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Coronavírus: o risco real de transmissão pelos olhos

Evidências sugerem que o vírus pode entrar no organismo pelos olhos; VEJA ouviu especialistas para esclarecer como ocorre esse tipo de transmissão

Por Giulia Vidale - Atualizado em 14 jul 2020, 14h56 - Publicado em 14 jul 2020, 13h23

A possibilidade de transmissão do novo coronavírus pelos olhos tem sido motivo de preocupação para muitos pessoas. Isso fez com que o uso do escudo facial saísse do ambiente hospitalar e passasse a ser visto nas ruas, usado por inúmeras pessoas, nos mais diversos ambientes. Mas, afinal, isso é realmente necessário?

Segundo o oftalmologista Wallace Chamon, membro do Conselho Brasileiro de Oftalmologia e professor da Unifesp, não existe nenhuma orientação das autoridades sanitárias para o uso de escudos faciais pela população geral. “Profissionais que estão sujeitos a entrar em contato com a secreção do paciente, principalmente profissionais de saúde da linha de frente de atendimento, realmente precisam usar”.

A possibilidade de contrair o coronavírus pelos olhos veio a público pela primeira vez no final de janeiro, quando diversos especialistas afirmaram que essa forma de transmissão seria “absolutamente possível”. O contágio ocorreria quando o paciente encosta as mãos infectadas junto ao globo ocular.

Em maio, um estudo da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, confirmou que o coronavírus pode entrar no corpo humano pelos olhos. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão após encontrarem a proteína ECA2 e a enzima TMPRSS2 nos olhos de pessoas que morreram de outras causas que não Covid-19.

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A ECA2 e a enzima TMPRSS2 são usadas pelo coronavírus para invadir as células e se multiplicar no organismo. Isso explicaria por que alguns pacientes com Covid-19 apresentam conjuntivite. Segundo os autores, os resultados sugerem que os olhos não são somente uma porta de entrada para a infecção, mas também uma fonte de transmissão, por meio das lágrimas.

Especialistas acreditam que a conjuntivite, sintoma presente em 1% a 3% dos pacientes com Covid-19, pode ser o resultado do coronavírus se deslocando do trato respiratório para os olhos. Mas também poderia ser um resultado direto do vírus atacar as células dos olhos, ligando-se aos receptores da ECA2 presente no órgão.

“Há um ducto que liga o trato respiratório aos olhos. Portanto, se todo o trato respiratório tiver coronavírus, provavelmente alguma partícula viral vai escapar para a lágrima, por essa ligação, mas isso não significa que pode haver transmissão pela lágrima”, explica Chamon,

Pesquisa publicada da revista científica Ophthalmology, da Academia Americana de Oftalmologia, concluiu que é improvável que pacientes infectados transmitam o vírus para outras pessoas através das lágrimas. Entretanto, os autores ressaltaram que nenhum dos pacientes do estudo apresentou conjuntivite em decorrência da doença. Isso ignifica que, embora rara, ainda existiria a possibilidade desse tipo de transmissão em pessoas com Covid-19 que desenvolvem conjuntivite como um dos sintomas.

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Prevenção

Qual é a melhor forma de se proteger? “Os principais cuidados para prevenir a infecção por coronavírus são higienizar as mãos, manter a etiqueta respiratória, evitar colocar a mão na face ou coçar os olhos e sempre usar máscara”, diz o infectologista Gerson Salvador, especialista em saúde pública pela USP.

O coronavírus, assim como outros vírus respiratórios, entra no organismo por mucosas, como boca, nariz e olho. Isso acontece principalmente por meio das nossas mãos, que acabam se contaminando quando tocamos em superfícies e levarmos a mãos ao rosto, o vírus entra no organismo. Por isso é tão importante manter as mãos limpas.

Outra forma possível é um pessoa infectada tossir ou espirrar diretamente no rosto de uma pessoa saudável e uma gotícula entrar diretamente nos olhos. Por outro lado, se todas as pessoas estiverem de máscara, isso não acontece.

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“Se alguém sem máscara tossir nos meus olhos, eu serei infectado, mesmo que eu esteja de máscara. Por isso, somente eu usar máscara não é suficiente. Nesse caso, eu realmente precisaria estar de máscara e escudo facial. Então é importante lembrar que usar máscara serve não só para auto-proteção, mas também para proteger outras pessoas”, diz o infectologista Wilbur Chen, professor de Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

Embora não seja necessário, não há contraindicação para quem decidir usar o escudo facial pois se sente mais seguro e protegido, desde que ele seja usado como complemento ao uso da máscara e jamais no lugar dela.

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