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Caminhos errados

Tendência de não se vacinar vinha sendo notada havia algum tempo, mas explodiu em 2018

Na saúde, não há espaço para “nós” contra “eles”. Ou não deveria haver. A hesitação e a crença em teorias sem base científica podem fazer a diferença entre viver e morrer. Vacinas, por exemplo: tomá-las é proteger-se contra doenças, não tomá-las é ficar sujeito a elas. A escolha é simples. No entanto, 2018 foi o ano em que os brasileiros relaxaram na vacinação. A tendência vinha sendo notada havia algum tempo, mas agora explodiu. Na campanha da “gotinha” contra a poliomielite, enfermidade grave erradicada do Brasil há mais de vinte anos, o comparecimento caiu. Entre 2015 e 2017, a vacinação foi de 98,3% para 79,5% — um desastre. Uma das razões para a ausência é precisamente o enorme sucesso das campanhas de vacinação: há tanto tempo não se ouve falar de crianças com pólio ou varíola que a preocupação está deixando de existir.

Isso tanto é verdade que, quando a preocupação volta, voltam também as filas quilométricas nos postos de vacinação. Foi o que aconteceu com o fantasma da febre amarela, que ressurgiu no Sul e no Sudeste a bordo dos mosquitos Haemagogus e Sabethes, circulantes apenas em matas, e levou famílias inteiras a atravessar a madrugada na calçada, em São Paulo e no Rio de Janeiro, à espera de uma dose de proteção contra o vírus, que se alastrou rapidamente. Em São Paulo, o Zoológico, o Jardim Botânico e outros parques e reservas fecharam devido a mortes suspeitas de macacos, o primeiro indício da presença da doença. De 1º de janeiro a 8 de novembro, foram registrados 1 311 casos e 450 mortes no Brasil em decorrência da febre amarela, quase o dobro do verificado no mesmo período de 2017.

CONTRA – Não à vacinação obrigatória: na Itália, no ano passado, pais protestaram contra a nova legislação

CONTRA – Não à vacinação obrigatória: na Itália, no ano passado, pais protestaram contra a nova legislação (Alessandra Tarantino/AP)

No avesso da imunização em massa houve uma tomada de posição importada dos Estados Unidos e da Europa: a convicção infundada de que vacinas fazem mal. Essa balela sempre existiu, mas agora as redes sociais têm se encarregado de propagá-la por todos os cantos do planeta, criando situações impensáveis até pouco tempo atrás. Na Itália, pais chegaram a ir às ruas em 2017 protestar contra a legislação que introduziu a obrigatoriedade de imunização das crianças. A atual ministra da Saúde, Giulia Grillo, do direitista Movimento Cinco Estrelas, que assumiu o governo neste ano, já deu indícios de que apoia uma revisão da lei. No Brasil, a vacina contra a febre amarela foi um dos alvos da campanha de descrédito. O índice de segurança dela é de 95%. As estatísticas mostram que apenas uma em cada 400 000 pessoas imunizadas sofre alguma reação grave, como hemorragia e falência hepática ou renal. No entanto, enquanto as filas se estendiam nos postos, uma parcela da população, por medo de adoecer, insistia em fugir dessa que é a principal proteção contra a doença.

O foco mais estridente da epidemia antivacina parte dos Estados Unidos, onde até o presidente Donald Trump já avalizou uma das bobagens mais repetidas: a relação da imunização com o autismo. É uma bobagem com autor conhecido: o médico inglês Andrew Wakefield, que há vinte anos publicou um artigo na revista científica The Lancet no qual associou a vacina tríplice (contra caxumba, rubéola e sarampo) a um risco aumentado de autismo. No estudo, Wakefield dizia ter acompanhado doze crianças que desenvolveram a doença depois de tomar a tríplice. Ele sonegou duas informações decisivas: já havia indícios de autismo nas crianças antes da imunização e o médico tinha interesse em desacreditar a vacina porque preparava um processo contra um fabricante. Foi desmascarado, acusado de fraudador e antiético e teve o registro profissional cassado — mas sua estultice continua circulando por aí.

