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Podres poderes

Em apenas doze meses, a Lava-Jato fluminense dinamita estruturas criminosas do PMDB no Executivo, no Tribunal de Contas do Estado e, agora, no Legislativo

Por Thiago Prado 17 nov 2017, 06h00

Um ano depois de prender o ex-­governador Sérgio Cabral e desmantelar o propinoduto do Executivo do Rio de Janeiro e oito meses depois de acusar de corrupção e pôr na cadeia quase todos os conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, o braço fluminense da Lava-Jato alcançou o Legislativo: na terça-feira 14, a Operação Cadeia Velha expôs o balcão de negócios criado na Assembleia do Rio (Alerj) para beneficiar empresários e políticos. Entre os investigados está o deputado estadual Jorge Picciani, cacique do PMDB local há vinte anos. Picciani foi levado a prestar depoimento e, na quinta-feira, entregou-se à polícia após ter a prisão decretada pela Justiça (ainda sujeita a confirmação na Alerj). Dois dias antes, foi preso seu filho do meio, Felipe, de 36 anos, acusado de lavar dinheiro por meio da empresa de agropecuária da família.

Em um relatório de 232 páginas, os procuradores federais sustentam que o bolso de Picciani e de outros dois deputados da cúpula peemedebista, Paulo Melo e Edson Albertassi — alvos de condução coercitiva —, foi regiamente forrado por empresários em troca de benefícios como incentivos fiscais e aprovação de leis. Só no setor de transporte, o trio abocanhou 131,5 milhões de reais em dinheiro vivo num esquema que durou até março deste ano — ou seja, nem a Lava-Jato foi capaz de frear o recolhimento e a distribuição de propinas.

Além de rastrear a circulação de dinheiro vivo ilegal, a principal garantia da hegemonia do PMDB-RJ, o relatório destrincha os meandros do enriquecimento dos Picciani por meio de suas empresas. Nos últimos vinte anos, o patrimônio do deputado cresceu 6 387% graças à Agrobilara, especializada na venda de gado nelore. Ao analisarem os leilões da empresa desde 2003, os investigadores perceberam uma coincidência: fornecedores e prestadores de serviço ao estado compraram bois e embriões da Agrobilara, e por valores acima dos praticados no mercado.

Outra delação premiada que abala as estruturas do PMDB-RJ é a do marqueteiro Renato Pereira, ainda não homologada pelo ministro Ricardo Lewandowski. Nela, há relatos de irregularidades em campanhas do partido desde 2006. Mesmo enroscados no festival de denúncias e operações policiais no Rio nos últimos tempos, os peemedebistas fluminenses ainda executam lances ousados. Nos últimos dias, Picciani e o governador Luiz Fernando Pezão tentaram insistentemente aprovar na Alerj a nomeação irregular do deputado Albertassi para uma vaga no TCE que deveria ser de um auditor concursado. Se conseguissem emplacá-lo, Albertassi, como conselheiro, obteria foro privilegiado, o que empurraria toda a Operação Cadeia Velha para o Superior Tribunal de Justiça, instância na qual processos costumam tramitar de maneira mais lenta. A ação da PF abortou a manobra, mas mostrou que, no Rio, a lama de corrupção ainda escorre por todas as esferas de poder.

Publicado em VEJA de 22 de novembro de 2017, edição nº 2557

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