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A delicadeza do futebol

Antes de entrar no palco, a bailarina brasileira Bruna Gaglianone registrou a torcida das colegas na disputa de pênaltis do jogo Espanha x Rússia

Por Fábio Altman, de Moscou - 6 jul 2018, 06h00

Na Rússia, o balé é como o futebol. Raymonda, obra que estreou em 1898 no Teatro Mariinsky, de São Petersburgo, é algo comparável à final da Copa de 70 — um clássico. No domingo 1º de julho, a brasileira Bruna Gaglianone, maranhense de 27 anos, uniu esses dois mundos — o dos tutus e sapatilhas e o dos meiões e chuteiras. Integrante do primeiro corpo de baile do Bolshoi, em Moscou, Bruna se preparava para um grande momento: dançar como uma das seis solistas a cena dos sonhos do primeiro ato de Raymonda. Eram 19h30, o espetáculo já havia começado. Naquele exato instante, espanhóis e russos iniciavam a disputa de pênaltis no Estádio Lujniki. Bruna estava entrando no palco quando Iago Aspas, da Espanha, caminhou para a grande área. Era o último a bater. Uma defesa do goleiro Igor Akinfeev levaria a Rússia às quartas de final. As companheiras de Bruna debruçaram-se no chão, diante de um smartphone plugado na tomada. Queriam acompanhar o desfecho do jogo. “Tínhamos TV nos camarins, mas, como já estávamos perto de entrar, ligamos o celular para acompanhar até o último segundo possível”, disse Bruna a VEJA. “Ninguém podia gritar, porque a sessão já estava rolando.” O goleiro Akinfeev defendeu o pênalti. Bruna estava a postos, já vendo a plateia, mas conseguiu registrar as colegas acompanhando o jogo. Deixou o smartphone com uma ajudante de palco e foi para seu grande dia. Depois, postou a cena no Instagram. Fizera talvez a mais bonita imagem da Rússia em 2018, uma versão digital da delicadeza das bailarinas de Degas. Definitivamente, a Copa não é só futebol.

Publicado em VEJA de 11 de julho de 2018, edição nº 2590

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