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Um tempinho a mais

ABS quer atrasar em uma hora a entrada dos alunos nas escolas do ensino médio. É uma boa notícia aos adolescentes - e com amparo científico

Por Natalia Cuminale 9 fev 2018, 06h00
Arte/VEJA

Se dormir cedo sempre foi uma dificuldade para qualquer adolescente, hoje em dia, com o smartphone eternamente plugado ao Whats­App, ao Facebook, ao Instagram e ao Snapchat, tornou-se uma impossibilidade prática. O resultado: um jovem zanzando como zumbi na manhã seguinte, atônito, calado, chato, chatíssimo, e sempre atrasado para a primeira aula. O sono matinal, fruto do desleixo na madrugada e da evidente preguiça ao acordar, é atalho para notas ruins e mau aproveitamento escolar. A novidade é que a Associação Brasileira do Sono (ABS) parece ter uma solução para o problema. Em abril, a ABS proporá ao governo federal atrasar em uma hora — das 7 horas para as 8 horas — a entrada dos alunos nas escolas de ensino médio. Diz Andrea Bacelar, neurologista e presidente da ABS: “Os horários da maioria das escolas brasileiras restringem o sono dos estudantes, impactando na saúde e no desempenho acadêmico”. A proposta seguirá o exemplo bem-sucedido dos Estados Unidos, fruto de amplos estudos promovidos pela Academia Americana de Medicina do Sono e pela Associação Americana de Pediatria. Os sessenta mi­nutos a mais começaram a ser aplicados no fim dos anos 90 e hoje se espalham em 45 estados. Os americanos autorizados a ficar na cama mais um pouquinho melhoraram o rendimento e ficaram menos doentes.

Os adolescentes devem dormir nove horas por noite — mais do que todas as faixas etárias posteriores (veja o quadro ao lado). Não é o que acontece. Um estudo recente publicado pelo Centro de Controle de Doenças, nos Estados Unidos, mostra que sete em cada dez adolescentes americanos dormem menos que oito horas por dia. No Brasil, o quadro também é ruim — apenas um terço dos 16 milhões de adolescentes brasileiros dorme o necessário. O sono tem função crucial na adolescência. “Cada minuto de sono importa”, resumiu a VEJA o psiquiatra Mathias Basner, da Universidade da Pensilvânia, um dos maiores especialistas do assunto no mundo. Nessa fase da vida, dá-se o fortalecimento de regiões cerebrais, sobretudo aquelas associadas aos mecanismos de aprendizagem, solução de problemas complexos e autocontrole. Se o adolescente não dorme o suficiente, corre o risco de ter a maturação dessas áreas afetada. No cotidiano da sala de aula, as matérias mais prejudicadas são as da área de exatas.

A falta crônica de sono (que significa dormir seis horas ou menos ao longo de um mês, no mínimo) aumenta a liberação de cortisol, o hormônio do stress. Com isso, eleva-se o risco de oscilações bruscas de humor, depressão e transtornos de ansiedade. É também durante o sono que o corpo aumenta a liberação de GH, o hormônio do crescimento ósseo e muscular. O risco de obesidade é igualmente maior nos jovens que dormem pouco, pois os hormônios relacionados ao ciclo de fome e saciedade, como a grelina e a leptina, são produzidos durante a noite. A vigília provoca desequilíbrio no metabolismo, levando ao inevitável ganho de peso.

Todos esses argumentos podem ser usados pelos pais para tentar o impossível: convencer os filhos a fechar os olhos e virar de lado. Para os filhos, há uma explicação científica muito convincente para não dormirem no mesmo horário que os adultos: no organismo jovem, a produção de melatonina, o hormônio do sono, se dá entre uma e duas horas depois em relação ao mecanismo dos mais velhos. O relógio biológico interno, portanto, é atrasado, tornando mais difícil adormecer antes das 11 da noite. A ideia é que, adiando a hora de ir à escola, esse déficit de sono acabe sendo corrigido.

Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569

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