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Ué!?

Coluna publicada em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

Por Roberto Pompeu de Toledo - 23 mar 2018, 06h00

O lado bom do crime da noite de 14 de março, se é que pode haver lado bom num crime, foi revelar ao país a figura de Marielle Franco. O lado bom de revelar a figura de Marielle Franco foi revelar, em acréscimo, que algo se move no subsolo pedregoso da sociedade brasileira. “Ué!?”, disse Marielle, ao se dar conta do avanço de outro carro em direção ao seu, segundo contou a assessora que viajava com ela e sobreviveu. “Ai”, disse em seguida o motorista Anderson Gomes. A monumental barbárie acabou com sussurros de duas letras. “Ué!?”, reverberaria nas horas seguintes a sociedade brasileira. Então existia uma Marielle Franco? E como pode ter existido uma Marielle Franco? O “ué!?” de estranheza atingiu por igual os dois lados da sociedade partida em que vivemos, tanto a parte solidária com a vereadora e o motorista, e disposta a ir às ruas para alardear sua indignação, quanto a que estranhou tanta comoção, e no limite tomou formas abjetas.

Ex-favelada, negra, bissexual, e no entanto abertamente ex-favelada, abertamente negra, abertamente bissexual. Como podia se sentir tão à vontade nessas condições, tão exposta e solar, com um lindo sorriso no rosto e uma faixa ao gosto africano a segurar o cabelo empinado para o alto? O atacante Ronaldo Fenômeno, indagado quando jogava na Europa sobre o racismo das torcidas, respondeu: “Acho que todos os negros sofrem. Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância”. Ronaldo considerava-se branco, mas raspava o “cabelo ruim”. Mais maduro, ele repudiaria a reação de juventude, mas naquela época não fazia mais do que seguir o imperativo de ter vergonha do sangue negro. Era assim, ué!

No capítulo LXX de Dom Casmurro, Bentinho encontra na rua Sancha e seu pai, Gurgel, e é convidado a almoçar na casa deles. “Obrigado; mamãe espera-me”, diz. Gurgel resolve a questão: “Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais tarde”. No capítulo seguinte, Escobar vai visitar Bentinho e é convidado a ficar para o jantar. Alega que não, esperam-no em casa, e Bentinho, lembrando-se do Gurgel, lança mão do mesmo expediente: “Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois”. Uma janela para a intimidade das famílias ao tempo da escravidão nos é aberta pelo gênio de Machado de Assis. Manda-se “um preto”, ué, e os problemas se resolvem. Marielle foi assassinada quando voltava de um lugar chamado Casa das Pretas. Nem o mais elegante “Casa das Negras” ostentava no nome, era “pretas” mesmo. Ela se expunha escrachadamente preta; o escracho servia-lhe de denúncia e afirmação.

O primeiro sinal de que algo se move na sociedade brasileira é a própria Marielle, eleita vereadora em 2016 com a quinta maior votação do Rio de Janeiro. Sua carreira tanto prometia que ela já era cotada para vice na chapa do Psol para o governo do estado. O segundo sinal é ter podido contar com o milagroso mecanismo da educação para realizar suas aspirações de ampliação dos horizontes sociais e culturais. Ela se dizia produto do curso pré-vestibular do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (Ceasm). O cursinho permitiu-lhe ingressar na PUC, como bolsista, e formar-se em ciências sociais. O terceiro sinal é a constatação de que cursinhos semelhantes se espalham pelas favelas e bairros pobres do Brasil. No da favela da Maré, procura-se harmonizar o acesso a novos horizontes ao comprometimento com o local e com a memória das origens. Como explica Elionalva Sousa Silva, também nascida na Maré, numa tese sobre o cursinho, o Ceasm tem foco na formação do “cidadão mareense”, de modo a reforçar-lhe “o pertencimento ao bairro”. O processo de conquista da cidade em que avançava Marielle caminhava em paralelo à sua reiterada identificação com as raízes.

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O quarto sinal de que algo se move na sociedade brasileira é a comoção em torno do crime. Mulher, negra, de origem na favela e, não bastasse, bissexual, não galvanizaria, até pouco tempo atrás, tamanha onda de protesto e de desejo de justiça e mudança. Tão forte foi o movimento a abraçar a figura de Marielle que provocou reação contrária. Alguns terão se sentido incomodados porque ela era de esquerda; os bolsonaristas, porque além de ser de esquerda defendia os direitos humanos. Argumentou-se, nas famigeradas redes sociais, que se fosse branca e heterossexual não mereceria tamanha solidariedade; equivale a dizer que, sendo negra e bissexual, não o merece. A muitos terá incomodado lá no íntimo a petulância de uma negra que sabia o seu lugar — sendo esse lugar o oposto daquele antes considerado o das negras pela boa ordem das coisas.

Publicado em VEJA de 28 de março de 2018, edição nº 2575

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