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Rapé de hipster

Hábito de cheirar cacau em pó em festas para dar “barato” cresce entre jovens europeus e americanos. Embora liberado, o consumo pode fazer mal ao organismo

No auge da festa, um jovem de seus 20 e poucos anos tira um pacotinho da bolsa e espalha um pó marrom-escuro sobre o balcão do bar lotado. Debruça-se sobre a substância e a inala com força. Volta para a pista pleno de energia e felicidade, efeito que dura meia hora, talvez um pouco mais. A cena se tornou comum nas raves, as festas eletrônicas que varam a madrugada, na Europa e nos Estados Unidos. O que se anda cheirando é o cacau em pó, em busca do “barato”. O efeito é real, atestam os consumidores. No Brasil, o movimento ainda é incipiente.

O fruto moído desencadeia uma onda de substâncias na corrente sanguínea, aumentando a sensação de euforia e bem-estar. Esses efeitos são atribuídos principalmente a dois compostos químicos. O mais abundante deles é a teobromina, que tem ação semelhante à da cafeína, substância com propriedade psicoativa. É ela que confere o estado excitatório. Isso ocorre porque é um vasodilatador, e faz acelerar o fluxo sanguíneo. O segundo composto poderoso é a feniletilamina, que estimula o cérebro a produzir endorfina, também associada à sensação de prazer. Os usuários celebram os resultados do pó de cacau, a principal matéria-prima do chocolate, e glorificam o fato de ser um alimento natural, encontrado em qualquer supermercado e vendido livremente — não seria, portanto, uma droga ilegal. De fato não é, mas os danos podem ser relevantes e merecem olhar cuidadoso.

A teobromina, por ser vasodilatadora, pode provocar queda da pressão arterial. A feniletilamina, estimulante, pode estar associada ao aumento do risco de transtornos de ansiedade. O consumo pelo nariz potencializa os efeitos ruins. “A inalação elimina o processo digestivo e faz com que o pó do cacau caia diretamente na corrente sanguínea”, diz Andrea Pereira, nutróloga do Departamento de Obesidade e Cirurgia Bariátrica da Universidade Federal de São Paulo. Além disso, pode danificar as membranas mucosas, responsáveis por reter bactérias e partículas prejudiciais que chegam às narinas. As consequências vão desde irritação até a redução da capacidade olfativa.

William Lamb, 2nd Viscount Melbourne (1779-1848), British Prime Minister, taking a last pinch of snuff. His administration fell in August 1841. Cartoon from ''Punch'', London, 1841. Photo by: (Universal History Archive/UIG via Getty images) SÉCULO XIX – O tabaco em pó (rapé) era símbolo de aristocracia e elegância

SÉCULO XIX – O tabaco em pó (rapé) era símbolo de aristocracia e elegância (Universal History Archive/UIG/Getty Images)

À moda hipster, que valoriza peças vintage, com um pé romântico no passado, a prática estimulou o lançamento de produtos e modalidades de consumo. Há os que inalam misturas com ervas. O invento mais insólito é um dispositivo para facilitar a aspiração do pó de cacau. Com o nome de chocolate shooter (algo como atirador de chocolate), o aparato funciona como uma catapulta. Duas pazinhas com mola arremessam o pó nas narinas. “Começou como uma brincadeira numa festa e hoje virou um sucesso”, disse a VEJA o pai da invenção, o chocolatier belga Dominique Persoone, de 48 anos. A um preço equivalente a 175 reais, o produto tem medidas que permitem que seja levado no bolso. Persoone inspirou-se em um hábito do avô, o de cheirar rapé, o tabaco em pó. De origem indígena, a prática conquistou a nobreza europeia e brasileira no século XIX. No Brasil, o pó era vendido em caixinhas de prata. Cheirar rapé trazia um efeito analgésico prazeroso. O hábito caiu em desuso com a chegada do cigarro.

Publicado em VEJA de 29 de novembro de 2017, edição nº 2558