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Igreja Católica quer recuperar rebanho perdido com recorde de canonizações

Neste domingo, 13, a freira baiana irmã Dulce se tornará a primeira santa nascida no Brasil — processo foi o terceiro mais rápido da história

Por Adriana Dias Lopes - Atualizado em 11 out 2019, 13h35 - Publicado em 11 out 2019, 06h00

“Beatíssimo Pai, a Santa Mãe Igreja pede a Vossa Santidade que inscreva a beata Dulce Pontes no Catálogo dos Santos e como tal seja venerada por todos os fiéis cristãos.” Com essa frase, dita em latim, o cardeal italiano Angelo Becciu, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, inaugurará, no Vaticano, às 10h15 (hora de Roma) do domingo 13, um momento histórico para o catolicismo brasileiro. Em seguida, o papa Francisco dará rápida anuência, oficializando a canonização da baiana Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes (1914-1992), a irmã Dulce, a primeira santa nascida no Brasil. Uma relíquia será levada ao altar — fragmentos do osso da costela da freira, cuidadosamente guardados num tubo transparente, colado numa pedra ametista em formato de coração. A missa, então, celebrará o nascimento de Santa Dulce dos Pobres, o epíteto pelo qual será conhecida. A consagração do “anjo bom da Bahia” terá sido a terceira mais rápida da história, apenas 27 anos depois de sua morte — perde para a santificação de Madre Tereza de Calcutá (dezenove anos após o falecimento da religiosa albanesa) e de João Paulo II (nove anos). A título de comparação, o processo do jesuíta espanhol José de Anchieta, o “apóstolo do Brasil”, vagou mais de 400 anos pelas gavetas da burocracia romana.

Para Francisco, a canonização de domingo, de irmã Dulce e outras quatro pessoas, é um gesto de coerência de seu pontificado, o da celebração da Igreja que se aproxima dos desvalidos — tanto a brasileira quanto a freira italiana Giuseppina Vannini, a indiana Mariam Thresia, a suíça Marguerite Bays e o inglês John Henry Newman, sacerdote anglicano convertido ao catolicismo no fim do século XIX, ostentaram em vida o permanente contato com as vozes humildes. Levá-los aos céus, para a veneração em terra, é uma tentativa de recuperação do rebanho perdido para o avanço das denominações evangélicas. Diz o sociólogo Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC de São Paulo: “Desde o Concílio Vaticano II, nos anos 60, há um esforço da Igreja de mostrar a ideia de que todos podem ser santos”. Francisco leva essa ideia, que alguns consideram populista, ao apogeu.

Não por acaso, o papa argentino é o que mais fez santos (veja o quadro) — são 898 em apenas seis anos de pontificado, incluindo uma canonização coletiva de 813 pessoas no terceiro mês de seu mandato. No documento Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai), de 2018, ele decretou: “Ser pobre no coração — isto é santidade”. Para Geraldo Hackmann, professor de teologia da PUC do Rio Grande do Sul, “do ponto de vista prático, a canonização fortalece a Igreja Católica, aproximando os fiéis”. Outra maneira de fortalecimento proposta por Francisco é a que está em discussão no Sínodo para a Amazônia, que se realiza em Roma até a próxima semana: a ordenação de homens casados, atalho para expandir o alcance da fé católica nos grotões.

DEVOÇÃO – O túmulo da freira, em Salvador: o número de visitantes saltou de 3 000 para 15 000 neste ano

DEVOÇÃO – O túmulo da freira, em Salvador: o número de visitantes saltou de 3 000 para 15 000 neste ano PEDRO SILVEIRA/.

