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Sem o apoio de Bolsonaro, candidatos a prefeito pelo PSL naufragam

A sigla tem quase 200 milhões para gastar nas eleições, mas só uma reviravolta improvável nas próximas semanas vai evitar um vexame na disputa deste ano

Por João Pedroso de Campos Atualizado em 9 out 2020, 10h22 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Fundado em 1994, o PSL passou mais de duas décadas no ostracismo da selva partidária brasileira, até fazer uma aposta certeira: acolher o então deputado Jair Bolsonaro na corrida presidencial de 2018. A improvável vitória do capitão anabolizou o partido criado pelo empresário pernambucano Luciano Bivar. O PSL passou a contar, além do presidente da República, com a segunda maior bancada na Câmara (52 deputados federais, entre os quais o próprio Bivar), quatro senadores e três governadores. Mas a festa durou pouco. A escalada de sucesso foi interrompida devido a suspeitas de irregularidades em campanhas e disputas internas, sendo que a principal delas culminou com a saída de Bolsonaro da sigla. Apesar dos reveses, o período de alta ainda deixou um legado importante, que, em teoria, representa uma vantagem na disputa das eleições deste ano: 10,1% do tempo na propaganda gratuita e quase 200 milhões de reais de fundo partidário à disposição de seus candidatos. Tais recursos, no entanto, parecem insuficientes até aqui para evitar um vexame nas urnas em novembro.

ÓRFÃO - Lima: vice-líder do governo não tem apoio do presidente – Saulo Angelo/Futura Press

A campanha está apenas começando, mas os primeiros sinais já acenderam o sinal vermelho de alerta. Nas treze capitais em que a sigla lançou candidatos, a mais bem colocada nas pesquisas é Vanda Monteiro, terceira posição em Palmas, com 8% das intenções de voto, segundo o Ibope. Em Curitiba, o instituto de pesquisas mostra Fernando Francischini em segundo lugar, mas com apenas 6% da preferência (Rafael Greca, do DEM, tem 47% e pode ganhar no primeiro turno). Nas duas maiores cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, os deputados Joice Hasselmann e Luiz Lima têm 1% cada um — os dois tentam ganhar espaço entre o eleitorado de direita contra o deputado Celso Russomanno e o prefeito Marcelo Crivella, respectivamente, ambos do Republicanos e depositários da simpatia do clã presidencial. No caso de Lima, nem o fato de ser vice-líder do governo Bolsonaro na Câmara lhe garantiu o apoio do presidente.

  • A exemplo de outras siglas em má posição no início da disputa, o PSL aposta a maioria de suas fichas em uma virada com o início do horário eleitoral (veja matéria na pág. 44). Especialistas avaliam que o peso da propaganda gratuita e do dinheiro foi menor em 2018 porque a eleição foi atípica, com partidos e a política tradicional desgastados. “Com dinheiro e tempo de TV, o PSL não pode ser desprezado”, avalia o cientista político Carlos Pereira, da FGV. O partido quer convencer os eleitores de que também ficou mais longe das confusões. Depois das suspeitas sobre uso de candidaturas femininas laranjas, o PSL contratou a consultoria Alvarez & Marsal para criar regras de compliance internas e adotou um sistema que libera os recursos só depois de um cadastro detalhado dos postulantes.

    Grande parte das dificuldades atuais do PSL está ainda relacionada à saída traumática do presidente, que abriu um rombo político difícil de ser resolvido no partido. Na esteira da deserção de Bolsonaro, os governadores de Rondônia e Roraima deixaram o partido, e o de Santa Catarina está seriamente ameaçado por um processo de impeachment. O PSL na Câmara rachou entre bolsonaristas e bivaristas, e metade da bancada do Senado evaporou, com a saída de Flávio Bolsonaro (RJ) e a cassação de Selma Arruda (MT). A passagem de Bolsonaro pelo PSL teve tamanho impacto na sigla que alterou o perfil de quem se candidata pelo partido. Nas eleições municipais de 2016, 55,5% dos 10 555 candidatos eram pretos e pardos e metade das 162 candidaturas a prefeito se concentrava no Nordeste. Na época, policiais civis, policiais militares, bombeiros e militares aposentados somavam apenas 137 candidatos. No pleito de 2020, o número total de concorrentes saltou para 21 979, dos quais 53,4% são brancos e 616 profissionais ligados à segurança pública. Depois da saída tumultuada do presidente, há negociações pela volta do capitão à sigla, mas elas foram suspensas até a eleição à presidência da Câmara. Nada é garantido. Ao mesmo tempo que manda mensagens de uma possível reconciliação, Bolsonaro flerta firmemente com o Republicanos. Ou seja, não há nenhum fato político no curto prazo que possa influenciar nas eleições de novembro e só uma improvável virada vai evitar uma derrota que pode significar o início de uma queda acelerada. O risco é o PSL caminhar rapidamente de volta ao ostracismo das siglas nanicas.

    Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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