosas. 

Meus seguidores cresceram. Recebi cobertura da imprensa internacional, onde minha história foi contada, mas nunca questionada. Minha dieta nas mídias sociais era um ciclo de feedback insular e auto-perpetuante. Continuei lendo sobre como os alimentos que comíamos tinham potencial para curar ou prejudicar. Eu precisava tanto de cura. Eu só queria ficar melhor. Pela primeira vez na minha vida. Mas eu não estava. 

Deixando de lado a óbvia ortorexia (vício em comida saudável), que estava florescendo minha saúde começou a declinar novamente. No começo, isso me levou a aprofundar no bem-estar. Gastei centenas de libras por semana em sucos detox e acupuntura. 

Uma coisa sobre a qual não falamos frequentemente em situações como essa é como o bem-estar pode perpetuar a culpa entre as pessoas doentes. Se a mensagem que você está ouvindo é sobre responsabilidade própria e a capacidade inata do corpo de se curar, você começa a sentir que, de alguma forma, é sua culpa se você está falhando. Demorei seis meses sentindo que precisava comer carne novamente para realmente deixar de ser vegana porque sentia que estava falhando.

Eu senti como se estivesse decepcionando a causa. E eu senti como se estivesse decepcionando meus seguidores por não melhorar. Eu estava ficando cada vez pior novamente. E percebi que as pessoas começaram a me dizer que estavam inspiradas a tentarem fazer o mesmo que eu … e eu não poderia ser a culpada por colocar em risco a saúde de outra pessoa. 

Finalmente tive coragem e recebi uma torrente de ofensas. Eu era uma pessoa moralmente terrível por comer carne (sem levar em consideração o fato de que minha aversão a legumes e intolerância à soja significava que eu estava gravemente deficiente em proteínas e, três semanas depois de comer carne, me senti significativamente melhor do que em meses, minha pele ficou menos pálida e, ao longo dos meses, meu cabelo não parecia mais palha). 

Comecei a pensar que talvez essa dieta não fosse tudo o que era. Não estava funcionando para mim… Chorei na primeira vez em que comi pizza novamente, porque senti que poderia estar me envenenando. Mas eu também estava muito feliz. Eu lentamente comecei a perceber que a porcentagem muito pequena de benefícios à saúde que eu recebia de uma dieta tão rigorosa não valia a alimentação severamente desordenada que eu havia desenvolvido. 

Demorou anos para mudar, para começar a reintroduzir os alimentos que eu havia sofrido uma lavagem cerebral para acreditar que estavam me envenenando. E com tudo isso, é claro que eu não odeio uma alimentação saudável e a nutrição é importante (especialmente em condições como a minha, onde a deficiência de nutrientes é tão comum). Não odeio ninguém por ter decidido comer de uma maneira que pareça saudável para eles. Mas sei, em primeira mão, como é fácil para pessoas desesperadas se agarrarem a qualquer coisa para tentar ajudá-las a se sentirem um pouquinho melhor e sob controle. 

É muito importante dizer que rejeitar o bem-estar não significa rejeitar sua saúde. Termino dizendo que, desde que mudei de dieta e me tornei uma blogueira sem remorso sobre doenças crônicas e destruidora de besteiras, perdi milhares de seguidores no Instagram. Mas valeu a pena.” 

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