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Ela quer mandar mais

Convencida de que precisa trocar o figurino de pastora pelo de ministra, Damares Alves, estrela dos memes, tenta associar-se a pautas menos controversas

Na segunda-feira 25, a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Regina Alves, não parecia uma integrante do governo Bolsonaro. Com a missão de melhorar a imagem internacional do presidente no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça — a mesma ONU que o hoje presidente disse, em campanha, “não servir para nada” —, Damares não fez feio no discurso. Falou no “compromisso inabalável” de proteger os “corajosos defensores dos direitos humanos” e na “agenda prioritária” de combater a discriminação contra afrodescendentes e a comunidade LGBT. Anunciou ainda que o Brasil iria disputar mais um mandato no conselho.

Vélez Rodríguez e Ernesto Araújo são até mais santimoniosos na pregação de seus programas políticos, mas Damares consagrou-se como a figura mais folclórica do núcleo ideológico do governo. Declarações pitorescas sobre a cor apropriada para cada sexo — azul para meninos, rosa para meninas — ou sobre holandeses que estimulam a masturbação de bebês tornaram-na um meme fácil. Ela vem tentando reverter essa imagem com uma agenda livre de controvérsias. Entrou em cena sempre que havia uma posição consensual a defender: foi a Brumadinho propagandear que estava acompanhando as ações de indenização aos atingidos pelo rompimento da barragem; abriu um canal de denúncias sobre más condições em centros de treinamento após o incêndio que matou dez jogadores da base do Flamengo; prometeu ampliar a pena para religiosos abusadores sexuais em coletiva junto com a força–tarefa que prendeu o médium João de Deus; e condenou as violações aos direitos humanos na Venezuela. Em avanço notável, anunciou que agora fala como ministra, não mais como pastora evangélica.

É um esforço saudável para encarnar a postura exigida pela função pública. Damares, no entanto, ganhou o cargo exatamente por seu compromisso com as pautas evangélicas — às quais aludiu discretamente ao defender, na ONU, a proteção à vida “desde a concepção”, fechando a porta para o aborto. Se Araújo e Rodríguez levantam a bandeira do combate ao “marxismo cultural”, Damares defronta-se com outro fantasma, a “ideologia de gênero”. Nesse ponto, representa o pensamento da bancada evangélica, que ajudou a turbinar no Congresso. Enquanto pastores como Silas Malafaia e Marco Feliciano (que também é deputado) assumiam, com alarde, a face pública da política evangélica, Damares fazia o trabalho de formiguinha nos corredores de Brasília. Advogada de formação, ela forneceu o arcabouço jurídico para os projetos de lei propostos pela bancada, entre eles o Estatuto do Nascituro e a Cura Gay. Montou estratégias para barrar projetos contrários às igrejas e ajudou a criar a Frente Parlamentar da Família. Trabalhou no gabinete de oito deputados, nem todos de direita — um deles, inclusive, era do PT —, mas todos evangélicos. Em 2015, mudou-se para o gabinete do então senador Magno Malta. Natural do Paraná mas criada no Nordeste, teve papel importante na campanha de Bolsonaro na região, principalmente depois que o atentado a faca impediu o candidato de viajar. Na reta final da campanha, Damares se aproximou de Michelle Bolsonaro, de quem virou companheira de oração. “Ela foi importantíssima para que a bancada evangélica se convertesse no que é hoje”, diz o ex-deputado Josué Bengtson (PTB-PA), tio da ministra, que contratou a sobrinha como assessora em 1990 — o primeiro emprego dela no Congresso.

 (Baptistão/VEJA)

O trabalho de Damares em organizações religiosas que atuam em tribos indígenas vem passando por escrutínio público, especialmente por causa de sua relação com uma jovem indígena que criou como filha, mas não adotou formalmente. A ministra, porém, tem seu “lugar de fala” — para usar o jargão dos movimentos identitários que não simpatizam com Damares — no que diz respeito à violência contra a mulher: na infância, sofreu abuso sexual de dois pastores. Apesar das posições radicais e de uma vasta coleção de declarações bizarras, Damares, ao contrário dos proselitistas que ocupam as pastas da Educação e das Relações Exteriores, é uma pessoa de diálogo. A primeira reunião que teve como ministra foi com representantes da comunidade LGBT, em dezembro de 2018. “É uma pessoa que eu respeito”, diz o presidente da Aliança Nacional LGBTI, Toni Reis. O militante da causa gay, porém, ainda desconfia das garantias de que o governo não reverterá seus direitos. Casou-se com seu companheiro, com quem estava havia 28 anos, no fim do ano passado. “Eu me preparei para o caso de algum retrocesso.”

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Publicado em VEJA de 6 de março de 2019, edição nº 2624

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