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Estudo aponta falhas em pesquisa que relacionou terapia de reposição hormonal ao câncer

Um dos erros apontados é a escolha das voluntárias: elas faziam check-up periódicos, o que indicaria a pré-existência de nódulos ou lesões suspeitas

Uma pesquisa revolucionária que estabeleceu vínculos entre o tratamento de reposição hormonal (TRH) para mulheres na menopausa e a incidência maior de câncer de mama está repleta de falhas, segundo o periódico Journal of Family Planning and Reproductive Health. De acordo com uma avaliação publicada pelo periódico nesta segunda-feira, o estudo tem tantos problemas que não seria possível ter chegado a uma conclusão segura.

A pesquisa, denominada Estudo Um Milhão de Mulheres (Million Women Study ou MWS), estampou as manchetes dos jornais quando foi publicada pela primeira vez, em 2003. Baseado em questionários respondidos por mais de um milhão de mulheres na pós-menopausa na Grã-Bretanha, o estudo estabeleceu que a terapia de reposição hormonal (TRH) aumentava o risco de incidência de câncer de mama. Suas estimativas causaram uma onda de ansiedade – e muita confusão – entre entidades reguladoras, médicos e mulheres que fazem uso da TRH.

A terapia de reposição hormonal consiste no uso dos hormônios femininos estrogênio e progesterona – separados ou combinados -, para aliviar os sintomas da menopausa, como ondas de calor, perda do apetite sexual e ressecamento vaginal.

Riscos superestimados �- Atualizações na pesquisa original refinaram os dados sobre os riscos da terapia. Segundo o site do MWS, há um risco 30% maior de câncer em mulheres que fazem uso exclusivamente de estrogênio e duas vezes maior entre as que usam a terapia de estrogênio e progesterona em comparação com aquelas que não fazem uso destes medicamentos.

O risco aumenta de acordo com o tempo em que a mulher faz uso do tratamento hormonal, mas cai para o nível normal no prazo de cinco anos após sua interrupção, destacou o MWS. Mas a avaliação do periódico relata que o desenho do estudo MWS tem muitas falhas. “A TRH pode ou não aumentar o risco de câncer de mama, mas a MWS não estabeleceu que, de fato, o faça”, determinou, secamente, o artigo.

Em meio à meia dúzia de tópicos, os autores afirmam que os cânceres detectados alguns meses após o início do estudo já estariam presentes quando as mulheres aderiram à pesquisa. Mas estes casos não teriam sido excluídos da contagem de incidências da doença.

A revista aponta ainda para “uma detecção tendenciosa” através da escolha das participantes: as voluntárias integravam um programa de check-up das mamas quando foram convidadas a participar do estudo. Por este motivo, elas já teriam conhecimento sobre nódulos mamários ou lesões suspeitas relacionadas ao câncer de mama. Como resultado, o MWS encontrou uma incidência 40% maior de câncer de mama entre as voluntárias – independentemente de terem feito uso ou não de terapia hormonal – em comparação com a população em geral.

O artigo também destacou que os cânceres de mama normalmente levam muitos anos para se desenvolver. Portanto, seria “biologicamente improvável” que tantos casos tenham aparecido no prazo de um ano ou dois em que as voluntárias participaram do estudo. “O nome ‘Estudo Um Milhão de Mulheres’ sugere uma autoridade, além da crítica ou refutação”, afirmam os autores, chefiados por Samuel Shapiro, professor de saúde pública da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Shapiro acrescenta ainda que a validade de qualquer estudo depende da qualidade de seu desenho, execução, análise e interpretação. O tamanho por si só não garante que as descobertas são confiáveis.

Resposta – Os responsáveis pelo estudo MWS refutaram as críticas, em e-mail. Eles afirmam que mais de 20 estudos replicaram suas descobertas e que um declínio no uso de TRH levou a uma queda nos casos de câncer de mama. “Cânceres sensíveis a hormônios ainda são três vezes mais comuns em usuárias de TRH do que em ex-usuárias ou não usuárias do tratamento”, disse Richard Peto, professor de estatística e epidemiologia da Universidade de Oxford.

A comentarista independente Anne Gombel, professora francesa e membra da Sociedade Internacional da Menopausa, afirmou que emerge um panorama mais complexo sobre o câncer de mama. “A densidade dos seios, o álcool e a obesidade, e não apenas a TRH, agora emergem como fatores de risco que devem ser levados em conta, e não apenas a TRH”, diz. “A TRH não traz os mesmos riscos e benefícios para todas as mulheres. Algumas terão riscos aumentados, outras terão só benefícios, e isto também se aplica ao câncer de mama.”