Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Arte? Pense duas vezes

Não pode ser pecado aplaudir a qualidade superior de um tipo de arte que, ao longo dos séculos, produziu as mais sublimes expressões do espírito humano

A cultura não avançou um único milímetro no Brasil em 2017 — coisa mais do que normal, na verdade, quando se leva em conta que temos aqui um Ministério da Cultura, artistas que recebem verba do governo para sobreviver ao desinteresse do público pelas suas obras e uma lei que mistura artes e espetáculos, incluindo exibições de circo, com abatimento do imposto de renda. O que esperar de uma fraude desse tamanho? Os fatos, em todo caso, acabaram chamando a atenção de muita gente para a discussão geral sobre arte que existe no mundo inteiro — mais exatamente a discussão sobre o que é arte e o que não é, ou, mais inquietante ainda, sobre o que é arte boa e o que é arte ruim. Esse debate chegou ao Brasil de 2017, de forma mais visível e barulhenta, com o prodigioso episódio da Queermuseu, uma exibição de artefatos que envolvem a ideia de sexo, e da exposição do Homem Pelado como obra de arte.

Naturalmente, abriu-se espaço para serem ditas as mais espetaculares bobagens — em geral, bobagens ditas com indignação e embrulhadas em “postura política”. A disputa não faz sentido, por estar se tornando um debate ético, político ou sociológico quando não se trata, com certeza, de nada disso. Foram invocados valores morais. Dividiram-se os campos em progressista e reacionário, de “esquerda” e de “direita”. O resumo da ópera, para falar claro, é o seguinte: a arte contemporânea e sem compromisso com os “padrões artísticos tradicionais” é considerada no meio cultural de hoje como sendo popular, criativa e libertadora. A arte clássica é elitista, atrasada e totalitária. Por consequência, criticar uma Queermuseu como algo bobo, inútil ou simplesmente ofensivo não é apenas uma opinião — tornou-se um manifesto do mal.

Criticar uma ‘Queermuseu’ como algo bobo, inútil ou ofensivo não é apenas opinião — tornou-se um manifesto do mal

Deveria, obviamente, haver lugar para tudo. Não pode ser um pecado, certamente, aplaudir a qualidade superior de um tipo de arte que, por consenso da imensa maioria, ao longo dos séculos, produziu maravilhas que estão entre as mais sublimes expressões do espírito humano. Não há nada errado com os critérios regulares de qualidade, técnica e talento que valorizam um quadro ou uma escultura. A arte clássica, além disso, não é uma inimiga da liberdade; inimigos da liberdade são os que querem mandar no pensamento dos outros. Mais que tudo, é preciso admitir que há, sim senhor, convenções em matéria de arte. Se você não gostar delas, paciência — são convenções fortíssimas, que definem o que é beleza, genialidade e excelência numa obra artística, e estão acima de pontos de vista pessoais no assunto. É por causa delas que se considera a Pietà de Michelangelo uma obra de arte superior à estátua do ET de Varginha. É por causa delas que Moça com Brinco de Pérola, de Vermeer, é uma obra-prima da pintura universal e Criança Viada da Queermuseu não é nada.

Isso não quer dizer, certamente, que só os gênios têm o direito de pintar quadros; é necessário, apenas, que não sejam condenados como parte de “um mundo burguês que já morreu”. Que viva em paz, espalhada pelo mundo, toda essa multidão de artistas plásticos que se dedicam com mais ou menos empenho, alegria e honestidade a produzir trabalhos que eventualmente serão expostos e vendidos a alguém — e esse alguém, obviamente, só os comprará por sua livre e espontânea vontade e pelo preço que aceitar pagar. É arte contemporânea, sem dúvida, pois é produzida nos dias de hoje. Se é mesmo arte — bem, aí já depende do julgamento de quem vê a obra ou é informado sobre ela. A maioria acha que não é, ou simplesmente não se interessa pelo assunto. Os demais formam o público que atualmente vai a bienais, museus, galerias, exposições e outros espaços onde são exibidas pinturas, esculturas ou objetos de qualquer natureza, de gaiolas com urubus a juntas de cabeçote. Quem quer vai, quem não quer não vai; na verdade, o grosso do público nem toma conhecimento de que há alguma coisa a ser vista. Qual poderia ser o problema? Nenhum. A única coisa que se pode fazer a respeito disso é a seguinte: nada.