O medo de vacinas e os protestos contra sua obrigatoriedade fazem parte da história. No Brasil, a população do Rio de Janeiro promoveu violentas manifestações no início do século XX — episódio que ficou conhecido como Revolta da Vacina — ao reagir contra a obrigação de se imunizar contra a varíola, que assolava a cidade de tempos em tempos. A campanha, montada pelo sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), foi em frente — e livrou a cidade da doença.

PASSADO – A Revolta da Vacina: moradores do Rio de Janeiro protestam contra a obrigatoriedade da imunização antivaríola

PASSADO – A Revolta da Vacina: moradores do Rio de Janeiro protestam contra a obrigatoriedade da imunização antivaríola (Biblioteca Nacional/Arquivo/.)

O argumento de que as leis compulsórias de vacinação ferem as liberdades individuais tem base jurídica e é utilizado, muitas vezes com sucesso, sobretudo no caso de restrições religiosas. O problema é um conflito entre individualidade e coletividade: a criança que não toma a vacina está expondo a risco outras crianças. Em outras palavras: na vida civilizada, o bem comum tem de se sobrepor ao individual. Para que a imunização tenha efeito, é necessário que mais de 95% das pessoas de uma comunidade estejam vacinadas. “Dizer ‘não’ é um direito, mas, se afeta a saúde pública, esse direito deixa de ser inalienável”, afirma o infectologista Artur Timerman, presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses. Às vezes, basta um caso para arruinar um esforço de décadas. Em fevereiro, em Boa Vista, capital de Roraima, um bebê da Venezuela chegou à cidade com sarampo. Se todos estivessem vacinados, isso não seria problema. Mas, como a cobertura tem sido falha, aconteceu o pior: em novembro já se contavam 9 000 novos casos de sarampo no país. O árduo trabalho que erradicou a doença no Brasil há três anos estava destruído.

Mas nenhum espetáculo de polarização foi tão barulhento quanto a polêmica sobre a presença dos cubanos no programa Mais Médicos, criado pelo governo do PT. Os primeiros desembarcaram no Brasil em 2013, e, com o tempo, o contingente bateu em 8 332. O presidente eleito Jair Bolsonaro nunca gostou do programa — porque os médicos eram de Cuba e o governo de Havana retinha 75% do salário que os profissionais recebiam. Chegou a dizer que eram agentes, espiões e militares disfarçados de médicos. Insultados, os cubanos foram embora (leia artigo neste link). E até hoje o governo ainda não conseguiu repor todas as vagas abertas com a saída dos cubanos. Resultado: alguns milhares de brasileiros humildes estão sem atendimento médico.

PRESENTE – Surto de sarampo entre refugiados venezuelanos em Boa Vista: erradicada há três anos, a doença voltou

PRESENTE – Surto de sarampo entre refugiados venezuelanos em Boa Vista: erradicada há três anos, a doença voltou (Antonio Milena/VEJA)

Também houve outro paradoxo na área da saúde que, ao contrário do que ocorreu com os cubanos, não fez barulho algum. Tristemente, num país tão desigual como o Brasil, soube-se que o investimento no setor privado vem crescendo mais do que no setor público. Entre 2009 e 2017, o aporte de verbas aos hospitais particulares saltou de 254 bilhões para 375 bilhões de reais, um aumento de 47%. No mesmo período, os investimentos no SUS, o sistema público de saúde, subiram só 31%. No mundo ideal, deveria ser o contrário. O SUS, que em 2018 completou trinta anos, atende 150 milhões de pessoas. E esse contingente deve crescer. Nos últimos dois anos, em decorrência da crise econômica, 2,5 milhões de brasileiros ficaram sem o convênio médico privado.

A crise teve impacto generalizado na área da saúde. Entre 2010 e 2015, o Brasil perdeu 23 600 leitos destinados a internações por mais de 24 horas. Não há fórmulas mágicas, infelizmente — e essa é uma lição para 2019. Diz Henrique Prata, presidente de seis hospitais especializados em câncer no país que atendem gratuitamente e cuja sobrevivência depende na maior parte da filantropia: “Os médicos da medicina privada são como doutores do rei”. A frase ilumina uma distorção: os profissionais mais influentes veem só o privado, quando deveriam enxergar o público.

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614