Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Que tonto!

Coluna publicada em VEJA de 25 de abril de 2018, edição nº 2579

Por Roberto Pompeu de Toledo
Atualizado em 20 abr 2018, 06h00 - Publicado em 20 abr 2018, 06h00

O Solar dos Neves, em São João del-Rei, é o que se pode ter de mais próximo à nobreza em país novo e republicano como o Brasil. O bonito sobrado oitocentista, dando sem recuo para a calçada, caiado de branco e com profusão de janelas pintadas de verde nas molduras, fica no Largo do Rosário, a dois passos da igreja de mesmo nome. No extremo oposto da rua está a Igreja do Carmo e no meio a do Pilar, matriz da cidade. Junto ao Solar dos Neves fica o Solar dos Lustosa, onde viveu, informa a placa, o inventor da cera para dor de dente que leva o nome da família. As igrejas, o casario, as pedras da rua e os vetustos nomes de família compõem um conjunto que embute uma ideia de eternidade. De 1957 até sua morte, em 1985, Tancredo Neves teve no solar do Largo do Rosário a residência onde passava os períodos de recolhimento no torrão natal. Hoje é usado por seu neto Aécio Neves da Cunha.

O presidente que nunca o foi mantinha comportamento pessoal digno da nobreza de sua cidade e do solar familiar. O jornalista Elio Gaspari gosta de lembrar o episódio em que Tancredo se arrepiou ao ouvir de um parceiro, ao sair num grupo: “Vocês vêm comigo, e o resto no outro carro”. Corrigiu-o: “O resto, não. Os demais…”. Para sua sensibilidade, “o resto”, aplicado a seres humanos, era insulto. Imagine-se o que diria se ouvisse as falas do neto no hoje célebre diálogo com Joesley “Friboi” Batista. “Esses vazamentos, essa po… toda é uma ilegalidade. (…) Temos dois caras frágeis pra ca… nessa história, que é o Eunício (Oliveira, presidente do Senado) e o Rodrigo (Maia, presidente da Câmara) (…) O ministro da Justiça é um bos… do ca… (…). Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. (…) Isso vai me dar uma ajuda do ca…”

Tancredo se arrepiou ao ouvir: “O resto vai no outro carro”; e corrigiu: “Resto, não. Os demais”

Nas primeiras linhas tratava-se de estancar a sangria da Lava-Jato. Nas duas últimas combinava-se a entrega dos 2 milhões de reais pedidos ao empresário. Na terça-feira 17, o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncias contra Aécio por obstrução da Justiça e corrupção passiva. Também foram acolhidas as denúncias, por corrupção, contra sua irmã Andréa e contra o primo Fred. Aécio e Andréa eram os netos queridos de Tancredo; os dois cedo se envolveram em política e trabalharam com o avô. Andréa protagonizou, aos 22 anos, um episódio em que desempenhou generoso papel. Chegou tarde para o famoso show de Chico Buarque no Riocentro, em 1981, e viu na entrada um homem ferido que pedia ajuda. Um táxi tinha se recusado a aceitá-lo. Andréa colocou-o em seu carro, todo desnorteado e sangrando, e levou-o ao hospital. O homem seria identificado como o capitão Wilson Machado, um dos dois militares-terroristas que pretendiam levar pânico ao show e acabaram atingindo a si mesmos.

Continua após a publicidade

Aécio, com seus 51 milhões de votos, chegou a estar na bica da Presidência, como o avô. O avô, falhando-lhe a tentativa, saiu sem possibilidade de tentar outra vez, pela razão que se sabe. O neto saiu com cacife que lhe favoreceria a segunda chance em condições vantajosas. Até onde a vista alcança, não a terá. Dissipou-­­a nos descaminhos, pontilhados de um trambique aqui e outro ali, que os políticos vão percorrendo em paralelo à carreira, conforme prova a Operação Lava-Jato. A cronista Cora Rónai, comentando como Sérgio Cabral dissipou a sua, concluiu: “Que bobo!”. Aécio é mais um tonto para a lista.

Do outro lado do Córrego do Lenheiro, que corta São João del-Rei, fica a mais bonita igreja da cidade, a de São Francisco. A fachada, ladeada por torres arredondadas, apresenta entalhes de pedra de Aleijadinho em torno da porta, das janelas “boca de peixe” e do frontão. Nos fundos fica o pequeno e, vá lá, acolhedor cemitério em que estão enterrados, em túmulos gêmeos, de granito negro, Tancredo e a mulher, Risoleta. No de Tancredo está escrito “Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil, 1910-1985”, e logo abaixo: “Terra amada minha, tu terás meus ossos, o que será a última identificação do meu ser com este rincão abençoado. Tancredo Neves”. No de Risoleta aparecem os anos 1917-2003. Não consta que na terça-feira os túmulos se tenham rachado, ao impacto de mortos a se revirar dentro deles. Túmulos são feitos para proteger os habitantes dos ruídos, das vilanias e da estupidez de gente de fora. Melhor assim.
•••
Que é mais Terceiro Mundo, ter ex-presidente preso ou mantê-lo condenado e solto? A França pode vir em nosso socorro. Vamos lá, franceses, prendam o Sarkozy!

Publicado em VEJA de 25 de abril de 2018, edição nº 2579

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.