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Trema (e ria): ele está de volta

Sob comando de Shane Black, roteirista de 'Máquina Mortífera', o Predador retorna a um planeta (ou ao menos a um cinema) dominado pela ultraviolência cômica

Nos cinemas, foi sangrento o verão americano de 1987: em junho, o diretor John McTiernan conduziu um massacre nas telas com seu Predador, sobre um caçador implacável vindo do espaço — e só foi superado porque, no mês seguinte, estreou a carnificina ainda mais feroz do RoboCop de Paul Verhoeven. Desde então, dadas as numerosas continuações e refeituras dos dois filmes, dissiparam-se tanto o conteúdo político de ambos, com suas visões opostas do jingoísmo da era Reagan, quanto seu impacto; hoje, qualquer episódio de Game of Thrones oferece quantidades comparáveis de corpos esquartejados e esfolados. O que não se perdeu foi o apelo dos personagens. Com seu torso maciço e aquelas trancinhas rastafári, ou dread­locks, o Predador é um desses acertos extraordinários do design (a cargo do genial Stan Winston, a quem se deve também o visual do Exterminador do Futuro e dos dinossauros de Jurassic Park). Aproveitar-se desse capital, então, é a primeira missão de O Predador (The Predator, Estados Unidos, 2018), já em cartaz no país. A segunda é reformular o timbre da série, levando-a para o terreno da ultraviolência cômica. E, aí, é fundamental a assinatura de Shane Black, de Beijos e Tiros e Dois Caras Legais, como diretor e corroteirista.

Como ator, Black foi a primeira vítima do Predador, em 1987; como roteirista, reinventou o filme de dupla, no estilo uma morte, uma piada (ou vice-­versa), com Máquina Mortífera. Trata-­se de um currículo singular, de que ele tira partido com absoluta autoconfiança. Boyd Holbrook, de Narcos, é o soldado da pá virada que topa com o caçador alienígena durante uma emboscada. Sterling K. Brown, da série This Is Us, é o agente de inteligência que tenta desacreditá-lo mandando-o para o ma­nicômio — e assim dando a ele, sem querer, toda uma unidade de soldados verdadeiramente desequilibrados. A canastrice proposital impera; as piadas voam ainda mais rápido do que as balas; e as eviscerações, decapitações e mutilações são insanas. Ou, neste caso, insanamente divertidas.

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600