Irritar-se com a arte contemporânea, ou com o conjunto de atividades apresentadas como tal, é uma postura mental sem propósito e, sobretudo, inútil — tanto quanto é estúpido considerar a arte clássica como coisa de “direita”. Mais deformada ainda é a ideia de que deveria ser tomada alguma “providência” a respeito, ou de que se faça alguma “regulamentação” sobre o tema. Estamos aqui, muito simplesmente, no mundo da liberdade de expressão — e a liberdade de expressão, ao contrário do que gostam tanto de propor os seus inimigos disfarçados, não pode ser “aperfeiçoada”. Deve existir, só isso, e ficar naturalmente dentro dos limites da lei — que são poucos, sensatos e perfeitamente conhecidos. Os resultados disso serão bons, ruins ou neutros, de acordo com o julgamento de cada um. Se forem considerados bons, serão transformados num valor. Se forem considerados ruins, vão virar apenas mais um punhado de lixo no oceano de dejetos que o mundo rejeita a cada dia.

É útil acrescentar, também, que a arte contemporânea faz parte do universo do trabalho — e isso, por si só, já lhe faz merecer uma medida de respeito. Muitos dos artistas atuais fazem o melhor que podem, dentro dos limites de seu talento, sua imaginação e suas habilidades. Outros, jamais mencionados ou nem sequer considerados artistas, produzem, a mão ou em escala industrial, os milhões de quadros, esculturas e objetos que estão nas paredes de quartos de hotel, em saguões de prédios de apartamentos ou em edifícios de escritórios, salas de espera de dentistas, restaurantes, bares, lojas, aeroportos, hospitais, delegacias de polícia, até — e mais outros milhões de lugares pelos quatro cantos do mundo. Eles representam, no conjunto, toda a arte que a maioria da população mundial verá do começo ao fim da vida. A eles se somam os artistas que trabalham na infinidade de tarefas estéticas e funcionais geradas pela tecnologia e pelo avanço econômico.

David e a pedra – Michelangelo trabalhou por três… …anos num bloco de mármore. O museu de arte de Los Angeles exibe apenas a rocha, avaliada em 10 milhões de dólares

David e a pedra – Michelangelo trabalhou por três… …anos num bloco de mármore. O museu de arte de Los Angeles exibe apenas a rocha, avaliada em 10 milhões de dólares (Andrea Jemolo/Akg-images e Jonathan Alcorn/Reuters)

Ao lado de todos esses, inevitavelmente, convivem os diletantes para os quais a arte funciona como um círculo social. Outros são aproveitadores mal-intencionados das verbas que o Estado brasileiro, em suas 1 001 maneiras de ser roubado e, ao mesmo tempo, fazer o mal na cultura, distribui “à arte”. Outros, enfim, no Brasil e no resto do mundo, são experientes charlatães que trapaceiam o público, com a cumplicidade de “galeristas” e demais intermediários, criando arte que não existe e traficando sua produção no mercado. Vendem, como obra artística, o equivalente ao elixir universal contra a queda de cabelo ou à ultima relíquia encontrada no Santo Sepulcro. Praticam, apenas, uma modalidade a mais de estelionato. Contam, necessariamente, com a colaboração ativa dos compradores, que pagam bom dinheiro pelos artefatos que adquirem — por ignorância, na crença de estarem comprando “arte moderna legítima”, ou por ganância, achando que a coisa vai se valorizar e pode, no futuro, ser passada adiante com lucro. Há, enfim, os que simplesmente não sabem pintar, nem esculpir, nem desenhar, nem fazer um barquinho de papel, mas se apresentam como artistas. É seu direito.

