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Novos estudos revelam a boa relação entre cafeína e atividades físicas

Mas convém, como tudo na vida, não exagerar, porque há risco de efeitos colaterais

Por Fábio Altman Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
11 fev 2023, 08h00

Não há droga psicoativa — droga, sim — mais disseminada no mundo, e devidamente legalizada, do que a cafeína. Ela está presente nas três bebidas mais consumidas do planeta: café, chá e Coca-Cola. Sobrevive na cultura de quase todos os povos como fiel companheira da civilização. Lá atrás, no imaginário coletivo, andava sempre acompanhada de um cigarro — até que o fumo fosse inapelavelmente condenado. Depois de séculos de prazer, apenas em 1819 seria identificada em laboratório pelo bioquímico e médico alemão Friedlieb Ferdinand Runger (1794-1867), influenciado por um amigo, o escritor Johann Wolfgang Goethe (1749-1832). Runger nomeou as moléculas de cafeína presentes nas sementes de café e associou o grão a propriedades estimulantes — que foram a todo momento intuí­das, sobretudo por quem sempre trocou o dia pela noite, mas que somente a partir dali passaram a ser catalogadas. E então a ciência começou a entender o que Goethe, amante do líquido escuro e quentinho, certa vez disse com a grandeza dos grandes pensadores: “Um homem é o que lê, come e bebe na vida. Logo deve escolher a melhor leitura, a melhor comida e a melhor bebida… o café”.

Há, agora, para coroar dois séculos de investigação e interesse, uma extraordinária novidade. Estudos recentes mostram que a cafeína pode melhorar de 2% a 5% o desempenho esportivo — não é muita coisa, mas o suficiente para conceder algum conforto suplementar. Ela pode ser consumida numa xícara de café ou em suplementos e bebidas energéticas. É boa para as atividades anaeróbicas, como os exercícios intensos e curtos, a exemplo do levantamento de peso e do treinamento de alta intensidade — mas é ainda mais produtiva para esforços aeróbicos, menos pesados e mais demorados, como a corrida de rua, a natação e o ciclismo. Um extenso levantamento feito com remadores olímpicos revelou que, depois de ingerir cafeína, os atletas de alto nível melhoraram o desempenho na distância de 2 000 metros em cerca de quatro segundos. Em outro trabalho, descobriu-se que atletas bem treinados para provas de fundo, as de 5 000 metros, ganham de onze a doze segundos. Não por acaso, jogadores de basquete da NBA (leia reportagem na pág. 66) costumam bebericar alguma coisa de café antes de entrar em quadra e mesmo nos intervalos. “Há consenso entre os cientistas de que o café empurra os limites para correr maratona e jogar futebol”, diz a nutricionista Nanci Guest, pesquisadora da Universidade de Toronto, líder de um vasto acompanhamento da relação entre cafeína e exercício.

 

arte café

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Para o cotidiano de academias, entre pessoas que apenas desejam manter a forma física, o ideal seria de 1,4 a 2,7 miligramas de bebida por quilo de massa corporal, o equivalente a pouco mais duas xícaras pequenas por dia. Ressalve-se que nem todas as pessoas reagem do mesmo modo, e a prescrição médica é sempre recomendada, ajustando as indicações. Seja como for, o melhor é ingerir a cafeína uma hora antes do exercício, para dar tempo de a corrente sanguínea absorvê-la e começar a agir no metabolismo. Ela bloqueia o funcionamento da adenosina, neurotransmissor que, associado a receptores, nos deixa sonolentos. Sabe-se também que ajuda os músculos a produzirem mais força. O corpo humano precisa de cálcio para iniciar as contrações musculares — e a cafeína mobiliza os íons de cálcio, promovendo o movimento com menos gasto de energia. Não se trata de uma poção mágica, e muitas vezes nem se percebe o empurrão.

Às recentes revelações somam-se descobertas anteriores. A ingestão de quatro a cinco xícaras de café diariamente estaria associada a taxas de mortalidade reduzidas. O consumo regular de café — moído, instantâneo e até descafeinado — tem potencial para reduzir o risco de doenças hepáticas em 20%. Convém, contudo, estar sempre atento às quantidades. Para a maioria dos adultos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é seguro consumir, no máximo, até 400 miligramas de cafeína por dia, o equivalente a cinco xícaras pequenas de café ou dez latas de refrigerante de cola ou duas latas de bebida energética. O exagero, como em tudo na vida, à exceção do conhecimento e da sensatez, é caminho para efeitos colaterais. Pode provocar dor de cabeça, dor de estômago, irritabilidade, batimentos cardíacos acelerados, ansiedade — e sobretudo insônia. Costuma-se negligenciar os danos de uma noite maldormida, cujos problemas são maiores que as vantagens de um cafezinho antes da academia. Entre dormir e tomar um café, durma.

Publicado em VEJA de 15 de fevereiro de 2023, edição nº 2828

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