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Coluna publicada em VEJA de 6 de setembro de 2017, edição nº 2546

— Não precisa ser uma Brastemp. Pode ser uma Consul usada.

Em evento do Instituto Fernand Braudel, em São Paulo, na segunda-­feira 28, o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, externou assim sua angustiada busca por alguém que, em 2018, assuma com autoridade, credibilidade e poder de convencimento a agenda de que o Brasil a seu ver necessita. Seguem os modelos de eletrodoméstico hoje disponíveis no mercado.

Modelo 2002 (o ano da vitória do torneiro mecânico) — Lula não precisa esperar 2018 para repetir a história como farsa. Repete-a desde já, na caravana pelo Nordeste. O famoso caubói Buffalo Bill, depois de cansar de suas caravanas pelo Velho Oeste, montou um circo em que interpretava Buffalo Bill. Lula reencena Lula e, nos momentos mais ousados de seu show — trrrr… apressados repiques no tambor… como quando o trapezista se arrisca sem rede de proteção —, chama ao palco o parceiro Renan Calheiros.

Modelo 1989 (o ano do caçador de marajás) — João Doria Jr. lê no manual de Fernando Collor que achou em arquivos de velhos eventos da Lide: (1) adotar figurino de o novo na política; (2) não temer queimar etapas na carreira; (3) falar grosso, xingar, chamar para a briga os adversários; (4) aproveitar cada oportunidade de marcar presença na mídia; (5) apresentar-se como moderno nas roupas e nos hábitos. Doria acha que o manual ainda tem seu valor. O sorriso congelado copiado do gato de Alice é a marca de Doria como certos esgares se constituíam na marca de Collor.

Modelo 2006 (o ano da derrota do sorvete de chuchu) — Não falta a Geraldo Alckmin o ar de Consul usada. Problema maior: ser uma Consul usada. Ulysses Guimarães, que era bem mais do que ele em autoridade, ousadia, brilho e história, carregava o problema de ser usado, e ficou em sétimo lugar na eleição de 1989 (4,8% dos votos). Acresce que está sendo desrespeitado pela afoiteza de Doria, o pupilo que, posto no colo, lhe deu em troca uma mordida no pescoço.

Modelo 2011 (o Ano Internacional das Florestas) — Marina Silva tem tudo para ser ótima candidata: (1) reputação ilibada; (2) excelentes intenções; (3) cor da pele do povo do Brasil; (4) rosto sofrido de Frida Kahlo. Só falta saber o que pensa e o que pretende, por trás das palavras difíceis e das frases torturadas até o desfalecimento (“O sustentado que agora precisa ser ressignificado para sustentável”; “Essa nova liderança chamo de liderança multicêntrica, para problemas multicêntricos, que seja capaz de fazer tudo e ainda fazer o resto”). Não ajuda procurar o que pensa o seu partido; a Rede ainda não apresentou a soma dos ideais e propósitos de Eduardo Giannetti e Randolfe Rodrigues, Guilherme Leal e Heloísa Helena.

Modelo 2010 (o ano do poste) — Fernando Haddad é tido como o plano B, mas uma prospecção telepática realizada com minucioso esmero na mente de Lula revelou ao colunista que desde logo é o plano A. Por que Lula gastaria o cacife num jogo arriscado como a eleição presidencial se tem na mão uma alternativa com todas as garantias? A alternativa é candidatar-se a deputado. Além da grande votação, com sobras para doar ao PT, levaria de brinde quatro anos de foro privilegiado. Haddad não parece desgostar da promoção de poste municipal a poste federal.

Modelo 1964 (o ano do mau agouro) — As promessas de Bolsonaro são música em ouvidos peludos como os de gorilas: em seu governo não haverá proteção a terras indígenas nem achegos a suscetibilidades fêmeas, homos ou trans. No mesmo evento em São Paulo, Paulo Hartung contou ter estranhado a quantidade de jovens presentes à recepção a Bolsonaro, numa visita a Vitória. Um assessor, examinando a foto da chegada do visitante, esclareceu tratar­-se de alunos recém-admitidos à escola da Polícia Militar. Considere-se em acréscimo a declaração de voto em Bolsonaro pelo comandante da Rota (tropa de elite da PM em São Paulo) e o tratamento de “nosso presidente” dispensado ao candidato por um coronel da PM de Niterói, e a conclusão é: aí tem.

Modelo 2017 (o ano do delírio) — E se André Fufuca, que aos 28 anos acaba de estrear na presidência da Câmara, provar-se a maior revelação dos últimos tempos, capaz de disparar na carreira como míssil? Fufuca é jovem como Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte, e tem as mesmas faces redondas. Se o Brasil escolher a Coreia errada para se espelhar, já terá quem pôr no comando. Jamais esquecer que escolhas erradas são uma especialidade brasileira.

Publicado em VEJA de 6 de setembro de 2017, edição nº 2546