A cada um, portanto, o seu trabalho, a sua liberdade e as suas circunstâncias. Mas esta não é a postura de grande parte do mundo artístico, no Brasil e nas grandes capitais da cultura internacional, no debate sobre a natureza, a qualidade e os limites da arte em nosso tempo. Há ali todo um esforço feroz para elevar à categoria de “arte”, na qual as obras recebem preço e podem ser vendidas, toneladas de artefatos, “instalações” e bugigangas que não têm valor comercial nenhum, do ponto de vista objetivo — a não ser, talvez, o peso do material usado na sua fabricação. Transformadas em arte, porém, passam a valer dólar. É uma imensa farsa em escala mundial, em que o mandamento principal é inventar gostos artísticos que não existem, por serem artificiais e contrários à natureza. Em seguida se produzem objetos talhados a satisfazer esses desejos pré-­fabricados. Por fim, se tudo dá certo, vende-se uma moldura sem tela, ou um tronco de árvore, ou qualquer coisa, como obra “importante” da vanguarda da arte moderna.

No caminho entre A Primavera de Botticelli e o “grafite” do Zé Mané, promovido a “artista da rua” pela máquina de fabricar estoques para o mercado artístico, perdeu-se um bocado de coisas. “O belo, o inspirador e o profundo foram substituídos pelo novo, pelo diferente e pelo feio”, diz o professor de arte americano Robert Florczak. Ele faz uma comparação interessante. Michelangelo, lembra Florczak, esculpiu o David, com seus 5 metros de altura, trabalhando durante três anos num bloco de rocha de mármore. Hoje, o Museu de Arte Moderna de Los Angeles exibe, como ápice da arte, apenas o bloco de rocha — que nem de mármore é. Mostra bem de onde saímos e aonde chegamos. O pedaço de pedra tem 340 toneladas. É avaliado em 10 milhões de dólares. O público, admirado, junta-se em volta tentando descobrir por que uma coisa daquelas valeria tanto dinheiro. Por que não? Na última Bienal de São Paulo, em 2016, havia uma sala com 4 000 moscas. Era de um artista internacional com nome “no mercado”. Críticos de arte escreveram artigos sobre “a dimensão artística” da obra; ficaram incompreensíveis, é claro.

Não é a estética que está no centro da fraude mundial que se armou em torno da arte contemporânea. Não é o valor artístico segundo padrões racionais, ditados pela disciplina, pelo rigor do desenho e pela habilidade na execução. Não é a definição da excelência pela perícia técnica competente e pelo senso comum. Trata-se de elementos indispensáveis para que a conversa faça sentido; sem padrões estéticos definidos, não há, pura e simplesmente, como determinar qualidade ou inferioridade. Qualidade, numa obra de arte, não é meramente uma opinião particular — é algo que pode ser medido objetivamente. Mas a multidão de interessados em arte, hoje em dia, não está interessada em discutir nada disso. Ao contrário, sustenta na mídia (e desde as escolas de arte) que é uma atitude retrógrada pensar em padrões artísticos de “antigamente” — esses padrões que vêm caindo desde o ocaso dos pintores impressionistas, a ponto de não haver, hoje, padrão nenhum. Tudo o que sobrou foi a “expressão pessoal”: a ideia, cada vez mais triunfante, segundo a qual “tudo pode ser arte” se assim o autor o desejar e o mundo econômico da arte aprovar.

O que mantém em vida e prosperidade essas crenças todas, pelas quais um Rembrandt vale a mesma coisa que uma “performance” qualquer, é o interesse financeiro. Não há mais Rembrandts disponíveis; em compensação, a oferta de “performances” é ilimitada, como a de moscas, borrões de tinta ou cachimbos de crack para montar “instalações”. Por isso, como dito anteriormente, essas coisas todas precisam ser declaradas objetos de arte e, a partir daí, ganhar um valor monetário. É um mundo em que as sentenças sobre o bem e o mal dependem do consórcio de interesses materiais que une marchands, donos de galerias de arte e leiloeiros. Há os curadores de museus, organizadores de exposições e avaliadores de obras. Ganham a vida com isso críticos que escrevem na imprensa, patrocinadores de eventos e executivos de bancos gestores de patrimônio. A eles todos se juntam ONGs, burocratas da cultura, corretores da Lei Rouanet — e, por fim, alguns que têm a função de desempenhar o papel do artista. Esse é o mundo real, que move e sustenta a arte contemporânea. Não é outro. O que vai fazer um curador de museu se não comprar nenhuma obra para o acervo?

Pense duas vezes, portanto, na próxima vez que lhe falarem sobre arte.

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562