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Ansiedade: problema está na sua cabeça ou na do médico?

Desde sua implantação, em 1952, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, produzido pela Associação Americana de Psiquiatria, tem adicionado novas doenças mentais a cada edição

Por Vivian Carrer Elias 15 out 2012, 07h27

“O DSM não mede a gravidade dos sintomas de uma forma específica. Essa forma de diagnóstico é muito pobre, não traduz a riqueza que é a personalidade de uma pessoa e aumenta o risco de um diagnóstico errado”, Fábio Gomes, médico psiquiatra, professor da Universidade Federal do Ceará e doutor pela Universidade de Edimburgo, na Grã-Bretanha

Metade das pessoas tem ou terá em algum momento da vida o que a psiquiatria considera como um transtorno de ansiedade – um conjunto de distúrbios divididos em síndromes do pânico, fobias, transtorno obsessivo compulsivo (TOC), stress pós-traumático e transtorno de ansiedade generalizado. Essa incidência é quase vinte vezes maior do que há três décadas, um aumento expressivo, para não dizer espantoso, que desencadeou uma série de discussões em torno dos critérios atuais para as doenças mentais.

Ainda é difícil dizer se a medicina está identificando condições que passavam despercebidas no passado, se comportamentos naturais do homem estão sendo classificados como transtornos ou então se a sociedade moderna realmente está provocando uma epidemia de distúrbios mentais. O fato é que, para o bem ou para o mal, critérios de diagnóstico estão em constante revisão – e com essas atualizações, a prevalência dos transtornos aumenta.

Alguns críticos desse excesso de diagnósticos observado nos últimos anos apontam um vilão. O culpado, para eles, seria o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, sigla em inglês), considerad a ‘bíblia da psiquiatria’. Nele estão listadas todas as categorias do que a Academia Americana de Psiquiatria (APA, sigla em inglês) considera como doenças mentais, os critérios para diagnóstico de cada uma e também dados epidemiológicos dos transtornos. A primeira edição do documento, o DSM-I, foi publicada no ano de 1952 e a próxima versão revisada do manual, que será o DSM-V, tem previsão de publicação para 2013. A cada edição, cresce o número de diagnósticos listados. Para se ter uma ideia, o DSM-III, publicado em 1980, continha 265 diagnósticos, contra 182 da edição anterior, de 1968.

Os critérios revisados pelo DSM-III, publicado em 1980, revelaram que entre 2% e 4% dos americanos tinham algum distúrbio de ansiedade. Um levantamento feito pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, sigla em singlês) em 1998, quatro anos após a publicação do DSM-IV, mostrou que 10% da população apresentou algum transtorno de ansiedade em um período de um ano e 15%, em algum momento da vida. Em 2005, esses números, segundo outra pesquisa tão rigorosa quanto as outras, o National Comorbidity Study Replication (NCS-R), passaram para 20% e 28,8%, respectivamente. Um dos últimos estudos representativos, desenvolvido na Nova Zelândia, acompanhou participantes por 14 anos, dos 18 aos 32 anos. Nesse período, 22.8% deles tiveram ansiedade em um dos anos e 49.5% em algum momento desses anos todos.

Diagnóstico impreciso- Além da prevalência de transtornos de ansiedade coincidir com a atualização dos critérios de diagnóstico, há outro fator que pode ajudar a explicar como os manuais, em especial o DSM, ampliam a identificação desses distúrbios. O método de diagnóstico do manual é sistemático: um transtorno mental pode ser identificado levando em consideração o tempo de duração e a quantidade de sintomas. Se um indivíduo corresponder a esses critérios, o DSM declara que ele possui algum distúrbio mental.

“O DSM não mede a gravidade dos sintomas de uma forma específica. Essa forma de diagnóstico é muito pobre, não traduz a riqueza que é a personalidade de uma pessoa e aumenta o risco de um diagnóstico errado”, afirmou ao site de VEJA Fábio Gomes, médico psiquiatra, professor da Universidade Federal do Ceará e doutor pela Universidade de Edimburgo, na Grã-Bretanha. “Por exemplo, um paciente que apresenta fadiga, desmotivação, não quer sair de casa e nem ir trabalhar não necessariamente está com depressão, mesmo tendo um conjunto de sintomas relacionados ao problema. Pode ser, por exemplo, caso de hipotireoidismo.”

Para Gomes, o DSM multiplicou os diagnósticos de transtornos mentais e a e quinta edição do manual não deverá mudar muita coisa no paradigma dos diagnósticos de transtornos de ansiedade. “Os critérios de diagnóstico são discutidos exaustivamente pela classe médica. Sabemos que ele não é perfeito e continuaremos andando em circulo se insistirmos nesse modelo de diagnosticar um distúrbio com base em tempo e quantidade de sintomas. Ainda estamos longe de um método de diagnóstico válido”, disse.

Revisões – Gomes representa muitos médicos quando afirma acreditar que a melhoria no diagnóstico de transtornos mentais esteja não na revisão do DSM, mas na publicação da atualização de outro manual do tipo, esse desenvolvido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH, sigla em inglês), o Research Domain Criteria (RDoC), que também deverá acontecer em 2013. Esse documento, diferente do DSM, busca traçar, por meio do estudo genético, a fisiopatologia dos transtornos mentais, ou seja, os fatores que desencadeiam esses distúrbios – e não os sintomas que aparecem uma vez que ele atinge um paciente. “Acho que vamos avançar quando entendermos que as novas descobertas da genética podem entrar no território do diagnóstico psiquiátrico.”

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