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Estudo avalia eficácia da nicotina contra coronavírus

Uma equipe de pesquisadores na França acredita que a substância pode impedir o vírus de entrar na célula; proposta foi criticada por entidades de saúde

Por Giulia Vidale Atualizado em 30 abr 2020, 11h40 - Publicado em 28 abr 2020, 17h33

Contra todas as expectativas, um estudo publicado recentemente sugeriu que fumantes correm um risco menor de desenvolver sintomas e formas graves de Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. A equipe do Hospital Pitié-Salpêtrière, na França, analisou 480 pacientes com diagnóstico da infecção. Desses, 350 foram hospitalizados e o restante se recuperou em casa.

Os resultados mostraram que entre os internados, 4,4% eram fumantes regulares. Já entre os que se recuperaram em casa, essa taxa era de 5,3%. Além disso, de acordo com os pesquisadores, a taxa de fumantes com resultado positivo para coronavírus na França foi de 8,5%, enquanto o número total de fumantes no país é estimado em cerca de 25,4%, segundo dados de 2018. Diante disso, os autores concluem: “Nosso estudo sugere fortemente que aqueles que fumam todos os dias têm muito menos probabilidade de desenvolver uma infecção sintomática ou grave com Sars-CoV-2 em comparação com a população em geral.”

Em seguida, foi publicado um artigo sugerindo que a nicotina poderia ser a substância responsável por esse efeito “protetivo” do tabagismo. Segundo Jean-Pierre Changeux, do Instituto Pasteur na França, co-autor do estudo, a hipótese é que a nicotina pode aderir aos receptores celulares, impedindo a entrada do vírus nas células.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores planejam fazer uma pesquisa clínica, que será inciada em breve, usando adesivos de nicotina. O estudo irá envolver a participação de profissionais de saúde e pacientes com coronavírus que serão divididos em dois grupos: um usará adesivos de nicotina e outro adesivos de placebo. Em seguida, eles serão testados para ver se há uma diferença na forma como seus corpos respondem ao vírus.

Logo após as publicações, o chefe da agência nacional de saúde da França alertou que ainda não há evidências concretas de que a nicotina ajude a evitar a doença, e alertou que o tabagismo continua sendo o principal causador de mortes na França. Além disso, na sexta-feira 24, o governo proibiu a venda online de substitutos de nicotina, como chicletes e adesivos.

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O objetivo da decisão, de acordo com o decreto publicado no Diário Oficial, é “prevenir os riscos à saúde relacionados ao consumo excessivo ou ao uso indevido destes produtos, que poderiam estar vinculados à cobertura da mídia sobre uma possível ação protetora da nicotina contra a Covid-19” e garantir “um suprimento contínuo e adequado às pessoas que precisam de apoio médico no contexto de eliminarem o vício do tabagismo”. A França é um dos países mais atingidos pela pandemia de coronavírus, com mais de 165.000 infecções e 23.000 mortes confirmadas até o momento.

O estudo foi duramente criticado, tanto por seus resultados quanto pela metodologia. Para começar, a pesquisa tem o mesmo “problema” que a maioria dos estudos sobre coronavírus publicados até o momento: ela não foi avaliada por outros especialistas antes de ser divulgada, algo chamado de peer-review ou revisão por pares. Esse processo garante uma análise criteriosa antes da publicação do estudo. Aqueles que não atendem esses critérios, nem chegam aos holofotes.

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Além disso os dois grupos analisados – pacientes hospitalizados e aqueles que se recuperaram em casa – são bastante homogêneos. O grupo hospitalizado era composto por 343 pessoas com idade média de 65 anos, enquanto o grupo que se recuperou em casa era formado por 139 pessoas com, em média, 44 anos.

“O estudo é falho e extremamente enviesado. Os pesquisadores não incluíram pacientes em terapia intensiva. Sabemos, por estudos publicados anteriormente, que fumantes têm maior risco de um pior desfecho da Covid-19 e, portanto, há maior probabilidade de encontrar essas pessoas em UTI”, diz o pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine mostrou que os fumantes chineses que contraíram Covid-19 tinham maior probabilidade de infecções graves. Uma visão geral dos estudos atuais sugere que fumantes infectados pelo novo coronavírus eram mais propensos a serem internados em unidades de terapia intensiva (UTI).

Além disso, diversas evidências mostram que fumar reduz a função pulmonar e aumenta o risco de gripe, por exemplo. “Das doenças listadas como fatores de risco para complicações por Covid-19 – hipertensão, diabetes e doenças pulmonares -, o tabagismo é um dos fatores de causa de todas. Além disso, hoje se discute muito o papel da inflamação na infecção por coronavírus e o tabagismo causa inflamação crônica nos pulmões, nas artérias e no corpo em geral. Então eu não vejo logica em um estudo desse.”, ressalta o pneumologista. Portanto, o tabagismo é fortemente contraindicado.

Em relação à possibilidade da nicotina como um fator protetivo, Fiss afirma que desconhece a atuação da nicotina na ECA2, receptor usado pelo coronavírus para entrar nas células e que, segundo o artigo, teria sua expressão inibida pela nicotina. No entanto, acredita que diante de uma doença sobre a qual não se sabe muito, um estudo de curto prazo, controlado, duplo-cego e randomizado com adesivo de nicotina poderia ser viável se acreditarmos que todas as possibilidades tem que ser estudadas.

Uma nota assinada pela ACT Promoção da Saúde, a Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas, a Associação Médica Brasileira, a Campaign for Tobacco-Free Kids, a Fundação do Câncer, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia e que teve a adesão de outras treze entidades condena a hipótese nicotínica.

“Sabemos que, no momento, várias linhas de pesquisa estão em andamento para tentar entender como o novo coronavírus age e como combatê-lo. Mas ainda é muito precoce e arriscado afirmar qualquer potencial fator protetor da nicotina para o SARS-CoV-2. Uma vez contaminados pelo novo coronavírus, os fumantes tendem a ter uma pior evolução do quadro, com mais gravidade e mortes (2) (3). A discussão sobre a nicotina surgiu porque em alguns estudos realizados na China pareciam haver menos fumantes do que o esperado nas hospitalizações pela COVID-19. No entanto, não está claro se a coleta de informações sobre quais pacientes eram tabagistas nesses estudos foi adequadamente realizada ou se está subnotificada. […] O estudo sobre a nicotina em questão também não foi revisado por pares e não faz referência a aprovação por nenhum comitê de ética em pesquisa. E, além disso, deve-se destacar que ao menos um dos autores do estudo já foi financiado no passado pela indústria do tabaco (4). A nicotina é uma droga psicoativa causadora de dependência e de graves danos ao sistema cardiovascular, como infartos e tromboses (5).”, diz a nota.

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