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O jogo das prioridades

É mais fácil lidar com prioridades eletivas do que com as que surgem por acidente, mas nenhuma pode ser desprezada, sob pena de gerar uma contaminação geral

Por Da Redação - 1 mar 2019, 07h00

Um governo só escolhe as prioridades que pode — e é obrigado a lidar com as que o destino reserva. O presidente Jair Bolsonaro, acertadamente, escolheu a reforma da Previdência Social como prioridade política e econômica, e apresentou um projeto ambicioso que agora começa a ser destrinchado. Uma reportagem nesta edição de VEJA (leia aqui) ilumina as reações de apoiadores e de críticos, bem como os pontos mais controvertidos da proposta, separando o que é reivindicação legítima do que é mera gritaria em defesa de privilégios.

Outra prioridade que o governo elegeu é a crise da Venezuela, país sufocado pela mão pesada da ditadura e pela combinação de duas crises brutais — a econômica e a humanitária. O governo de Bolsonaro acertou ao não se omitir diante da questão, pois o vizinho sul-americano tem importância geopolítica vital para o Brasil. No entanto, como mostra reportagem desta edição (leia aqui), as ações do governo, ao associar-se às movimentações dos Estados Unidos, podem pôr em risco a autoridade moral que o Brasil sempre exerceu sobre a região — e a conquistou, justamente, porque a política externa brasileira tem sido, por tradição, tudo, menos impulsiva ou dependente. Nesse cenário, o fundamental é que, tanto no curso quanto no desfecho da crise venezuelana, o governo brasileiro tenha clareza sobre a posição em que estará no momento em que a democracia voltar ao país — horizonte cujo prazo é desconhecido, mas que, felizmente, parece cada vez mais inevitável.

Por fim, a terceira prioridade do governo, também abordada nesta edição de VEJA numa tríade de reportagens (que podem ser lidas aqui, aqui e aqui), é o desempenho da equipe ministerial. Trata-se de um exemplo de prioridade que não foi escolhida, mas o destino apresentou. Na semana passada, o trio mais ideológico do governo — Vélez Rodríguez, da Educação; Ernesto Araújo, das Relações Exteriores; e Damares Alves, dos Direitos Humanos — voltou a atrair os holofotes com declarações e ações que, como costuma acontecer, tiram o fôlego de boa parte do eleitorado, inclusive entre os próprios apoiadores do presidente.

O caso mais barulhento, desta vez, foi protagonizado pelo ministro Vélez, o mesmo que comparou o comportamento dos brasileiros em viagem ao exterior ao de “canibais”. Indicado para o posto pelo proselitista conservador Olavo de Carvalho, Vélez ganhou evidência não por ter tomado alguma medida a respeito das brutais deficiências do ensino público, mas por uma lamentável nota às escolas brasileiras, arrematada com a expressão da campanha de Bolsonaro — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

É mais fácil lidar com as prioridades eletivas do que com as que surgem por acidente, mas nenhuma delas pode ser desprezada, sob pena de gerar uma contaminação geral.

Publicado em VEJA de 6 de março de 2019, edição nº 2624

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