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Governo ‘constrange’ PSB para enfraquecer Campos, diz líder na Câmara

Deputado Beto Albuquerque, líder da bancada do PSB, afirma que o governo federal tem represado a liberação de recursos para governadores e prefeitos do partido que defendem candidatura própria contra a presidente Dilma Rousseff

“Quanto mais nos constrangerem, mais convicções vamos reunir para continuar nossa caminhada. Não é um ministério aqui ou ali que vai conformar nossa linha ideológica e política. Para nós, verbas e cargos não são ideologia”

Líder da bancada do PSB na Câmara dos Deputados, o gaúcho Beto Albuquerque é um fiel aliado do governo Dilma Rousseff no Congresso. Nos últimos meses, à medida em que o principal nome do seu partido, o governador Eduardo Campos (PE), começou a ensaiar a candidatura à Presidência da República, Beto Albuquerque notou que a relação com o governo federal mudou. Lideranças do PSB, especialmente prefeitos e governadores, têm retornado de Brasília com as mãos vazias. “Todo prefeito, todo governador tem de fazer investimentos. Aí o negócio demora, não assina, não libera…”, disse o deputado. Pelo menos três governadores do PSB – Camilo Capiberibe (AP), Cid Gomes (CE) e Renato Casagrande (ES) são contra o voo de Campos. Mas, para Beto Albuquerque, a base do PSB quer o contrário: “O PSB não é um partido que decide por cúpula ou por capa preta. O PSB tem base política e social, 90% do partido deseja ter um candidato”. Leia a entrevista ao site de VEJA.

Lideranças do PSB realmente não querem a candidatura do Eduardo Campos à Presidência? Tem gente no nosso partido que demonstra certa preocupação com a candidatura e com as implicações nos estados, o que eu considero natural que ocorra nessa época. Mas o partido, no momento certo, vai tomar uma decisão em convenção. E quando decidir o jogo vai estar jogado.

A candidatura Eduardo Campos é um projeto do partido ou desejo pessoal do governador de Pernambuco? O PSB não é um partido que decide por cúpula ou por capa preta. O PSB tem base política e social. Noventa por cento do partido deseja ter um candidato: os movimentos sociais, juventude, mulheres, movimento popular, movimento sindical, LGBT… São movimentos que têm se posicionado muito claramente em muitos estados pelo desejo de o partido ter protagonismo.

Que peso a posição dos governadores Camilo Capiberibe, Cid Gomes e Renato Casagrande e do ministro Fernando Bezerra (Integração Nacional), contrários à candidatura de Campos, pode ter na decisão do PSB? Há um grau de constrangimento de muitos gestores nossos em relação ao dedo do governo, à interferência do governo federal. O Brasil tem o pacto federativo às avessas, o governo federal tem tudo na mão: poder, caneta, Orçamento. É evidente que prefeito ou governador se sente constrangido a essa altura do campeonato, ou até ameaçado se tomar certas posições. Tem muito companheiro nosso que andou falando por em adotar o jogo do me engana que eu gosto: ‘Se o governo quer ouvir que eu sou contra, então tá, eu sou contra’. Só para não criar ruído na relação federativa. O lamentável disso tudo é que dinheiro público do BNDES ou do Orçamento não é do governante, é do povo. Então não tem que ter condição nenhuma. Mas pelo visto tem algumas figuras que acham que tem. A presidente Dilma não compactua com esse tipo de coisa, mas ela vai ter que olhar para dentro do governo, porque tem muita gente falando em nome dela.

Até que ponto isso é só conversa de integrantes do governo com os gestores do PSB? Quando passa a ser pressão? As coisas, para o PSB, não estão andando normalmente. Muitos de nós estamos nos sentindo constrangidos. Inclusive lideranças nossas que deram entrevistas. É melhor entrar no jogo do me engana que eu gosto do que dizer a verdade para não ser frustrado nos seus projetos. Temo muito quando tem gente que acha que é dono do dinheiro público.

O senhor pode citar algum exemplo? Todo prefeito, todo governador tem de fazer investimentos. E, hoje, para fazer investimento você tem que botar não o pires, mas o prato na mão e ir lá atrás de financiamento. Aí o negócio demora, não assina, não libera. Quer dizer, o constrangimento fica implícito, não é?

O senhor pode citar um caso específico? É algo que sentimos. Agora, quanto mais nos constrangerem, mais convicção teremos para continuar nossa caminhada. Não é um ministério aqui ou ali que vai substituir nossa linha ideológica e política. Verbas e cargos não são ideologia.

E a ideia é sair ou continuar na base da presidente Dilma? Se tivermos candidato vamos sair a tempo de ela entender, não vamos ficar no governo, evidentemente. Mas vamos tomar essa decisão na hora certa. Agora, se continuar esse nível de constrangimento, daqui a pouco não precisa nem ter candidato para pensar nisso. Não estamos fazendo nada de errado. Estamos exercendo o protagonismo de um partido que cresceu e tem o governador com melhor taxa de aprovação do país. Eduardo Campos é uma das cinco lideranças políticas do Brasil. Estamos exercendo nosso direito. Que mal tem nisso? Ou será que o ministro Joaquim Barbosa tem razão de que partido aqui é só de faz de conta? Partido que existe e não disputa nem concorre a nada porque tem medo de perder verba é o que, se não um partido de faz de conta? Não somos um partido de mentirinha.

O governador da Bahia Jaques Wagner, petista, disse a VEJA que 2018 seria o ano ideal para a candidatura de Campos. Concorda? Nós não acreditamos nisso. Nem em município isso acontece, imagina numa disputa presidencial. Não existe 2018 sem 2014, tampouco existe no horizonte do PT qualquer experiência já vivida ou propósito de entregar o seu espaço para alguém, seja no presente, seja no futuro. Tem uma fila de dez no PT querendo tentar a presidência em 2018. Inclusive o Jaques Wagner.