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Exposição precoce à anestesia pode prejudicar cognição de crianças

Pacientes que são submetidos à anestesia antes dos três anos enfrentam mais problemas relacionados à linguagem e ao raciocínio ao longo da infância

Por Da Redação - 21 ago 2012, 15h27

Uma nova pesquisa mostrou que crianças que são expostas à anestesia antes dos três anos de idade, mesmo que somente uma vez, têm um maior risco de apresentar dificuldades de raciocínio e problemas de linguagem ao longo da infância. Segundo os autores do estudo, porém, essa conclusão não deve assustar os pais e fazer com que eles evitem a qualquer custo submeter seus filhos à anestesia. “Se as crianças precisam de uma cirurgia, é preciso colocar na balança os riscos e os benefícios do procedimento”, diz Lena Sun, anestesiologista da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, e uma das autoras do trabalho.

CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Long-term Differences in Language and Cognitive Function After Childhood Exposure to Anesthesia

Onde foi divulgada: revista Pediatrics

Quem fez: Caleb Ing, Charles DiMaggio, Andrew Whitehouse, Mary Hegarty, Joanne Brady, Britta von Ungern-Sternberg,Andrew Davidson, Alastair Wood, Guohua Li e Lena Sun

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Instituição: Universidade Columbia, Estados Unidos

Dados de amostragem: 2.868 crianças de dez anos

Resultado: Crianças que foram expostas ao menos uma vez à anestesia para uma cirurgia ou exame diagnóstico antes dos três anos apresentam, aos dez anos, mais problemas de raciocínio, de linguagem e de memória

Esses resultados, publicados nesta segunda-feira na revista Pediatrics, foram baseados nos dados de aproximadamente 2.900 crianças que estavam inscritas em um levantamento nacional da Austrália. Os participantes realizaram testes de raciocínio, linguagem, memória e interpretação de texto quando completaram dez anos de idade. Eles também responderam a questionários sobre saúde emocional para que os pesquisadores observassem se havia incidência de problemas como depressão e agressividade.

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Múltipla exposição à anestesia pode dobrar os riscos de déficit de atenção em crianças

O estudo concluiu que as crianças que haviam sido expostas à anestesia para uma cirurgia ou um exame diagnóstico antes dos três anos de idade cometeram o dobro de erros de linguagem e tiveram mais dificuldade em resolver problemas do que as outras. Não foi encontrada nenhuma relação entre as anestesias e problemas de comportamento, de atenção ou de e habilidades motoras.

Para os pesquisadores, é preciso cuidado ao analisar esses dados, já que outros fatores podem contribuir para essa relação. Por exemplo, crianças que foram expostas à anestesia nos primeiros anos de vida e que, portanto, precisaram passar por alguma cirurgia, podem apresentar outras condições médicas que prejudiquem o desenvolvimento cerebral de alguma forma. No entanto, como os procedimentos observados pelos participantes do estudo foram menores (circuncisão, remoção das amígdalas e procedimentos odontológicos, por exemplo), é possível que a anestesia seja a principal causadora desses problemas cognitivos, explicam os autores.

“Isso não significa que as crianças não devam passar por uma cirurgia se for necessário”

Caleb Ing

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Professor assistente da Divisão de Anestesiologia Pediátrica da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, e coordenador do estudo

O que já se sabia sobre os efeitos da anestesia sobre a cognição das crianças?

Até agora, nós sabíamos que a exposição à anestesia em animais recém-nascidos provoca danos cognitivos a longo prazo. No entanto, realizar experiências com seres humanos é mais complicado. Então, até agora, os resultados são inconclusivos, já que alguns estudos mostraram que crianças expostas à anestesia são prejudicadas e outros indicaram que a anestesia não faz diferença alguma. Esse trabalho é diferente pois nós aplicamos testes neuropsicológicos mais específicos do que os utilizados em outros estudos. Nós verificamos, então, que a linguagem o raciocínio, especificamente, foram afetados, mas o comportamento e as habilidades motoras não.

Os prejuízos demonstrados pelo estudo foram causados por qual tipo de anestesia?

Nós ainda estamos trabalhando para especificar quais anestesias e em quais doses podem provocar problemas cognitivos. A maioria desses procedimentos, no estudo, foram de anestesia geral administrada com gás inalado.

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Por que a anestesia afetou a cognição desses pacientes?

Em animais, acreditamos que a anestesia diminui a sinalização do cérebro e provoca a morte de alguns neurônios. Em humanos, porém, ainda não sabemos a resposta. Nosso estudo verificou que as crianças expostas à anestesia tiveram um desempenho cognitivo pior, mas ainda estamos trabalhando para descobrir se esse efeito foi devido à anestesia, à cirurgia ou a algum outro fator, como a doença médica subjacente que fez com que as crianças precisassem de uma cirurgia ou de um exame diagnóstico.

É possível reverter esses danos?

Ainda não sabemos, já que, como disse anteriormente, ainda não está totalmente claro se é a anestesia, a cirurgia, a condição médica ou outro fator que contribui para o prejuízo cognitivo. Estudos com animais mostraram que os efeitos adversos da anestesia foram tratados com um ambiente de aprendizagem enriquecido. No entanto, não sei se isso seria eficaz entre crianças.

Os pais devem ficar preocupados com esses resultados?

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A coisa mais importante que eu quero enfatizar é que os nossos resultados não significam que as crianças não devam passar por uma cirurgia se for necessário. Os pais devem consultar o cirurgião e o pediatra para que os profissionais determinem se o procedimento é necessário nesse momento e se a anestesia é necessária para esse procedimento. Se a cirurgia e a anestesia forem necessárias, o procedimento não deve ser adiado e a anestesia não deve ser descartada.

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