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O discurso do ministro da Saúde: 3 minutos e 20 segundos de obviedades

Três médicos avaliam o discurso de Nelson Teich e concluem: 'ele disse que fará o mesmo que o Mandetta faria, só que em um momento diferente'

Por Roberta Paduan Atualizado em 22 abr 2020, 10h49 - Publicado em 22 abr 2020, 10h30

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, não tem o dom da retórica como seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, defenestrado pelo presidente Jair Bolsonaro, entre outros motivos, pela simpatia que vinha despertando em suas aparições televisivas. À frente do ministério, Teich interrompeu a série de entrevistas coletivas diárias adotadas pela pasta para falar sobre o combate ao coronavírus e fez apenas dois pronunciamentos: um no dia da posse e outro nessa segunda-feira, 20, em um vídeo de 3 minutos e 20 segundos.

VEJA pediu a três médicos, dois deles que conhecem o ministro pessoalmente, para avaliar a declaração de Teich no vídeo desta segunda-feira. Os três foram unânimes em dizer que ele foi “técnico”, “óbvio” e o mais surpreendente: disse que fará exatamente o que Mandetta disse que faria, só que de outra forma e em outro momento da crise, quando os testes e insumos começam a reaparecer no mercado.

No vídeo Teich afirma que está planejando uma “saída estruturada e progressiva do isolamento” e, para isso, o ministério aumentará de 24 milhões para 46 milhões a quantidade de testes a serem aplicados na população. “Esses testes vão ser usados de uma forma que permitam que a gente entenda o que está acontecendo na sociedade. Em uma analogia, é a mesma coisa que fazer uma pesquisa de opinião. Você define qual a amostra ideal da sociedade que você vai usar, para que ela (amostra) reflita essa sociedade, para que você entenda o que está acontecendo, para que você possa tomar suas decisões e desenhar suas ações de forma mais segura e organizada”.

Não deixa de ser aflitivo que, em meio a anúncios diários de mortes e da redução acelerada de leitos de UTI, o ministro profira frases como: “entender melhor o que está acontecendo na sociedade”, “para que se possa tomar decisões e desenhar ações de forma mais segura e ordenada”. A impressão é que tais afirmações fossem mais adequadas há dois meses atrás, não agora.

Mas não é bem assim. Teich, na opinião dos especialistas, acerta ao dizer que precisará testar mais brasileiros, porque sabe que só poderá começar a reduzir o distanciamento social, quando tiver certeza de que a curva de infecção chegou próxima ao pico. Ou seja, quando souber que o vírus já circulou bastante em uma determinada região e, a partir daí, as internações começarem a ocorrer em menor número que as novas infecções.

“A doença e o surto estão sendo estudados desde o início. Em uma epidemia, porém, o diagnóstico da curva de infecção é crucial para que se consiga relaxar as restrições de circulação sem promover uma tragédia (com infecções em massa novamente)”, afirma um dos três médicos, que é especialista em gestão hospitalar.

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Mas isso não é a mesma coisa que o ex-ministro Mandetta dizia desde o início da crise? Exatamente a mesma, segundo os três médicos, que falaram na condição de anonimato. A diferença é o momento da crise. “As condições atuais de compra de testes e outros insumos, como máscaras de proteção, são muito diferentes da situação de três semanas atrás”, afirmou o gestor de uma rede da região Centro-Oeste.

De acordo com o segundo médico ouvido por VEJA, Teich terá mais condições de avaliar algumas teses que estão sendo estudadas, como a possibilidade de saídas regionais da quarentena. Cada estado terá picos de infecção em períodos diferentes. Uma das hipóteses é que São Paulo esteja chegando ao momento de pico. O Rio de Janeiro, porém, ainda estaria em uma curva ascendente.

Por um lado, é ótimo que São Paulo possa voltar à normalidade, mas não se pode esquecer que as duas maiores capitais do país estão a menos de 500 quilômetros de distância e um erro tático na fase de relaxamento pode provocar desfechos desastrosos para uma região inteira, lembrando que Minas Gerais também está na confluência dos dois estados.

  • A dúvida, segundo a terceira médica, esta baseada no Rio de Janeiro, é se Teich será capaz de controlar os arroubos do presidente Bolsonaro, que já afirmou que espera que o distanciamento acabe em uma semana. A colega de profissão definiu o novo ministro da seguinte forma: “Ele é brilhante. É aquela simplicidade mesmo que você vê pela televisão. É um cara que não precisa de dinheiro. Ficou muito rico quando vendeu a clínica (de oncologia que tinha no Rio de Janeiro) para a Amil. Agora, a mim, ficou bem claro que ele tem pretensões políticas. Ele fez campanha para o Bolsonaro e queria participar do governo desde o início”, diz a médica, que conhece o ministro pessoalmente e avaliou suas falas recentes.

    O terceiro médico ouvido por VEJA acrescentou que Teich conta com uma segunda vantagem em relação a Mandetta: “É provável que, sem o desgaste da relação que havia entre o presidente e o ex-ministro, ele (Teich) consiga convencer o Bolsonaro de que é preciso fazer os testes antes de relaxar completamente o distanciamento”, afirmou o epidemiologista.

    Os três, no entanto, afirmam que é preciso aguardar para confirmar se o “médico” Teich colocará em prática o que disse no vídeo dessa segunda-feira, ou se agirá como um “ministro obediente ao presidente”, já que “ele tem claramente pretensões políticas”, como afirmou a médica, que o conhece há mais de 15 anos.

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    Covid-19: Sem Mandetta, Bolsonaro faz mudança de risco nos planos A perigosa nova direção do governo no combate ao coronavírus, as lições dos recuperados e o corrida por testes. Leia na edição desta semana.
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