No Brasil, o recente movimento de migração religiosa, de encolhimento do catolicismo, foi acachapante. Nas periferias, sobretudo, os líderes pentecostais se aproveitaram da ausência do Estado e da Igreja Católica para atuar como guias espirituais e promotores do assistencialismo. O Brasil ainda é a maior nação católica do mundo, com 123 milhões de seguidores, mas, mantida a tendência atual, em no máximo trinta anos católicos e evangélicos poderão estar empatados em tamanho na população. Em 1970, 92% dos brasileiros eram católicos — hoje, são 64%. Quem mais cresce são os evangélicos, que, em quase cinquenta anos, saltaram de 5% da população para 22%. “O impacto dessa mudança é grande para a Igreja Católica”, diz José Eustáquio Diniz, demógrafo da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. “A Rússia teve revolução e permaneceu ortodoxa. Os Estados Unidos, mesmo com a Guerra Civil, se mantiveram protestantes. Entre os países grandes, mudanças desse tipo só ocorreram em consequência de guerras e revoluções. No Brasil, a revolução é silenciosa.” Santa Dulce dos Pobres pode vir a ser o ímã de recuperação católica, e sua inspiradora trajetória tem força inigualável, capaz de reunir, num só personagem, humildade e perseverança, delicadeza e aspereza.

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Em nome dos pobres e dos doentes, a mulher de 1,48 metro era gigante. Criou um dos maiores complexos de saúde do Brasil, o Hospital Santo Antônio, em Salvador, que hoje faz 3,5 milhões de procedimentos ambulatoriais por ano, gratuitamente. Ela atraía atenção, carinho e dinheiro de políticos e empresários como Antonio Carlos Magalhães e Norberto Odebrecht. Nascida numa família de classe média (filha de dentista e professor), tinha uma afeição espantosa pelos miseráveis. Certa vez, foi alimentar um morador de rua. Na primeira colherada, ele cuspiu a comida na cara da religiosa. Dulce reagiu: “A primeira colher era para mim mesmo, agora coma você”. Invadiu casas para abrigar gente que morava nas ruas. Foi afastada de sua congregação, a das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em razão de suas atividades, que não seguiam regras tradicionais.

LIBERAL – O papa no Sínodo para a Amazônia: atalho para atrair mais gente

LIBERAL – O papa no Sínodo para a Amazônia: atalho para atrair mais gente Remo Casilli/Reuters

Era natural, quase vocacional, que o mundo ao redor de Dulce a levasse ao vestibular da Congregação para a Causa dos Santos. Seus seguidores sabem, de cor e salteado, os dois milagres que a tornaram santa — a hemorragia subitamente estancada da funcionária pública sergipana Claudia Cristina dos Santos, que sofreu durante dezoito horas depois do parto e se salvou ao ouvir orações de seguidores de irmã Dulce, e a cegueira rapidamente solucionada do maestro baiano José Mauricio Moreira, que conviveu catorze anos com um glaucoma e recuperou a visão ao esfregar a imagem da freira nos olhos. A dupla de eventos, reconhecida pelo Vaticano, é apenas a pequena ponta de um imenso iceberg. “Desde a morte de irmã Dulce, cerca de 13 000 relatos de supostos milagres chegaram às Obras Sociais Irmã Dulce”, diz Osvaldo Gouveia, museólogo da entidade inaugurada pela freira. Eles são enviados por e-mail ou cartas de todo o país. Bahia, Minas Gerais e São Paulo são os estados que mais encaminham testemunhos de fé. Alguns foram rapidamente descartados no processo de canonização, por improváveis — outros seguiram adiante, para o escrutínio oficial, e, por alguma impossibilidade de confirmação religiosa, permaneceram apenas no coração e nas lembranças dos salvados. A reportagem de VEJA selecionou quatro histórias, entre as dezenas de milhares propostas, de pessoas que acreditam ter recebido um milagre ao rezar a irmã Dulce, relatos colhidos nas cidades paulistas de Santo André, Santa Bárbara d’Oeste e Jaguariúna, que abriga a primeira paróquia dedicada a Dulce no país (leia abaixo).

