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Safra em chamas

Em 2016, o clima na Europa fez derrubar a produção mundial de vinhos ao menor volume em mais de meio século. Agora, há outra ameaça: os incêndios

No ciclo de desenvolvimento das uvas viníferas, o ideal é que as estações sejam bem definidas e de preferência da seguinte maneira: frio no início do crescimento dos frutos, chuvas espaçadas no meio e calor no final. Mudanças inesperadas, como geadas ou chuvas torrenciais fora de época, podem afetar o amadurecimento adequado, resultando em um vinho de pior qualidade e reduzindo o volume produzido. Foi o que ocorreu no ano passado em algumas das principais regiões produtoras da Europa. De acordo com estimativas divulgadas em 24 de outubro pela Organização Internacional de Vinhas e Vinhos (OIV), houve uma severa quebra de safra causada pelo clima, e o volume da oferta mundial diminuirá em 8%. Serão quase 3 bilhões de garrafas a menos sendo vendidas no mercado neste ano, o que representa a menor oferta desde 1961.

Os países mais afetados foram os três principais produtores. Uma onda de extremo calor no verão italiano castigou desde a região da Toscana, mais ao norte, até a Sicília, ao sul. A safra de 2017 da Itália, o país número 1 na produção de vinhos, caiu 23%. A França amargou uma queda de 19% no volume produzido, devido a geadas tardias na primavera. A Espanha sofreu uma combinação de ambos os efeitos: calor excessivo no verão e frio na primavera, o que levou a uma queda de 15%. Há agora uma grande preocupação em relação à safra de 2018. No início do mês, incêndios na região norte do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, destruíram milhares de hectares de vinhedos. Foram registrados incêndios também em áreas produtoras na Espanha, em Portugal e na Austrália.

Em meio a essa crise toda, os vinhos de qualidade superior da Europa tendem a ficar mais caros quando chegarem às prateleiras. Para os amantes da bebida, a dica será recorrer aos produtores de regiões menos afetadas ou que tiveram um ano favorável em 2016. Enquanto o clima prejudicou a Europa Ocidental, ele foi benéfico às videiras do Leste Europeu, da América Latina e da Oceania. Os mais patriotas (e os mais sensíveis aos preços) podem dar uma chance ao vinho nacional. Apesar de ser apenas o 14º produtor mundial, o Brasil registrou um forte avanço na última safra. O crescimento ocorreu graças às boas condições na Região Sul, onde está a grande produção brasileira.

“A tendência de chegada de vinhos mais caros da Europa vai aumentar a competitividade do produto nacional”, diz Dirceu Scottá, presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin). Trata-se de uma boa notícia para os produtores locais. Para os consumidores brasileiros que apreciam as castas europeias, no entanto, serão tempos de escassez e dor no bolso.

Publicado em VEJA de 1º de novembro de 2017, edição nº 2554