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Estados Unidos testam transplante de rim de porco em paciente humano

Inédito, o procedimento abre boas perspectivas para a criação de órgãos em animais que possam ser transplantados sem causar rejeição

Por Simone Blanes Atualizado em 20 out 2021, 14h09 - Publicado em 20 out 2021, 14h08

Pela primeira vez, um rim de porco foi ligado a um ser humano com sucesso, funcionando e sem causar rejeição imediata pelo sistema imunológico do paciente. O procedimento foi feito no Langone Health, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos. É mm feito inédito e com potencial enorme, que pode ajudar a melhorar o problema de escassez de órgãos humanos para transplante. “Foi até melhor do que que esperávamos”, declarou o cirurgião Robert Montgomery, principal autor do estudo, ao jornal The New York Times. “Parecia qualquer transplante que já fiz de um doador vivo. Muitos rins de pessoas falecidas não respondem imediatamente e levam dias ou semanas para começar a operar. Esse funcionou imediatamente”, acrescentou.

O experimento envolveu o uso de um rim crescido em um porco cujos genes foram alterados para que seus tecidos não causassem rejeição em humanos.  O receptor foi uma paciente com morte cerebral e sinais de disfunção renal cuja família consentiu na realização do experimento antes que ela fosse retirada dos equipamentos de suporte à vida. Durante três dias, o novo rim ficou conectado às suas veias e artérias, do lado de fora de seu corpo, na altura do abdome.

Segundo o cirurgião americano, o rim produziu “uma quantidade de urina esperada” de um rim humano transplantado e não houve evidências da rejeição intensa e quase imediata já vista em rins suínos não modificados e transplantados em primatas não humanos. Ele também reiterou que pelo fato de o órgão funcionar fora do corpo, é um forte sinal de que também o fará dentro dele.

Há décadas que cientistas, inclusive brasileiros, trabalham com essa possibilidade de usar órgãos de animais para transplantes, só não sabiam como evitar a rejeição imediata do corpo humano. De acordo com Montgomery, era preciso eliminar do gene suíno uma molécula de açúcar chamada alfa-gal, que desencadeia a rejeição. Esse transplante experimental deve abrir as portas para testes em pacientes com insuficiência renal em estágio terminal. “Possivelmente no próximo ano ou em dois”, afirmou o médico. A ideia é que esses ensaios clínicos testem a abordagem como uma solução de curto prazo para pacientes críticos até que um rim humano esteja disponível – ou mesmo como um transplante permanente. “Esse experimento envolveu um único procedimento e o rim foi deixado por apenas três dias. Nos testes futuros, provavelmente iremos descobrir novas barreiras a serem superadas”, disse Montgomery. Para as próximas experiências, os participantes provavelmente serão pacientes com baixa probabilidade de receber um rim humano ou um prognóstico ruim em diálise. “Para muitas dessas pessoas, a taxa de mortalidade é tão alta quanto para alguns tipos de câncer. E se isso pode dar a elas alguns meses a mais de vida, não pensamos duas vezes antes de usar novos medicamentos e fazer novos testes”, declarou o médico, que ressaltou ainda levar em consideração toda a ética médica, jurídica e religiosa antes de pedir a uma família acesso temporário a um paciente com morte cerebral.

O porco geneticamente modificado, apelidado de GalSafe, foi criado pela United Therapeutics Corporation, uma subsidiária de empresa americana de biotecnologia e aprovado pela Food and Drugs Administration (FDA), órgão regulador dos Estados Unidos, em dezembro de 2020, para uso como alimento para pessoas com alergia a carne e como uma fonte potencial de tratamento humano. “Mesmo assim, produtos médicos desenvolvidos a partir desses animais ainda precisam de uma aprovação específica antes de serem usados em humanos”, declarou a agência regulatória. Enquanto isso, outros pesquisadores já consideram se esses porcos GalSafe podem ser fontes de outros órgãos para transplante como válvulas cardíacas a enxertos de pele para humanos.

 

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