Não é fácil ser santo, e irmã Dulce entrou numa engrenagem que talvez seja a mais severa (e fascinante) da Igreja. Na Antiguidade, quase todo mártir cristão era alçado à condição de santo. Não havia regras, daí o número de 27 000 santos listados. No século XVI, o papa Sisto V determinou que apenas o sumo pontífice poderia conceder o definitivo nihil obstat (nenhuma objeção, em latim). Instalou-­se, a partir daí, uma complexa estrutura na fábrica de santos — tão intrincada, tão repleta de subterfúgios, que rapidamente se transformou em máquina de desvio de dinheiro e corrupção ao longo dos séculos. Em um livro de 2015, Via Crúcis, o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi revelou, com base em documentos sigilosos, que o escritório do Vaticano encarregado das canonizações chegava a pedir até 50 000 euros para abrir determinadas causas. Um único processo de santificação poderia custar 750 000 euros, para análise de postulados, pagamento de traduções, contratação de médicos — sim, todo milagre só é aceito desde que a medicina seja incapaz de explicar recuperações do corpo humano — e, em casos escandalosos, o pagamento de pareceres. Quatro meses depois das denúncias, o papa Francisco criou novas regras para o rito. Em 2016, ele definiu que toda contribuição para qualquer processo de canonização tem de ser depositada numa única conta e gerenciada por um único administrador, que deve “escrupulosamente respeitar as intenções dos contribuintes”. Irmã Dulce foi canonizada sem nenhum atalho irregular. Em depoimento ao jornalista Graciliano Rocha, no livro Irmã Dulce, a Santa dos Pobres (Editora Paralela), o banqueiro Ângelo Calmon de Sá estima que a causa tenha custado 1 milhão de reais entre 1999 e dezembro de 2010, momento da beatificação anunciada por Bento XVI. O dinheiro veio de doações.

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A iniciativa de Francisco, moralizadora, segue a trilha inaugurada por João Paulo II — de simplificação e transparência na estrada que vai dar nos santos (embora, ressalve-se, nem sempre bem-sucedida). Na Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister, de 1983, o papa polonês determinou mudanças fundamentais. A principal: o número de milagres para a beatificação caiu de dois para um, e o da canonização, de quatro para dois. Além disso, dentro da estrutura da Santa Sé, a definição dos santos deixou de ser a briga eterna entre os defensores das causas e os chamados “advogados do diabo” e passou a se espelhar nos processos acadêmicos, de concessão de doutorados. Nas palavras do padre americano Richard Gribble, “era um julgamento e agora é uma investigação”. Longa, mas necessária — e interessante demais para ser desdenhada.

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Depois da morte do candidato, uma petição formal é submetida a Roma para os passos inaugurais da beatificação (no caso de irmã Dulce, os primeiros papéis pousaram em Roma em janeiro de 2000). Com a aprovação, a diocese local indica um postulador, o encarregado de reunir os testemunhos, de reconstruir a vida do pretendente (o advogado de Dulce foi o teólogo calabrês Paolo Vilotta, de 37 anos, sempre muito bem-vestido e permanentemente calado). O passo seguinte é a exumação do corpo, modo de garantir que a pessoa existiu (dali foram extraídos os fragmentos ósseos da baiana levados a Francisco). Com o material reunido, o relator finaliza o positio, peça derradeira de defesa da postulação, submetida aos cardeais da Congregação para a Causa dos Santos, que então se debruçam sobre os supostos milagres, convocando médicos especialistas — pelo menos sete. Um milagre tem de ser preternatural (quando a ciência não é capaz de explicá-lo), instantâneo (acontecer imediatamente após a oração), duradouro e perfeito.

Na visão do Vaticano e dos fiéis, os santos e as santas levam a Deus as súplicas de seus semelhantes. Feita santa, Irmã Dulce dos Pobres tem pela frente um desafio, que, se não pode ser considerado milagroso, porque seria desrespeitoso imaginá-lo assim, é árduo: iluminar os caminhos para a Igreja Católica no Brasil. Essa talvez seja sua grande missão a partir deste domingo, 13, dia em que Francisco, o papa simples, vai canonizá-la.


“irmãzinha, me livre dessa dor”

 Egberto Nogueira/ímã Foto Galeria/.

“Eu tinha a síndrome do túnel do carpo, doença que incapacita os movimentos do braço pela dor que causa. Os sintomas iam de formigamento a uma dor lancinante, que vinha e voltava. Um dia, o médico disse que não havia mais solução, só operando. Mas tive de me submeter antes a uma outra cirurgia. Em recuperação desse procedimento, senti a pior dor da minha vida. Chorava como criança. Por uma razão inexplicável, me veio à cabeça a beata Dulce: “Por favor, irmãzinha Dulce, me livre dessa dor”, rezei, e rezei. Nunca tinha rezado a ela. A dor sumiu na hora. Isso foi há treze anos, e a dor nunca mais voltou. Hoje eu participo de grupos de pescaria, pesco peixe de 2,5 quilos. Foi um milagre.”

Carmelita Bedin, 81 anos. Santo André (SP)

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“Ela apareceu para mim”

 Egberto Nogueira/ímã Foto Galeria/.

“Em 2014, minha mulher teve de se submeter a uma cirurgia arriscada. Ela podia ter uma inflamação no pâncreas. Decidimos pela operação. Durante o procedimento, tive a forte sensação de que eu iria perdê-la. Coloquei as mãos no rosto e vi, de olhos fechados, a imagem de uma mulher baixinha com um pano na cabeça. Ela me falou: “Pode ficar tranquilo, estou cuidando dela”. Minutos depois, soube que operação tinha sido bem-sucedida. Após alguns dias, ao ver uma foto de irmã Dulce no jornal, percebi que a pessoa que havia aparecido para mim era ela. Foram dois milagres: ela salvou minha mulher e me deu uma fé inabalável.”

Pedro Florentino, 58 anos, e a mulher, Aparecida, 52. Santa Bárbara d’Oeste (SP)


“Meu neto tem uma vida normal”

 Egberto Nogueira/ímã Foto Galeria/.

“Quando minha filha engravidou pela terceira vez, fiquei muito preocupada. Seu útero tinha varizes. Ela poderia ter hemorragias. O médico havia desaconselhado a gestação, inclusive. Mas o problema que aconteceu foi outro. Ao ver meu neto, Luís Otavio, minutos depois do nascimento, percebi que ele estava um pouco mais roxinho que o normal. Conversei com os médicos, e eles disseram que ele tinha nascido sem um pedaço grande do intestino e que a única solução seria operá-lo. Disseram também que dificilmente ele suportaria a cirurgia. Tinha apenas doze horas de vida. Na hora fui à capelinha do hospital e pedi à beata Dulce que tivesse misericórdia do meu netinho. Ele não só sobreviveu como tem uma vida normal. Os médicos ficaram impressionados. Ele foi abençoado por um milagre. Não consigo dizer o nome da minha santa sem chorar.”

Ieda Vilma da Silva Borgognoni, 75 anos, com a filha Daniele, 37, e o neto Luís Otavio, 1 ano e 7 meses. Jaguariúna (SP)

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“As bonecas espalham fé”

 Egberto Nogueira/ímã Foto Galeria/.

“Meu pai tinha Parkinson. Cheguei a deixar minha cidade para ficar com ele, em São Paulo. Durante uma internação, ouvi dos médicos que não havia mais nada a fazer. Eles me pediram autorização para dar uma injeção que o levasse ao fim. Não entendo de medicina, sabia que seu estado era grave, mas senti que não era a hora de ele ir embora. Eu não disse nada. Simplesmente rezei à irmã Dulce, de quem sou devota há muito tempo, com todo o fervor. Pedi simplesmente que meu pai nos deixasse apenas na hora certa. No dia seguinte, o médico que cuidava dele foi substituído no hospital — e o novo doutor teve outra postura. Meu pai viveu por mais dois anos. Hoje passo o dia fazendo bonecas da minha santinha para dar de presente a amigos e parentes.”

Isaura Nogueira, 63 anos. Jaguariúna (SP)

 

Publicado em VEJA de 16 de outubro de 2019, edição nº 2656

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